Em busca do pensamento livre.

Sexta-feira, 20.04.18

 

 

 

A média da idade dos professores subiu e sabemos os motivos. Mas não é apenas isso que explica a catadupa de baixas médicas por burnout. Os números são taxativos. O fenómeno detecta-se a partir dos 50 anos de idade ou mesmo antes. A degradação da carreira associada à hiperburocracia, à lógica do cliente escolar e à sucessão de nefastas e inconsequentes políticas educativas também explica o grave problema de saúde pública. 



publicado por paulo prudêncio às 10:36 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Quarta-feira, 11.04.18

 

 

 

Como o burnout é a doença mais comum nos professores (já fiz umas dezenas de posts sobre o assunto), leio as notícias sobre o tema. Desta vez, fui parar ao futebol. Já se conhecia a estratosfera em que vive a indústria que capturou todos os poderes, mas agora sabe-se que os protagonistas também sofrem de burnout. É um lado algo humorado (como é uma doença grave, não merecerá grandes brincadeiras) de um jogo que transportou a irracionalidade para níveis impensados.

Mas leia o que encontrei sobre o burnout.

"Tristeza, irritabilidade, perda de controlo emocional, alterações comportamentais, dificuldades de concentração ou manifestação de sintomas psicossomáticos (como falta de ar, coração acelerado, entre outros)(...)A síndrome está associada ao stresse profissional prolongado ou crónico e é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma doença ocupacional.

Descrita pela primeira vez pelo psicoterapeuta norte-americano Herbert Freudenberger, em 1974, segundo o psiquiatra Pedro Afonso, “poderá ser definida como uma reação emocional crónica caracterizada pela desmotivação, desinteresse, e um mal-estar geral na relação com o trabalho”.

Os diferentes sintomas vão-se manifestando de forma gradual “e muitas vezes impercetível”, acrescenta o médico, que na sua página online explica que este cansaço emocional progride “para sentimentos de inadequação e fracasso com quebra do rendimento laboral, conduzindo a um absentismo e negligência”. Um estado de “exaustão”, que acaba por contaminar a vida pessoal, atingindo o relacionamento do indivíduo com a família e com os amigos. Nomeadamente, acrescenta Pedro Afonso, porque “a falta de concentração, a irritabilidade e a baixa tolerância à frustração tornam-se frequentes, acabando por provocar conflitos nas relações interpessoais”.

Do quadro evolutivo da doença constam ainda o aparecimento de perturbações depressivas e de ansiedade, associadas ou não a outros sintomas, podendo “em situações limites” levar ao suicídio.

Observado com frequência em grupos profissionais como médicos, enfermeiros e professores, o burnout pode ocorrer em qualquer atividade profissional, mas está muito ligado a desempenhos vocacionados “para o apoio permanente e direto na resolução de problemas das pessoas”, diz o psiquiatra.

Entre os fatores de risco associados ao desenvolvimento desta síndrome, Pedro Afonso salienta, “do ponto de vista pessoal, os indivíduos [...] com um idealismo exaltado, altruístas ou com traços obsessivos, que investem e se dedicam demasiadamente no seu trabalho como único meio de gratificação narcísica (ser amado, ser reconhecido)”. Por outro lado, aponta outros fatores, como “a existência de trabalho excessivo, monótono ou pouco gratificante”, “a falta de resultados imediatos”, “a presença de conflitos com as chefias, e a interferência significativa do trabalho na vida familiar”.

O psiquiatra também explica como evitar o burnout. Ajuda melhorar o ambiente de trabalho - em aspetos como o conforto ou a flexibilização de horários - assim como “estimular a divisão de responsabilidades e o planeamento do trabalho por objetivos”. “Estabelecer limites” é muito importante, sublinha."

