Em busca do pensamento livre.

Sábado, 13.10.18

 

 

 

Já faltam professores. Quando o inverno se impuser, e o cansaço se acumular, haverá falta de candidatos às substituições. Era previsível. Foi mais de uma década a descer. Sejamos claros: somos um país pobre (em grande parte por causa da "surpreendente dimensão" da corrupção - palavras da ex-PGR -, da "incomodidade" com a transparência e da desorganização), com baixos salários e com empregos pouco atractivos. Os jovens não têm alternativas internas e é também isso que alimenta alguma resiliência. Como agravante, o estatuto dos professores precarizou-se. O meio da carreira será o topo no futuro próximo e há todo um mar de desconsiderações. Olhe-se para os europeus que seguiram esse caminho.

Aliás, os professores são um exemplo para se perceber o esgotamento político do grande bloco central. A precarização teve um ideário comum. Os únicos cargos merecedores de um bom estatuto foram os de natureza política (para recrutar os "melhores") e os de topo das empresas, públicas e privadas, protegidas pelos estados.

Os EUA têm dois exemplos do inferno que se abateu sobre os professores. A mudança radical de posição de Diane Ravitch, ex-governante no tempo do 1º Bush, lê-se em duas obras preciosas: "O reinado do erro: A farsa do movimento de desestatização e o perigo para as escolas públicas da América" e "Vida e morte do sistema escolar americano: como os testes padronizados e o modelo de mercado ameaçam a educação". Mais recentes são os estudos que "desacreditam de forma inapelável" "o sistema de avaliação de professores patrocinado pela Fundação Gates e pelo "Obama Race to the Top": "baseou-se na avaliação de professores através dos testes padronizados aos alunos. O modelo remunerava eficazes e despedia ineficazes. Erraram em toda a linha. Prejudicaram os alunos, empurraram os melhores professores para fora da profissão e desencorajaram a candidatura dos jovens com melhores resultados. São responsáveis pela escassez de professores."

Klaus Schwab (2017:64) na "A Quarta Revolução Industrial", diz que "(...)os governos têm de se adaptar. O poder muda de agentes estatais para não estatais e de instituições estabelecidas para redes dispersas. As novas tecnologias e os grupos sociais e as interacções que promovem permitem que qualquer pessoa exerça influência de uma forma que seria inconcebível há poucos anos.(...)". Ou seja, se o século XXI assiste à eleição de potenciais ditadores com o voto de eleitores escolarizados, a explicação relacionar-se-á também com a exclusão e a precarização (a revolta e o desespero) como passos para o "não tenho nada a perder" (e, às tantas, para o "quanto pior melhor").

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Imagem: Paresh Nrshinga - Inspired by Mark Rothko



publicado por paulo prudêncio às 10:20 | link do post | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Terça-feira, 25.09.18

 

 

 

A Gazeta das Caldas (Caldas da Rainha) perguntou-me:

 

"Como perspectiva a Escola nos próximos 20 anos?"

 

Respondi assim ao desafio para um limite de 1000 caracteres (tem 1039):

 

Do muito positivo ao caótico.

Partindo da “Quarta Revolução Industrial” em curso, prevê-se que os resultados na sociedade da generalização das tecnologias possa oscilar entre extremos (do muito positivo ao caótico), com consequências no imperativo da igualdade de oportunidades. Há, contudo, uma zona cinzenta na prospecção detalhada. A escola integra esse universo de incertezas. Por exemplo, os professores não constam das profissões em “crescimento” ou propensas a desaparecerem com a automatização. Mas muitas outras constam, o que ajuda a organizar a escola do futuro – currículos, ofertas e programas de orientação profissional -, com forte referência à dimensão civilizada, democrática, desburocratizada e autónoma.

A regra, a finalidade e a exigência são património da cultura da escola, em paralelo com o erro, o drama, o afecto e a amizade. Para alunos, professores e outros profissionais, construir bons modelos de aprendizagem será sempre uma tarefa árdua. Por isso, a ideia de escola nunca prescindirá do dever de apoiar as necessidades de uns e de outros. 

 

O jornal escolheu a imagem para acompanhar o texto.

 

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publicado por paulo prudêncio às 15:28 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Sexta-feira, 22.06.18

 

 

 

As novas contas do Ministério das Finanças ("os custos das progressões dos professores em 2018 baixam de 90 para 37 milhões"), escaparam a uma geometria política variável na manipulação de números e argumentos que há mais de uma década degrada a carreira dos professores. Ou seja, o concreto fragilizou a argumentação governativa. Tem sido assim com os últimos executivos e nem os governantes da educação diferem (dá ideia, tal o grau da coisa, que o presente é um ajuste de contas que vem de 2007 e 2008, como se não bastasse o desprezo profissional que se intensificou desde aí). Aliás, o que surpreendeu os governos, e quem os apoia de modo clubista, foi a capacidade dos professores mediatizarem argumentação e desconstruirem falácias com solidez. Já era tempo, e como sublinha Klaus Schwab (2017:64) na "A Quarta Revolução Industrial", de "(...)os governos se adaptarem ao facto do poder estar a mudar de agentes estatais para não estatais e de instituições estabelecidas para redes dispersas. As novas tecnologias e os grupos sociais e as interacções que promovem permitem que praticamente qualquer pessoa exerça influência de um forma que seria inconcebível há apenas alguns anos.(...)". A educação está num pré-caos e num impasse: o Governo terá de rebuscar o faseamento da recuperação do tempo de serviço e a plataforma sindical não poderá assinar uma versão que não o contemple. A mesa negocial não valorizou o aparecimento de um sindicato digital, nem, e pela enésima vez, o efeito das redes sociais e do grau de saturação dos profissionais, e o executivo adiou o inadiável. Agora, terá de ser célere e inteligente numa solução salvífica para as faces. 

 

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Faces, Picasso



publicado por paulo prudêncio às 18:57 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Quinta-feira, 24.05.18

 

 

 

Não é surpreendente que se apontem as "empresas externas" (o conhecido outsourcing, predominante nas plataformas digitais) como a componente mais desfavorável para as organizações modernas: a opção facilitou o aumento da escala e desprezou a gestão de proximidade como valor precioso e inalienável. A "gestão do exterior" satisfez os investidores porque permitiu a subida dos lucros com a redução de profissionais. Essa supressão cerebral (na maioria dos casos, e incluindo o escolar, sem qualquer relação com a 4ª indústria ou com a robotização) deslocou para o exterior a definição da informação a obter.

As instituições deixaram de agir livremente sobre os sistemas de informação. Foi um perda com uma agravante: se antes da sociedade da informação e do conhecimento o poder era exercido por quem decidia sobre o financeiro, a partir daí surgiu um pólo paralelo: a informação. A "gestão do exterior" apoderou-se dos dois domínios. E por mais partilhado que fosse o período de análise dos sistemas, os decisores exteriores podiam sempre argumentar: "é uma boa ideia, realmente, mas impossível de concretizar". A dependência externa generalizou-se. Como disse Niklas Luhman, o homem perdeu "a posição de centralidade no organismo social e foi remetido para o exterior, passando a fazer parte do meio ambiente do sistema. Tornou-se uma causa para o aparecimento de problemas constantes e de complexidades crescentes" (no caso escolar, todos os actores foram remetidos para o exterior; com mais visibilidade para professores e restantes profissionais mas com consequências para os alunos).

 

Já usei parte desta 

argumentação noutros textos.

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publicado por paulo prudêncio às 21:46 | link do post | comentar | partilhar


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