Em busca do pensamento livre.

Domingo, 28.10.18

 

 

 

Não se conhece uma assumpção de culpa quando a democracia é empurrada para um degrau inferior. Mas decerto que há justificações. A escola pode dar um importante contributo, em duas ou três gerações, para a consolidação da democracia ou para a sua fragilização. Comprova-se, por exemplo, a relação directa e proporcional entre a qualidade democrática das escolas, a ambição escolar dos alunos e a confiança nos professores, por muito difíceis que sejam esses estudos empíricos. E a ambição escolar é tão determinante como as condições socioeconómicas.

Como Portugal tem elevadas taxas de insucesso e abandono escolares, é natural que a desorientação, e a constante alteração de políticas, seja simultaneamente causa e consequência e se transforme em autofagia. Há uma justificação no longo prazo se nos compararmos com quem eliminou o analfabetismo no século XIX e onde a ambição escolar é inquestionável. Contudo, há variáveis importantes no curto prazo e a confiança nos professores é preciosa. É um requisito relacional decisivo para a robustez da democracia. Para além de tudo, a desconfiança nos professores é intuída pelos alunos, desautoriza salas de aula, prejudica o ensino, afecta todos os alunos e "cria" escolas para os "mais informados". E é essa segregação social (porque as escolas têm limites de vagas) que dificulta a redução do abandono escolar. A "miscigenação das diversas condições" é tão determinante para a elevação das escolas e dos sistemas escolares como é, em sentido lato, para o crescimento da decisiva classe média que fortalece a democracia (é ler Hannah Arendt).

Regredimos na última década e meia. Houve um choque de desconfiança nos professores evidenciada, desde logo, pela hiperburocracia, pela avaliação de professores (a farsa "meritocrática"), pelo estatuto do aluno (o "cliente tem sempre razão" não se pode aplicar à escola) e pelo modelo de gestão escolar (um recuo democrático já desaconselhado no século passado). São instrumentos fundamentais que entraram num caminho disruptivo, e em que a actual maioria estranhamente não toca, contribuindo assim de modo indesculpável para a fragilização da democracia (e, depois, admiramo-nos).

 

Reescrito.

1ª edição em 10 de Maio de 2012.

 

 

Imagem do célebre "Clube dos Poetas Mortos",

uma intemporal homenagem à democracia.

 

39202765385_41065df81f

 

 



publicado por paulo prudêncio às 17:34 | link do post | comentar | partilhar

 

 

 

Poucos brasileiros são hoje entusiastas do Estado democrático



publicado por paulo prudêncio às 10:33 | link do post | comentar | partilhar

Quinta-feira, 10.11.16

 

 

 

Não é a primeira vez que, nos EUA, vence o menos votado. Foi assim com outro republicano em 2000. George W. Bush obteve 47,9% e Al Gore 48,4% dos votos. Trump tem menos 233 mil votos do que Hillary Clinton. Não é um sistema de um homem um voto. É um sistema representativo (o detalhe tornaria o post enorme) que elege 538 grandes delegados nos 50 estados. Robert Schapiro, professor de Ciência Política na Universidade de Columbia, fala de um "sistema eleitoral abstruso. Uma alteração ao modelo do colégio eleitoral obrigaria a uma mudança da sacrossanta Constituição dos Estados Unidos, uma tarefa delicada. Este resultado questiona até que ponto é que o nosso sistema é democrático". A constituição dos EUA foi alterada 27 vezes desde 1789. A construção da democracia contraria o fim da história. Os detalhes são fundamentais. O voto directo deve substituir o representativo, com excepções do domínio da impossibilidade; obviamente. Visto a esta distância, dá ideia que o modelo foi construído a pensar numa sociedade de um só sentido.

PS: no mínimo, espera-se que o legado de Trump não seja tão trágico como o de Bush. Mas dá ideia que os humoristas não se vão queixar com uma alavancagem semelhante.