 

Actialização às 15h25:

 

"João Santos Carvalho, psicólogo clínico, explicou do que se trata. «É uma situação clínica que tem a ver com excesso de trabalho, tem a ver com uma fase complicada na profissão. É uma entidade clínica usada para identificar pessoas que ao longo da sua vida viveram momentos de grande tensão e stress, mas sempre ligado à vida profissional. O burnout só se relaciona com a atividade profissional, é um esgotamento», explica o clínico, que revela, também, o tratamento: «É o descanso, o afastamento. Em casos de pessoas com idade mais avançada pode encaminhar-se para a reforma, o que não é o caso. Quanto à medicação, depende dos sintomas»."



publicado por paulo prudêncio às 11:52 | link do post | comentar | partilhar

Segunda-feira, 05.03.18

 

 

 

Não sei se será equivalente a tortura, mas há todo um caminho a percorrer nos horários (escolares também). Aquela ideia do treino militar de acordar na alvorada, "produzir" até às dez e ficar à espera de um lauto, e bem regado, almoço que finaliza a jornada laboral, será aceitável para o próprio mas nunca recomendável como regra exemplar; e muito menos imposta. São já inúmeros os estudos a fundamentar a sensatez e a sublinhar que o pico laboral pode ocorrer nos períodos da tarde ou noite.

 

"Um estudo britânico, publicado no Nuffield Department of Clinical Neurosciences, sugere que forçar alguém a acordar antes das 10h da manhã, é extremamente prejudicial para o metabolismo corporal e equivale a tortura.

De acordo com Paul Kelley, da Universidade de Oxford, forçar alguém a trabalhar e estudar antes das 10 horas da manhã, afecta fisicamente e emocionalmente o desempenho do corpo, podendo causar stress e exaustão.

Antes dos 55 anos de idade, o ritmo circadiano dos humanos é iniciado a partir das 10 horas da manhã.

O estudo indica que as crianças não são favorecidas na aprendizagem se acordarem antes das 8h30, podendo aumentar os resultados com um horário mais adequado ao relógio biológico.(...)"



publicado por paulo prudêncio às 10:03 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Sexta-feira, 09.02.18

 

 

 

A especialização desportiva percebeu o esgotamento das capacidades volitivas. A energia psicológica esgota-se. É por isso que se contraria a precocidade. Os modelos de formação historicamente bem sucedidos graduam a exposição aos quadros competitivos e exigem que a competição escolar (não só a desportiva) destinada às crianças se diferencie da aplicada a jovens e adultos. Em regra, quem começa cedo a competir como se de um adulto se tratasse, atinge a saturação volitiva quando se esperava o contrário. Os difíceis estudos empíricos neste domínio dão passos e comprovam os efeitos da saturação da vontade. O psicólogo Roy Baumeister tem importantes contributos que podem levar ao reconhecimento da OMS. Criou o conceito "depleção do ego". É como se a vontade fosse um músculo que deixa de ser irrigado; acelera a queda de açúcar e cria um efeito geral de fadiga. Isso explica o burnout dos professores que tomam dezenas de decisões diárias debaixo de forte ansiedade (os últimos anos entre nós são um bom exemplo dos efeitos da sobrecarga; competitiva e de outra ordem). Daí ao esgotamento é um passo acelerado. A degradação das carreiras influencia os indicadores de saúde. Ou seja, abandonámos o tempo das incertezas em relação ao esgotamento da força de vontade e é interessante que um estudo com adultos acima dos quarenta explique os efeitos da sobrecarga competitiva em crianças e jovens; como há muito se intuía.

 

DESMOTIVACAO

 

 

2ª edição. Rescrito.



publicado por paulo prudêncio às 10:03 | link do post | comentar | partilhar

Domingo, 05.11.17

 

 

 

Não haja ilusões: enquanto uma décima for determinante no sacrossanto acesso ao ensino superior e a desconfiança se impuser como controlo burocrático das aulas que questionem - e das que não o façam, já agora - a normalização, adianta pouco discutir uma "outra escola" para o século XXI. A imagem da flexibilidade curricular está invertida com esse propósito.

