Em busca do pensamento livre.

Sábado, 15.12.18

 

 

Já lá estamos. Se ler o que se segue, indentificará o sítio onde nos apressamos a chegar.

 

Em 27 de Fevereiro de 2018 escrevi assim:

 

A OCDE concluiu que há professores na Europa a precisar de tutorias e há quem pense de imediato em Portugal(...). Discordo. Há países onde já não há professores, tal os tratos a que o grupo profissional tem sido alvo. No Reino Unido e na Alemanha, por exemplo e lido assim de repente, precisam de tutorias porque há pessoas sem formação académica, e muito menos profissional, que recorrem ao ensino "apenas" para terem um salário. Em Portugal, como em França ou Espanha, ainda não é tanto assim. Mas não tarda. Por cá, lá abrirão os telejornais com a falta de professores porque o estatuto da carreira se degradou. Quase que não existem alunos no não superior candidatos aos cursos de formação de professores e os excessos no tempo para a aposentação provocam baixas médicas em catadupa e uma atmosfera de substituições temporárias pouco apelativa.



publicado por paulo prudêncio às 15:06 | link do post | comentar | partilhar

Quarta-feira, 12.12.18

 

 

 

"Deliberadamente vamos utilizar terminologia clássica, aclarando, desde logo, que "não se trata de advogar ou propor o regresso a um passado mítico, e muito menos defender programas mínimos como ler, escrever e contar ou tendências de "back to basics". Trata-se, pelo contrário, de abrir novas perspectivas que ponham a aprendizagem, no seu sentido mais amplo, no centro das nossas preocupações" (Nóvoa, 2009, 194). Reivindiquemos exigência e clareza no debate sobre as coisas públicas: "O buraco negro do debate público sobre educação, capaz de absorver e fazer desaparecer qualquer ideia que se aproxime, é hoje a dificuldade em chamar as coisas pelos seus nomes" (Fernando Enguita, 2009, 72)"

 


Angel García del Dujo.

La escuela en crisis/Recontrucción del sentido de
la actividad educativa escolar (página 83)
(a tradução é minha)



publicado por paulo prudêncio às 17:34 | link do post | comentar | partilhar

Segunda-feira, 10.12.18

 

 

Não sei se quem desenha estas diferenças imagina a entropia que estes detalhes podem causar.

 

(é sempre o mesmo quadro; a repetição e ampliação é para que se leia o essencial)

Captura de Tela 2018-12-10 às 13.27.09

Captura de Tela 2018-12-10 às 13.31.28

Captura de Tela 2018-12-10 às 13.31.28

 

Encontrei o quadro no blogue Da Reitoria.



publicado por paulo prudêncio às 13:21 | link do post | comentar | partilhar

 

 

 

"O Direito À Informação E Ao Conhecimento – 1"

 

"O Direito À Informação E Ao Conhecimento – 2"

 

"O Direito À Informação E Ao Conhecimento – 3"



publicado por paulo prudêncio às 10:28 | link do post | comentar | partilhar

Domingo, 02.12.18

 

 

 

Como é possível que o deputado do PS, Paulo Trigo Pereira, "escreva na sua declaração de voto" que os professores exigiram retroactivos? Não acredito que não saiba que não é verdade. Como o deputado é economista, decerto que saberá que os retroactivos superariam a última antecipação ao FMI (8 mil milhões de euros) e que os professores foram a classe profissional mas atingida na administração central;  e de longe. Entre 2006 e 2016, por exemplo, "desapareceram" mais de "40 mil professores (cerca de 30%)" enquanto a dívida pública subia de "64.7% do PIB (2006)" para os "130% do PIB (2016)". E como é que isso se explica? Por que será que há tanto receio em detalhar a dívida pública e informar devidamente as pessoas?

Se este constante "arremesso ao professor", que é partilhado em locais inesperados, tem efeitos nas salas de aula (não serão as únicas causas, obviamente) como se percebe na conclusão da OCDE que diz que "a pequena indisciplina nos coloca no primeiro lugar do tempo perdido para começar uma aula", é importante que se sublinhe a resiliência dos professores que, e "como também sublinha a OCDE em relação ao respeito, e reconhecimento, mútuo generalizado entre professores, alunos e encarregados de educação, os professores portugueses são os melhores a adaptar as aulas às necessidades dos alunos." Convenço-me que estas pessoas não têm qualquer noção do que é uma sala de aula e da energia decisória que é necessária para corresponder a dezenas de solicitações importantes por parte de trinta indivíduos (crianças e jovens) por hora.