 

Captura de Tela 2016-11-10 às 17.40.33

 



publicado por paulo prudêncio às 17:22 | link do post | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Segunda-feira, 07.11.16

 

 

O filósofo francês Dominique Wolton concluiu: "a finança comeu a economia e a economia comeu a política". Ou seja, se A é superior a B e B superior a C, logo, A é superior a C. É este o problema que se tem colocado nas eleições presidenciais nos EUAHillary Clinton está, como todos os políticos do sistema, tão ligada a um A que caiu em desgraça com a crise financeira de 2008, que qualquer Trump mantém a expectativa em relação ao resultado final. Mesmo que Hillary Clinton vença, como se deseja, Trump alarga um perigoso caminho. Há uma relação directa entre finança e tecnologia que explica estes fenómenos. Dominique Wolton "anda irritado com a aldeia global, dominada pela ditadura da tecnologia, denuncia as indústrias imperialistas do século XX" e alerta: "Se quisermos salvar a democracia, é preciso que a política regule a técnica". Não sei se Hillary Clinton tem desprendimento para o desafio, já que a "sua" finança, que comeu a técnica, comeu a "sua" política.

 

Captura de Tela 2016-11-07 às 16.31.27

 



publicado por paulo prudêncio às 16:33 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Segunda-feira, 10.10.16

 

 

 

Acabei de ver a gravação do 2º debate e concordo com o Público: "O debate tinha tudo para ser feio. Foi assustador." Entre tanto grau zero, Trump ainda conseguiu responsabilizar Hillary Clinton pelas infidelidades do marido. Robert de Niro dirá com razão: é tão pulha que se torna risível. Espero que Hillary Clinton seja eleita por larga margem.

 

photo

 



publicado por paulo prudêncio às 16:11 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Domingo, 22.09.13

 

 

 

Na sua crónica intitulada "O que fará Merkel com a sua vitória?", Teresa de Sousa escreve assim:

 

"(...)O SPD ainda não conseguiu ultrapassar uma votação medíocre (26 por cento), que regista desde que Schroeder decidiu que a Alemanha tinha de fazer profundas reformas para se tornar competitiva, que colidiam com as regalias dos trabalhadores (a histórica base de apoio do SPD) e com a generosidade do Estado social. A sua “Agenda 2010”, que está na base da transformação da Alemanha de “homem doente da Europa” numa economia altamente competitiva, ainda não foi perdoada.(...)".


Repare-se no preciosismo da cronista, "(...)Alemanha de “homem doente da Europa” numa economia altamente competitiva(...)", que parece concluir: a devastação ultraliberal, que absorveu os sociais-democratas alemães, leva as sociedades de doentes a competitivas. Mesmo que as pessoas sofram, que o desemprego seja enorme, que proliferem os mini-jobs de 450 euros mês, o que interessa é o "competitivo" em favor de uma minoria que se dedica ao casino financeiro. De certa forma, os sociais-democratas, e perante a vitória eleitoral de Merkel, querem puxar para si o mérito da devastação europeia. A esquerda capitulou mesmo.




publicado por paulo prudêncio às 22:35 | link do post | comentar | partilhar

Quarta-feira, 10.07.13

 

 

 

 

Cavaco Silva acaba de anunciar que mantém em funções, mesmo que a prazo, a balbúrdia governamental mais risível a que se assistiu no mundo democrático e ocupou a quase totalidade do seu tempo de antena a explicar ao povo os riscos das eleições; ou seja: deve achar que os garotos do Governo são povo (estou a ouvi-lo e parece que lhe imprimiram várias vezes a página que começa com o "se houvesse eleições antecipadas...") e só pode estar a falar para eles com tantas repetições. O Governo fica em funções, mas é tão mau que cai já daqui a uns meses. A última remodelação parece que foi chumbada.

 

Agora o presidente da República apela a uma "salvação nacional" entre os partidos do arco governativo, promete eleições antecipadas a partir de Junho de 2014 e diz que promoverá uma figura que construa pontes (deve estar a pensar no Ferreira do Amaral). Dá ideia que fechou uma crise política e que abriu outra.

 

Cavaco Silva, que foi eleito a primeira vez com um discurso populista e anti-político, deve achar que o povo português é o melhor do mundo já que o elegeu umas quantas vezes para primeiro-ministro e presidente da República. Vitor Gaspar, uma espécie de Cavaco Silva mas com o fatalismo da troika, também achava o mesmo do povo que o aturou de forma anestesiada e deve ter recebido garantias de Cavaco Silva.

 

Ou seja: o povo assiste a uma trágica orquestra e perante uma qualquer imprevisto, mesmo que grave, o que lhe é pedido é silêncio. Como se pode ver na imagem, só se desculpa um pedido de silêncio o tempo necessário para se racionalizar o "ssssssssshhhhhhhhhhh".