Explico-me. Nem se trata de discutir se os alunos aprenderão mais ou menos com tecnologias e interdisciplinaridades decretadas ou se as escolas estão desde sempre em mudanças paulatinas. O que a realidade nos mostra, é que é um imperativo de consciência treinar os alunos para que "tudo tenha sido feito" na tal décima; e isso influencia o sistema desde a entrada na escola. É irreal pedir a redução desse treino sem alterar variáveis que construam uma sociedade diferente. Só em escolas sem secundário, ou que, tendo-o, grande parte dos alunos não se imagina no ensino superior, é que há espaço para reduzir o treino disciplinar em favor de uma suposta "escola do século XXI". E mesmo aí, a máquina do ME e a hiperburocracia dos excessos das ciências da educação (reuniões de agenda repetida) cruzada com os atavismos das ciências da administração (lançamento de informação inútil) tratam de esclarecer que tudo começa e acaba na tal décima.

Nota: nas "impossibilidades" portuguesas, há outras componentes críticas que levam ao burnout dos docentes e à redução drástica de jovens interessados nos cursos de formação de professores; noutro âmbito, A. Damásio refere "a necessidade de um pacto global sobre educação e insiste nas humanidades e nas artes para formar homens e cientistas" e alerta para "a bancarrota espiritual e moral das sociedades". 

32988016145_0a29ff280e

 

 



publicado por paulo prudêncio às 14:05 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Quarta-feira, 27.09.17

 

 

 

 

Ficaram professores por colocar? Sim; em poucos grupos de recrutamento (uma modernice vocabular recente e evitável) é um facto. Mas uma passagem pelas listas dos professores não colocados ou de reservas de recrutamento, regista um número reduzido (ou ausência) de candidatos para várias disciplinas. É uma tendência que se agrava e que abrirá telejornais. Com a "eterna" precarização dos professores contratados (há quase duas décadas nos vínculos e salários) associada ao estatuto de cobaia na avaliação kafkiana (e de moeda de troca entre governos e sindicatos) e passando por um processo de desconsideração profissional, é natural que os jovens desistam de "ser professor" e que os menos jovens optem por outra actividade no país ou no estrangeiro.

 

PS: se nada se fizer no estatuto dos professores do quadro, as condições de aposentação associadas ao burnout provocarão uma avalanche de insubstituíveis. Aliás, basta que o inverno se imponha.

 

image

 

Imagem obtida na internet

sem referência ao autor



publicado por paulo prudêncio às 16:35 | link do post | comentar | partilhar

Sábado, 29.07.17

 

 

 

 

É consensual a necessidade de um programa especial de aposentações para professores. Para além disso, tornou-se irrefutável que a profissionalidade docente exige reduções da componente lectiva com a idade. Parece escusado este sublinhado inicial, mas não é: a história assiste vezes sem conta a repetições. A segunda variável, assumida até durante a ditadura, foi "esquecida" na última década: redução máxima apenas aos 60 anos (no primeiro ciclo e no pré-escolar já não existe aposentação antecipada), aumento da componente lectiva e componente não lectiva recheada de inutilidades que acentuam o desgaste profissional.

Discordo das classificações de corporativismo (e este tem virtualidades) baseadas no estatuto que já existiu. E o discurso ainda mais difícil de perceber tem origem em professores mais jovens que discordam que um professor acima dos 50 anos de idade (e aos 27 anos de serviço, como era o caso) leccione 14 aulas por semana e beneficie de redução da componente lectiva para o exercício de cargos. Acrescentam, agora e para estupefacção quase geral, que os descongelamentos da carreira cheguem em último lugar aos professores com idade mais avançada. Acham que o descongelamento deve começar pelos mais jovens. Acham que a transversalidade é corporativa e escrevem-no como um acto de coragem que fará sorrir os envolvidos no Panamá Leaks. Mudarão de opinião quando a sua idade avançar e talvez nessa altura compreendam o número elevado de baixas médicas que se regista há anos a fio e entendam o clima de burnout que se generalizou numa classe profissional com uma elevada média etária e com tantos servidores da causa "dividam-nos que reinaremos".