Estudos recentes dizem que "só os alunos dão ânimo aos professores" e que "os professores são vítimas de uma organização de trabalho que os adoece". Mas não se lê uma linha sobre o assunto. Deputados, comentadores e até governantes silenciam a tragédia. Se o sistema escolar mais parece um manicómio organizacional antecipado pela sonda da NASA que aterrou em Marte, dá ideia que os decisores políticos, e os seus suportes comunicacionais, se julgam a salvo noutra galáxia, e com outro sol, e insistem nestas falácias completamente intoleráveis.

Imagem: Pôr-do-sol em Sagres.

IMG_2839

 



publicado por paulo prudêncio às 17:22 | link do post | comentar | partilhar

Quinta-feira, 29.11.18

 

 

Contributo de Mário Silva recebido por email.

(ainda noutro dia ouvi quem se conformava com o facto dos filhos adolescentes - 12 e 14 anos - serem youtubbers. Pelo que percebi, não gostam da escola - e pensam, entretanto, deixá-la - e já têm rendimentos financeiros que me surpreenderam.)

 

"Em tempos longínquos, além do trabalho curricular na sala de aula, várias vezes proporcionavam-se debates espontâneos sobre a sociedade (cultura, economia, política, etc.), de tal modo, que ainda hoje esses antigos(as) alunos(as), adultos no mercado de trabalho, recordam-se particularmente desses momentos; ouviram e não esqueceram.

Com as catastróficas transformações pedagógicas que entretanto ocorreram, esses tempos extinguiram-se, e com as profundas alterações tecnológicas e sociais, as gerações seguintes têm outra postura na sala de aula: não se interessam por temáticas que não sejam lúdicas. Por isso, foi com estupefacção que esta semana os alunos do 3º ciclo falavam recorrentemente sobre o artigo 13 da diretiva da UE, e perguntavam a opinião aos profs (esse artigo tem sido polémico porque põe em causa a liberdade de informação na internet). Obviamente que se questionou como é que raio sabiam dessa coisa do artigo 13; e a resposta foi que "um youtuber publicou um vídeo sobre isso e como não sabíamos o que era fomos pesquisar".

“Quer dizer, se fosse um professor a falar isso na aula, quando saíssem da sala já tinham esquecido, mas como foi um youtuber, não se esquecem”, comentou o professor para a turma.

“Claro, os alunos não estão interessados no que os profs dizem e por isso não ouvimos, mas os youtubbers são mais interessantes”, foi a resposta pronta de uma aluna, com a anuência da generalidade da turma.

E deste modo ficou esclarecido que os youtubers serão os substitutos dos profs, já que são mais eficazes na captação da atenção da miudagem...

Outra consequência grave, é a desvalorização completa da escola, como instituição formadora de futuros cidadãos adultos produtivos, já que levanta-se a questão de como convencer para a importância da formação educativa quando se pode ser youtuber com tremenda facilidade e sucesso garantido, sem ter de se sujeitar ao trabalho de estudar durante anos...

“Wuant, um dos mais influentes youtubers, a facturar mais de um milhão de euros por ano, como divulgou o Dinheiro Vivo no início de 2018.

Em casa de Sandra Marques, na zona de Leiria, o vídeo de ontem caiu que nem uma bomba. Maria, a filha de 11 anos, "chorou baba e ranho, ficou em pânico porque o Youtube ia acabar, porque o canal do Wuant ia fechar. Ela segue-o religiosamente, tudo o que ele diz é lei, e obrigou-nos até a ir pesquisar sobre o art.º 13, de que nunca tínhamos ouvido falar". Enfermeira de profissão, a mãe habituou-se a ver a filha muito mais ligada ao YouTube do que à televisão, ao contrário do que acontecera com o filho mais velho, agora com 16 anos. "Ela e as amigas também querem ser youtubers, porque tudo aquilo que eles lhes mostram é uma vida boa, em que o trabalho é prazer, é filmar e fazer paródias na internet, ganham todos imenso dinheiro e é como se estivessem sempre de férias", acrescenta.