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 21:00 | link do post | comentar | ver comentários (26) | partilhar

Terça-feira, 09.07.13

 

 

 

E se Cavaco Silva decidisse por eleições antecipadas? E a troika? Bem, a troika já forçou eleições em vários países e até já provocou a nomeação de primeiros-ministros não eleitos que até fracassaram. Já está habituada, portanto. Talvez o presidente português não se tenha habituado à demissão de Gaspar e à partida irrevogável de Portas quando nomeava a sucessora do emérito meteorologista.


Se Cavaco Silva decidisse por eleições seria, sem sombra de dúvida, uma demonstração de peso que surpreenderia a sua base de apoio.








publicado por paulo prudêncio às 23:25 | link do post | comentar | ver comentários (9) | partilhar

Segunda-feira, 21.11.11

 

 

A península ibérica trocou as ligações à face oculta pelas do BPN, com todo o respeito por quem desempenhou cargos nos dois contendores-suaves com espírito de serviço público. Temos de acreditar que há pessoas honestas.

 

A direita espanhola obteve a mais ampla maioria da história. Os "mercados" não se comoveram e os juros subiram e as bolsas desceram. As tro(i)cas não parecem suficientes. Às tantas, a causa está no vizinho ibérico onde um lusitano da mesma família política segue impunemente pelo natal adentro. A única coisa certa é que haverá fiesta em Espanha.

 

Três milhões de euros para iluminações e fogo-de-artifício na Madeira



publicado por paulo prudêncio às 21:28 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Sexta-feira, 28.10.11

 

 

Receber 12 ou 14 vencimentos pode ser quase irrelevante se o produto anual for semelhante. O primeiro-ministro avança com a manutenção dos cortes nos subsídios até 2014, ano de eleições, mas diz que a recuperação não será automática. Enfim. O que se evidencia é que já são poucos os que acreditam nas suas declarações.

 

Passos diz que cortes nos subsídios são “temporários até 2014”, mas admite passagem a 12 vencimentos



publicado por paulo prudêncio às 11:34 | link do post | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Sábado, 15.10.11

 

 

Ouça estas declarações do actual primeiro-ministro em campanha eleitoral e compare-as com a actualidade. Cortesia da Isabel Silva.



publicado por paulo prudêncio às 18:12 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Domingo, 09.10.11

 

 

O governador reeleito sublinhou o óbvio: o trágico e o risível tocam-se. Até o capitalismo selvagem foi alvo no rol de culpados. Os resultados indicam o que se suspeitava: a tonalidade formalmente de direita vai subindo em Portugal.

 

A esquerda está desorientada por culpa própria. O seu maior partido político carrega uma herança que arrasta os satélites mainstream atrás de si. Os tempos são o que se sabe e o futuro da esquerda portuguesa não tem alternativa: libertar-se de forma assertiva das políticas, e dos compromissos, da primeira década deste século. 



publicado por paulo prudêncio às 21:44 | link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar


Inauguração do blogue
25 de Abril de 2004
Autor:
Paulo Guilherme Trilho Prudêncio
Discordâncias:
Mais até por uma questão estética, este blogue discorda ortograficamente
arquivo
comentários recentes
Muito bom.
https://blog-da-anal.blogspot.com/
Depois há coisas destas...https://www.blogger.com/...
É um tema que exige muitos caracteres. Darei a min...
Ora nem mais. Mas refiro-me apenas à audição de pr...
subscrever feeds
mais sobre mim
Por precaução
https://www.createspace.com/5386516
ligações
blog participante - Educaá∆o - correntes .jpg
tags

antero

avaliação do desempenho

bancarrota

bartoon

blogues

campanhas eleitorais

cartoon

circunstâncias pessoais

concursos de professores

contributos

corrupção

crise da democracia

crise da europa

crise financeira

desenhos

direitos

economia

educação

escolas em luta

estatuto da carreira

falta de pachorra

filosofia

fotografia

gestão escolar

história

humor

ideias

literatura

luís afonso

movimentos independentes

música

paulo guinote

política

política educativa

professores contratados

público-privado

queda de crato

rede escolar

ultraliberais

vídeos

todas as tags

favoritos

bloco da precaução

pensar o sistema escolar ...

escolas sem oxigénio

e lembrei-me de kafka

as minhas calças brancas ...

as minhas calças brancas ...

reformas e remédios (1) -...

sua excelência e os númer...

posts mais comentados
9 comentários
4 comentários
Razões de uma candidatura
https://www.createspace.com/5387676