 

IMG_0462



publicado por paulo prudêncio às 13:28 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Sexta-feira, 14.07.17

 

 

 

O estudo da especialização desportiva percebeu, há muito, que existe um esgotamento das capacidades volitivas. O corpo reage. A energia psicológica não é inesgotável. É também por isso que se contraria a precocidade na especialização desportiva. Os modelos de formação bem sucedidos são graduais na exposição aos quadros competitivos e "exigem" que as políticas de competição escolar (as mais diversas e não apenas as desportivas) destinadas às crianças sejam diferentes das aplicadas aos jovens e aos adultos. Em geral, quem começa muito cedo a competir como se de um adulto se tratasse atinge a saturação volitiva quando era esperado um rendimento que maximizasse as potencialidades desportivas. Os muito difíceis estudos empíricos neste domínio dão passos e são fundamentais para comprovarem os efeitos da saturação da vontade. O psicólogo Roy Baumeister é citado com importantes contributos. Criou o conceito "depleção do ego". É como se a vontade fosse um músculo que deixa de ser irrigado; acelera a queda de açúcar e cria um efeito geral de fadiga. Estes estudos são usados para explicar o burnout dos professores que tomam milhares de decisões diárias debaixo de forte ansiedade. Daí ao esgotamento é um passo frequente com o prolongamento, e a degradação, das carreiras associado a um indicador fundamental representado na imagem que acompanha o post: o número de horas de sono. Ou seja, abandonámos o tempo das incertezas em relação ao esgotamento da força de vontade.

salvador-dali

 

Sleep.

Salvador Dali



publicado por paulo prudêncio às 10:56 | link do post | comentar | ver comentários (8) | partilhar

Segunda-feira, 26.06.17

 

 

 

No mesmo dia em que se anunciam "provas de aferição do 8º ano online", divulga-se que "as aprendizagens (também no 8º) na Educação Física passarão a ser objeto de Avaliação Externa no ano letivo 2017/2018". Será uma excepção e uma descoordenação comunicacional. O simplex é positivo, sendo, no entanto, polémico este modo de aplicar provas. O que se anuncia recupera uma ideia - matrículas online que vem do simplex 1 (2006) -, implementada no século passado por muitas escolas e que se tem perdido. Bem pensado, é um ponto de partida para eliminar o inferno da repetição e da redundância no lançamento de muitos dados; e atenuar o burnout. Para isso, será necessário que o Ministério da Educação, a exemplo do simplex 1, não caminhe em sentido contrário à simplificação de procedimentos.



publicado por paulo prudêncio às 11:18 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Segunda-feira, 19.06.17

 

 

 

O Governo, apesar da municipalização, manterá a colocação de professores e atenuará a hiperburocracia transferindo a "papelada" dos refeitórios. A sério. A segunda medida foi mencionada como exemplo.

A perplexidade impõe interrogações: a burocracia que inferniza as escolas está centrada nos refeitórios? Estas pessoas da mesa negocial estavam em Marte?

E já agora: o caderno reivindicativo da greve centra-se em três eixos: descongelamentos, vinculações e aposentações decentes.

E de imediato, impõem-se mais interrogações: é táctica igualmente marciana ou é a sério? "Esquecer", também como exemplo, essa mesquinhez não financeira da democracia nas escolas, é motivo para concluirmos que a geringonça já syrizou?

 

34981776370_ebdc492922

 



publicado por paulo prudêncio às 19:22 | link do post | comentar | partilhar

Sexta-feira, 05.05.17

 

 

   

A pessoas estão mais optimistas com este Governo, mas mantêm-se - e acentuam-se com o tempo "inamovível" - as componentes críticas da vida profissional de milhares de professores. E nem todas têm implicações financeiras; algumas melhoravam a capacidade volitiva, atenuavam o burnout e reduziam a despesa.