Um dia antes o youtuber português tinha publicado um vídeo em que mostrava aos fãs a sua casa nova, que divide com a namorada, a (também) youtuber Owana. É o sonho de qualquer criança: espaços grandes e luminosos para jogar, ecrãs gigantes, máquinas de pipocas, de waffles e sumos. Uma piscina, terraço com bela vista, a vida que qualquer miúdo gostava de ter.” DN
 
(fonte:
https://www.dn.pt/pais/interior/o-fim-da-internet-como-um-youtuber-lancou-o-panico-entre-as-criancas-e-jovens--10244509.html)"


publicado por paulo prudêncio às 10:04 | link do post | comentar | partilhar

Segunda-feira, 26.11.18

 

 

 

Foi em Fevereiro de 2014 que se mediatizou a Parvalorem.SA, criada para "nacionalizar" o BPN, por causa da intenção de venda dos Miró. Como o nome sugeriu, foi uma espécie de "façamos os populares de parvos". Quatro anos depois, a versão usa os professores:

 

"Marcelo só decide sobre professores depois de analisar Orçamento. Questão vai ser de novo analisada pelo Conselho de Ministros. E Belém já fez saber que só analisará diploma aprovado pelo Governo depois se ter pronunciado sobre o novo Orçamento de Estado."



publicado por paulo prudêncio às 21:37 | link do post | comentar | partilhar

Domingo, 25.11.18

 

 

 

Quem lê o relatório "Estado da Educação 2017" do Conselho Nacional da Educação (da Educação, sublinhe-se) conclui que a culpa por reprovarem tantos alunos está na escola. E o debate à volta dos números elevados, e eternos, do insucesso e abandono escolares (3 crianças em cada 100, logo no 2º ano) apontou a causa que originou a perplexidade de muitos: organização do 2º ciclo. O CNE nunca debate a educação não centrada na escola e é uma pena. Portugal tem, e como alguém disse, uma "escola transbordante".

Se não se discute a educação por falta de temas modernos, podemos ajudar. Perceba-se porque é que especialistas das empresas de Silicon Valley escolhem escolas que não usam computadores e afins antes dos 13 anos e eliminam as tecnologias das funções de babysitter. Sublinham os efeitos negativos nas aprendizagens nucleares e duas supressões: tempo com as crianças e "brincadeiras de rua". Por outro lado, Paddy Cosgrave, da Web Summit, salientou as vantagens para a sua equipa (e surpreendeu os arautos da selva laboral) num contrato de dez anos com Lisboa: "construir uma carreira e estabilizar a vida". Ou seja: crianças viciadas em tecnologias e pais precários, com muita mobilidade ou sem tempo, comprometem dois factores educativos decisivos: aprendizagens essenciais e crianças-não-agendáveis com direito à lentidão. E depois há aquele flagelo, também eterno e indiscutível, de 2 milhões e meio de pobres em 10 milhões de habitantes.

Claro que continuam as turmas com três dezenas de alunos e o afunilamento dos currículos e dos ambientes organizacionais. Mas até isso é invisível para o CNE. Já agora, e tergiversando ligeiramente, o "novo" CNE identificou de entrada (2016) que "(...)entre as tarefas que desviam os professores da sua “missão essencial”, figuram “a sobrecarga de reuniões e de múltiplas tarefas de natureza burocrática”(...)que as condições dos docentes tornaram-se mais difíceis(...)registam-se mais processos de stress e burnout (exaustão)." Apesar da situação se ter agravado, a sensibilidade do CNE só se comove com a tal estrutura do 2º ciclo.

Só mais uma nota: flexibilizar o currículo - ou as ideias de "área-escola" e "área de projecto" -, é um desejo antigo anterior às "novas" tecnologias, inspirado na integração de saberes e na necessidade de ir além da escola-indústria e das ideias "back to basics". Catalogar a interdependência dessas categorias, flexibilização e uso de tecnologias, é desconhecer a história da pedagogia. É óbvio que o uso sensato das tecnologias as transforma em ferramentas muito interessantes.

Imagem (tratada) obtida na internet sem referência ao autor.

 

45092162405_a6f99ab855



publicado por paulo prudêncio às 16:45 | link do post | comentar | partilhar

Quinta-feira, 22.11.18

 

 

Flexibilizar o currículo - ou as ideias de "área-escola" e "área de projecto" -, é um desejo antigo anterior às "novas" tecnologias e relacionado com a necessidade de ir além da escola-indústria. Considerar uma interdependência essencial entre essas categorias, flexibilização e uso de tecnologias, está num nível relacional tão escusado como o que impõe competições em catadupa para elevar aprendizagens.



publicado por paulo prudêncio às 12:34 | link do post | comentar | partilhar

Quarta-feira, 21.11.18

 

 

Até parece que adivinhava a mediatização do relatório "Estado da Educação 2017" que o Conselho Nacional da Educação (CNE) deu hoje a conhecer. É que ainda ontem fiz um post sobre o silêncio do CNE. Há uma preocupação com o insucesso escolar elevado. Do que li, só detecto causas na escola. Ou seja, em Portugal não existe sociedade. A educação é a escola e ponto final. Discordo. Um CNE deve reflectir sobre a educação e não apenas sobre a escola. Voltarei ao assunto no fim-de-semana. O título da notícia diz assim:

"Chumbar um aluno custa 6000 euros, ensiná-lo a estudar só 87. A retenção é uma medida “cara e inútil”, diz a presidente do Conselho Nacional de Educação. Outras opções são mais baratas e eficazes.(...)"



publicado por paulo prudêncio às 19:12 | link do post | comentar | partilhar

Terça-feira, 20.11.18

 

 

Ora leia este post de Junho de 2016 e compare com o que se passa:

"(...)Entre as tarefas que desviam os professores da sua “missão essencial”, figuram “a sobrecarga de reuniões e de múltiplas tarefas de natureza burocrática”, como por exemplo o preenchimento de aplicações instaladas em plataformas electrónicas, que “poderiam ser desenvolvidas por assistentes técnicos”, destaca o CNE num parecer sobre a condição docente.(...)". Digamos que a hiperburocracia está há muito identificada e que a passagem para o digital torna ainda mais ridícula a ausência de estratégia informacional. Aos sucessivos discursos governamentais com promessas de eliminação da praga, corresponde sempre mais burocracia. Conclui o CNE, que acorda tardíssimo, mas acorda, que “nos últimos anos, as condições de trabalho dos docentes nas escolas têm vindo a tornar-se mais difíceis”, o que contribui para que se registem “processos de stress e burnout [exaustão]".

Estamos, objectivamente, pior e ponto final. (e o que é feito do CNE?)

19691552_zfZQz

 



publicado por paulo prudêncio às 16:10 | link do post | comentar | partilhar

Segunda-feira, 19.11.18

 

 

Não é surpreendente que se apontem as "empresas externas" (o outsourcing e as plataformas digitais) como uma das componentes mais desfavoráveis nas organizações modernas. A opção facilitou o aumento da escala e desprezou a gestão de proximidade como valor precioso e inalienável. A "gestão do exterior" satisfez os investidores porque permitiu a subida dos lucros com a redução de profissionais. Essa supressão cerebral (na maioria dos casos, e incluindo o escolar, sem qualquer relação com a 4ª indústria ou com a robotização) deslocou para o exterior a definição da informação a obter.

As instituições deixaram de agir livremente sobre os sistemas de informação. Foi uma dupla perda: se antes o poder era exercido por quem decidia sobre o financeiro, a partir daí surgiu um pólo paralelo: a informação. A "gestão do exterior" apoderou-se dos dois domínios e pode sempre argumentar: "é uma boa ideia, realmente, mas impossível de concretizar".

A dependência externa generalizou-se. Como disse Niklas Luhman, o homem perdeu "a posição de centralidade no organismo social e foi remetido para o exterior, passando a fazer parte do meio ambiente do sistema. Tornou-se uma causa para o aparecimento de problemas constantes e de complexidades crescentes" (com mais visibilidade, no caso escolar, para professores e restantes profissionais, mas com consequências para os alunos).

 

Já usei parte desta 

argumentação noutros textos.



publicado por paulo prudêncio às 13:33 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Domingo, 18.11.18

 

 

"(...) Confiamos no conselho fornecido por um algoritmo ou no de familiares, amigos ou colegas? Poderíamos consultar um médico robótico orientado por Inteligência Artificial com uma taxa de sucesso de diagnóstico perfeito ou quase perfeito - ou ficar com o médico humano com o reconfortante apoio de quem nos conhece há anos? (...)". Este dilema, Klaus Schwab (2017:64) na "A Quarta Revolução Industrial", também se aplicará ao ensino?