É a 5ª edição desta curta radiografia. A 1ª é de 5 de Novembro de 2015, a 2ª de 10 de Junho de 2016, a 3ª de 20 de Novembro de 2016 e a 4ª de 26 de Janeiro de 2017. Repito o post enquanto se justificar, não esquecendo as intervenções positivas em variáveis importantes (por exemplo: concursos BCE, prova de acesso e rede escolar).

Há uma legião de professores contratados sujeita a um inimaginável processo de desprezo profissional. O desinvestimento na escola foi brutal também nos seus profissionais. E os professores do quadro? Estão há anos com a carreira congelada, para além dos cortes transversais e da aposentação retardada. As imagens alojam-se e inscrevem os acontecimentos mais significativos: anos a fio com a avaliação do desempenho kafkiana (salva-se a inutilidade), divisões na carreira (um histórico com marcas profundas), mais turmas com mais alunos em horários ao minuto, inutilidades horárias, hiperburocracia, espectro de horário zero e megagrupamentos com um modelo de gestão "impensado" que transportou a partidocracia para dentro das escolas. É natural que o sentimento de "fuga" se afirme com tantos murros na dignidade. Importa sublinhar que os meios de comunicação social estão há uma dezena de anos a publicitar em primeira página a devassa da carreira dos professores e o "tudo está mal na escola pública".

 

32415122001_0a0b136b8d

  Faces, Picasso



publicado por paulo prudêncio às 15:11 | link do post | comentar | partilhar

Domingo, 16.04.17

 

 

 

A especialização desportiva percebeu, há muito, que existe um esgotamento das capacidades volitivas. O corpo reage. A energia psicológica não é inesgotável. É também por isso que se contraria a precocidade nessa especialização. Os modelos de formação bem sucedidos são graduais na exposição aos quadros competitivos e "exigem" que as políticas de competição escolar (as mais diversas e não apenas as desportivas) destinadas às crianças sejam diferentes das aplicadas aos jovens e aos adultos. Em geral, quem começa muito cedo a competir como se de um adulto se tratasse atinge a saturação volitiva quando era esperado um rendimento que maximizasse as potencialidades desportivas. Os muito difíceis estudos empíricos neste domínio dão passos e são fundamentais para comprovarem os efeitos da saturação da vontade. O psicólogo Roy Baumeister é citado com importantes contributos. Criou o conceito "depleção do ego". É como se a vontade fosse um músculo que deixa de ser irrigado; acelera a queda de açúcar e cria um efeito geral de fadiga. Estes estudos são usados, e por incrível que pareça, para explicar o burnout dos professores (e não apenas dos portugueses) porque tomam muitas decisões diárias em clima de ansiedade. Daí ao esgotamento é um passo frequente com o prolongamento, e a degradação (mais turmas, mais alunos, mais burocracia, mais procedimentos inúteis, menos confiança), das carreiras associado a um indicador fundamental representado na imagem: o sono. Ou seja, abandonámos o tempo das incertezas (é também o tempo dos governos mudarem de vez a agulha) em relação ao esgotamento da força de vontade que não era mensurável por "invisibilidade" e que os crédulos, que só admitem o perdão da dívida dos bancos, "confundiam" com corporativismo ou com classificações desinformadas.

salvador-dali

 

Sleep

Salvador Dalí



publicado por paulo prudêncio às 11:16 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Terça-feira, 21.03.17

 

 

 