Como os orçamentos dos estados navegam entre ministérios das finanças, grandes bancos e investidores globais, as decisões orçamentais caem no universo alucinante das praças financeiras que olham com impaciência para as despesas sociais. É, portanto, num espaço maquinal de desconfiança e ilusório, e infernal, controlo burocrático que se tem imposto a degradação da carreira dos professores priorizada há muito pelos neoliberais. A robotização dos professores é um desejo financeiro que a realidade teima em contrariar.

 

Fig1_web-1

Encontrei a imagem na internet sem referência ao autor.



publicado por paulo prudêncio às 14:16 | link do post | comentar | ver comentários (11) | partilhar

Sexta-feira, 16.11.18

 

 

Captura de Tela 2018-11-16 às 16.09.19

Tem o texto aqui.



publicado por paulo prudêncio às 16:08 | link do post | comentar | partilhar

Quarta-feira, 14.11.18

 

 

Captura de Tela 2018-11-14 às 15.52.01

Pode ler o texto aqui. É indecente o modo como se trata os professores contratados. Aliás, a ideia da redução de impostos para fazer regressar os que saíram não pode ser levada a sério. Basta olhar para o que acontece aos que cá estão e aos seus descontos para a segurança social (para não referir também questões salariais).



publicado por paulo prudêncio às 15:51 | link do post | comentar | partilhar

Terça-feira, 13.11.18

 

 

A disciplina imposta pelo (e ao) euro (legitimada pelo tratado orçamental), que norteia os governos, é um caminho universal. Apesar dos já reconhecidos erros graves (pelo FMI, por exemplo) nos excessos austeritaristas e na gestão das dívidas soberanas, Portugal, e apesar de ser uma pequena economia, foi um dos países mais prejudicados por causa dos receios sistémicos. Quando se diz - leia nos meus lábios - que "não há dinheiro", é uma incerteza que mete gelo no sobreaquecimento dos cidadãos que percepcionam que esse "não há dinheiro" nunca se aplica aos grandes contratos. Ou seja, se os orçamentos de estado são para todos, a política favorece os mais fortes. Tem sido este o fatalismo do mainstream. Faz crescer a direita radical, e outros partidos emergentes, ameaça o fim do "euro" e da própria União Europeia.



publicado por paulo prudêncio às 19:50 | link do post | comentar | ver comentários (7) | partilhar

Sábado, 10.11.18

 

 

 

 

Escrevi, em 27 de Março de 2006 (texto também publicado na Gazeta das Caldas), este texto sobre a carta educativa das Caldas da Rainha.

O texto é longo e quem quiser uma leitura integral terá de recorrer ao link. Intitulei-o "Piscina municipal: o espelho da carta educativa do concelho" e republico-o, em modo resumido, para discutir à volta da rede escolar e da descentralização de competências da educação para as autarquias. É um texto que pode ser útil para quem se interessa por estes assuntos (mega-agrupamentos, municipalização em curso e por aí fora), qualquer que seja o concelho onde viva.

Ouso afirmar que se se tivessem realizado políticas parecidas (a febre era avaliar os professores e sei lá mais o quê), talvez não estivéssemos neste estado financeiro e de desnorte organizacional nas escolas. Perdeu-se tempo e financiamento e estamos quase no ponto de partida. Digo quase porque os procedimentos organizacionais recuaram.

Escrever sobre a carta educativa do concelho das Caldas da Rainha, reduzindo o texto a uma dimensão aceitável sem que os argumentos se somem de um modo selvagem, é uma tarefa que requer um aturado exercício de síntese. Nesse sentido, escolho, como exemplo, a piscina municipal onde se verificam as mais expressivas características: ausência de capacidade de antecipação - a piscina aparece com uma década de atraso e é, agora, prejudicada pelo excesso de oferta -; o seu projecto é completamente imperceptível, resultando, também por isso, numa obra com um custo de manutenção insuportável, comprometendo vários investimentos durante os próximos anos. 

A carta educativa deveria acentuar as perspectivas de futuro e interligar-se com o plano estratégico do concelho. Poderia ser objecto de uma discussão séria, interessada, profissional e competente no conselho local de educação, com a realização de um fórum aberto a todos os interessados. Estabelecer-se-iam assim, políticas educativas ajustadas às necessidades da comunidade, com indicadores que não se deslocavam duma prospectiva emancipadora, sempre balizados pela preocupação de tentar apreender o novo e dar-lhe forma. 

É hoje consensual no país, que a principal prioridade passa por eliminar o sistema de desdobramento das escolas e os desajustados regimes de sobrelotação e de sublotação. Mas para além de fazer elencos de prioridades, a carta educativa deveria criar as bases organizativas que orientariam as políticas de administração escolar, numa época em que as redes de recursos administrativos e educativos são um imperativo exigido pela sociedade da informação e do conhecimento. 

Era fundamental, que, depois, a comunidade percebesse o caminho e identificasse ao longo do percurso o que claramente se quer ou não se quer. Os desestruturados e centralizados poderes central e regional "agradeciam". É notório. O sucesso das políticas terá sempre uma relação muito directa com a capacidade de ANTECIPAÇÃO. A educação deve ser a primeira prioridade para qualquer equipa política que se candidate à gestão de fundos públicos: e em qualquer nível de intervenção. 

Nas Caldas da Rainha assistimos a uma completa desorientação, que consubstancia a ideia iluminada de navegar ao sabor da ocasião. É grave, e a subsistir durante décadas, tornará muito difícil a sua necessária correcção. E não justifica argumentar no sentido que às autarquias está cometida a responsabilidade de “apenas” gerir a educação pré-escolar e o primeiro ciclo do ensino básico. A decisão de remeter para o nível concelhio a elaboração das cartas educativas para todos os graus de ensino, prova o contrário. É num esforço corajoso que, autarcas, responsáveis em administração escolar e encarregados de educação, devem consolidar as ideias de cidadania, autonomia e responsabilidade, impondo com clareza o que querem para o seu concelho, sem desrespeitar as opções estratégicas que o país venha a seguir. 

É neste “dever ser” que tudo se joga. 

(...)Vamos por partes. No primeiro ciclo da educação básica e na educação pré-escolar a questão que se coloca tem uma simples formulação: as instalações escolares existentes já não respondem aos desafios da actualidade. Esta constatação, começou a integrar as políticas educativas no final da década de oitenta, por altura da reforma “Roberto Carneiro”. 

No concelho das Caldas da Rainha construíram-se, então, duas escolas básicas integradas. (...)Tudo o resto ficou por fazer, procedendo-se, apenas, a pequenas obras conjunturais - pintura dos edifícios, reconversão de espaços, construção de espaços específicos (alguns de concepção inenarrável, como acontece com o pavilhão desportivo da escola básica da Encosta do Sol, na cidade). 

No final da década de noventa, teve início o processo para a construção de uma escola básica integrada na zona do complexo desportivo.

(...)Por responsabilidade do executivo da Câmara Municipal das Caldas da Rainha, o projecto não se realizou, tendo a empresa construtora recebido uma avultada indemnização paga pela Direcção Regional de Educação de Lisboa. Em lugar desta escola básica integrada, surge, em 2005, uma escola particular e cooperativa sem primeiro ciclo mas com ensino secundário, com a seguinte exigência: ou se constrói também uma escola semelhante em A-dos-Francos ou não se constrói escola nenhuma. 

Ao que julgo saber, estas mesmas escolas abrirão no próximo ano lectivo a valência de 1º ciclo, mas com o pagamento de propinas. Se a escola pública tivesse sido uma realidade, ficaria a cidade com a necessidade de requalificar as escolas básicas da Encosta do Sol e do Avenal (incluindo aqui os alunos que frequentam as escolas do Parque e de São Gregório). 

(...)A seu tempo, veremos se os financiamentos não contemplarão este tipo de soluções. Resolveríamos, também e assim, a completa trapalhada que se verifica no indizível processo de constituição de agrupamentos de escolas neste concelho e teríamos vários níveis de ensino a funcionar no mesmo espaço físico - ou no caso dos centros escolares, verdadeiros agrupamentos de escolas -, como é razoável, moderno e conhecedor. 

(...)Todos os anos lectivos os responsáveis das escolas do concelho são confrontados com um novo desenho de agrupamento de escolas, com toda a instabilidade que isso implica: novos regulamentos internos, novas eleições para os órgãos das escolas, novas comissões instaladoras provisórias, enfim... é como se todos os anos houvesse eleições autárquicas para eleger um executivo provisório, porque os concelhos estavam sempre a perder ou a ganhar mais uma freguesia. 

Um dos argumentos que mais se utiliza para fundamentar a necessidade de agrupar escolas que ocupam distantes espaços físicos, prende-se com a necessidade de racionalizar recursos administrativos. Os exemplos já conhecidos de experiências desse tipo, não confirmam a intenção. E porquê? Porque se mudam as pessoas de um lado para o outro, mas não se alteram os procedimentos. 

Nesse sentido, o que seria inovador, antecipador e gerador de credibilidade negocial, seria a ideia de se caminhar no sentido da criação do pólo de administração escolar concelhio, deixando nas escolas apenas os necessários recursos mínimos para o tratamento digital dos dados administrativos e de apoio social escolar. 

Quando se fala em portal da educação, fala-se de quê? Quando um governo decreta, em 2006, a exigência de se terminar com a renovação das matrículas dos alunos (prática em uso na escola básica integrada de Santo Onofre, desde finais do século passado, mesmo sem a necessária autorização do poder central), está a falar de quê? 

A possibilidade de num mesmo concelho existir apenas um único serviço em rede - como hoje existem lojas do cidadão, redes multibanco, ou entrega electrónica das declarações de IRS - que processe os vencimentos dos docentes, que passe os certificados de habilitações dos alunos, que apure em permanência os dados de frequência escolar, que execute a transferência digital dos alunos que mudam de escola, enfim... é só dar asas à imaginação e ao conhecimento, e que os divulgue em tempo real, é não só um imperativo, como é um instrumento essencial para estabelecer políticas modernas de gestão de recursos administrativos escolares. 

E de nada vale argumentar que isto ainda não se faz em lado nenhum, já que esse estafado argumento já é mais do que conhecido, e, só serve, para comprometer, consciente ou inconscientemente, ainda mais o nosso atraso colectivo. Nas sociedades modernas, a capacidade de inovar e de antecipar não são apenas palavras bonitas, são, acima de tudo, as únicas alavancas que garantem a credibilidade e a afirmação das autonomias responsáveis. 

Os segundo e terceiro ciclos do ensino básico e o ensino secundário beneficiariam muito do que já foi dito. As escolas da cidade viveram um asfixiante regime de sobrelotação desde meados da década de noventa do século passado, o que lhes conferiu uma elevadíssima taxa de insucesso e abandono escolar e o natural alargamento dos seus quadros de docentes. Ora, se a nova escola do complexo desportivo tivesse sido uma instituição pública, os docentes que agora vão passar a ter horário zero nos estabelecimentos de ensino já existentes, seriam transferidos para a nova escola. 

Com a decisão de se construir duas escolas em regime particular e cooperativo, nada disso pode ser feito. É bom que se diga, que os docentes das instituições particulares e cooperativas são pagos pelo estado. São contratados sem qualquer concurso público e não está previsto que os docentes do quadro, da escolas públicas, com horário zero, devam integrar os quadros das escolas cooperativas, nem que sejam piores profissionais do que os docentes que essas escolas contratam. Ou seja, o estado vai financiar docentes sem serviço que, deste modo, podem vir a integrar os quadros de excedentes da função pública. Numa época em que tanto se fala na redução de custos, esta solução, é, no mínimo, espantosa. É muito grave, e mais evidente se torna, se pensarmos nas dezenas de docentes dos quadros que aguardam há anos por uma colocação no concelho e que vêem assim esse objectivo quase definitivamente adiado. 

No ensino secundário a situação é, também, extremamente confusa, com tendência a agravar-se nos próximos anos lectivos. A oferta escolar neste nível de ensino para os alunos que se destinavam à frequência das duas escolas do concelho, aumentou exponencialmente - o que provocará o mesmo fenómeno de excedente de docentes com horário zero -: duas escolas particulares e cooperativas; consolidação dos projectos de várias escolas com ensino técnico-profissional - CENFIM, CENCAL, ETEO, pólo da Universidade Católica ... -; várias escolas profissionais nos concelhos vizinhos; abertura do ensino secundário na escola Josefa de Óbidos, em Óbidos. 

(...)Apenas para que conste.



publicado por paulo prudêncio às 10:00 | link do post | comentar | partilhar

Sexta-feira, 09.11.18

 

 

 

A cidadania democrática exige liberdade, primado das leis democráticas, voto por sufrágio directo e universal, partidos políticos e campanhas eleitorais. Dito isto, sublinhe-se que não há semana sem um estudo que identifique problemas graves (alguns com exigências financeiras) que afectam os professores e, de resto, a escola pública, os seus alunos e os restantes profissionais. São conclusões subscritas pelos partidos políticos todos (quando estão na oposição), pelo PR ("professores heróis e melhores do mundo") e pelas mais diversas instituições nacionais e internacionais. Mas como nada acontece, e como entraremos em ano eleitoral, achei, e sem apelar ainda ao regresso de Clístenes, que os professores só deviam ouvir propostas sobre a escola pública a partir de 2020 e com um argumento inspirado no desenho do Quino: serão tantas as soluções, que não haverá tempo para as estudar.

14982148_UDyuk

 

Desenho do Quino,

em "Não me grite" da série "Humor com humor se paga".

 



publicado por paulo prudêncio às 18:12 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Quarta-feira, 07.11.18

 

 

 

Recebi, de no-reply@ar.parlamento.pt, um email com o assunto, "Atualização de estado de iniciativa", que diz assim:

 

"Exmo(a). Sr(a).
o estado da iniciativa legislativa Consideração integral do tempo de serviço docente prestado durante as suspensões de contagem anteriores a 2018, para efeitos de progressão e valorização remuneratória foi atualizado para:
A aguardar admissão

Para aceder aos detalhes clique aqui.


Este email foi gerado automaticamente, por favor não responda."



publicado por paulo prudêncio às 14:49 | link do post | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Segunda-feira, 05.11.18

 

 

 

Por que será que sendo Portugal um país onde se reconhece o mau centralismo, há tantas pessoas que nem querem ouvir falar em municipalização?

Repare-se: 

“Somos um país estupidamente centralizador. A título de exemplo: faz sentido que o ministro da Educação esteja preocupado com a telha de uma escola secundária no município A ou B? Isto não faz qualquer sentido”,

São declarações do ministro Cabrita que reforçam a perplexidade que sublinhei no início. Hoje soube-se que os "(...)últimos diplomas da descentralização serão aprovados este mês(...)" e há inúmeras pessoas com uma temerosa curiosidade.



publicado por paulo prudêncio às 19:37 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar


Inauguração do blogue
25 de Abril de 2004
Autor:
Paulo Guilherme Trilho Prudêncio
Discordâncias:
Mais até por uma questão estética, este blogue discorda ortograficamente
arquivo
comentários recentes
Obrigado António Duarte. Claro que dou. Vai em mui...
Excelente!Vou, se me dás licença, "roubar"...
E se a dívida não baixa...
Já não digo nada sobre os processos paralelos.
Só em juros da dívida ronda os 23 milhões/dia!
Sim, Paulo, concordo. É mesmo insaciável!Desconfio...
Esvaziar ainda mais, Carlos? Mas sim: o neoliberal...
subscrever feeds
mais sobre mim
Por precaução
https://www.createspace.com/5386516
ligações
blog participante - Educaá∆o - correntes .jpg
tags

antero

avaliação do desempenho

bancarrota

bartoon

blogues

campanhas eleitorais

cartoon

circunstâncias pessoais

concursos de professores

contributos

corrupção

crise da democracia

crise da europa

crise financeira

desenhos

direitos

economia

educação

escolas em luta

estatuto da carreira

falta de pachorra

filosofia

fotografia

gestão escolar

história

humor

ideias

literatura

luís afonso

movimentos independentes

música

paulo guinote

política

política educativa

professores contratados

público-privado

queda de crato

rede escolar

ultraliberais

vídeos

todas as tags

favoritos

bloco da precaução

pensar o sistema escolar ...

escolas sem oxigénio

e lembrei-me de kafka

as minhas calças brancas ...

as minhas calças brancas ...

reformas e remédios (1) -...

sua excelência e os númer...

posts mais comentados
Um projecto (livro) para gerir Escolas Portuguesas agrupadas
De Paulo Prudêncio