A Finlândia incluiu mais competências transversais nos currículos nacionais (o processo iniciou-se em 2012 e apenas em 2016 deu os primeiros passos). E porquê a transversalidade? Por causa dos futuros profissionais, mas principalmente pelo tédio dos alunos (até nas raparigas que têm melhores resultados em todas as literacias). A ligeira quebra nas avaliações internacionais terá acelerado a recuperação da antiga interdisciplinaridade; ou melhor: da sua institucionalização. O processo tem cinco anos, não muda com a queda de um Governo (Crato&Rodrigues seriam impossíveis) e regista o pessimismo de 34% dos professores; 21% registaram benefícios. Toda esta sensatez num sistema com escolas com uma dimensão civilizada, descentralizada e autónoma. Não existem exames (mas existe avaliação), não existe avaliação do desempenho (do desempenho, sublinhe-se) dos professores e não existem serviços de inspecção (os sistemas bem sucedidos constroem a confiança): ou seja, estão há muito a contrariar as variáveis determinantes da escola-indústria (nunca li, nos inúmeros relatos do sistema finlandês, uma referência ao excesso de burocracia).

Em Portugal, parece que se queria recuperar a flexibilização institucional do currículo, e logo de 25% da carga horária, quase de supetão. Dizem que parou por causa das eleições autárquicas e da vontade do Presidente. Que não se conte este ridículo fora de portas e que se repita: para além do tempo, "isto apela a profissionais não preenchidos por burnout e sentimentos de "fuga", precarizados ou rodeados de má burocracia - o inferno acentuou-se (1998-2000) na anterior experiência de gestão flexível do currículo - num clima de desconfiança na democracia. Estas componentes criticas são mesmo os riscos a contrariar num ambiente de flexibilização curricular".

A imagem é de um pintor finlandês: um Anjo, mesmo que ferido como é o caso do escolar finlandês, justifica todos os cuidados e merece que se lhe dê tempo para encontrar outros caminhos.

 

image

 

Hugo Simberg.

"O anjo ferido"

Museo de Arte Ateneo.

Galería Nacional.

Helsinski. 

Finlândia. 



publicado por paulo prudêncio às 18:37 | link do post | comentar | partilhar

Terça-feira, 14.03.17

 

 

Há muito que se sabe que a nuclear gestão da informação das escolas está na "idade da pedra"; nos últimos anos, e com as plataformas digitais, o sistema escolar inaugurou a "idade da pedra digital". É uma atmosfera reconhecida pelas diversas equipas ministeriais antes de o serem. As campanhas eleitorais acusam a infernal hiperburocracia (a analógica e a digital) como a primeira responsável pelo burnout dos profissionais. Mas não passa de retórica. Os exercícios governativos agravam o fenómeno. Não revelam uma ideia sobre o modo de o atenuar. Até os simplex's são intuídos em sentido contrário. As plataformas digitais em que mergulham as escolas padecem de duas "patologias sem sala de aula" na fase de análise e programação: legisladores e empresas comerciais de software escolar.

 

PS: desculpe os anglicismos, caro leitor; mas até ficam bem no ambiente digital do post.

 

image

 



publicado por paulo prudêncio às 12:30 | link do post | comentar | partilhar

Quinta-feira, 23.02.17

 

 

 

É preferível a coragem de eliminar as retenções dos alunos nos anos não terminais de ciclo (nos terminais ficaria para mais adiante), do que andar há mais de duas décadas a culpar, exclusivamente, os professores e as escolas pelo insucesso escolar instituindo um inferno de má burocracia que se evidencia em reuniões de agenda repetida e documentos de "copiar e colar". Aconselho a leitura deste post do Paulo Guinote.

 



publicado por paulo prudêncio às 13:45 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Quarta-feira, 22.02.17

 

 

 

 

"92% dos professores defendem menos poderes para os directores e a mudança do modelo de gestão das escolas", é uma das conclusões de um inquérito que envolveu 25 mil professores.

Contra a avaliação do Ministério da Educação, e contra quase todos, Lurdes Rodrigues impôs a mudança do modelo de gestão da escolas (querem ver que, também aqui, declarará o seu arrependimento) com a ideia confessada de anestesiar os professores na "guerra" que lhes moveu e de fazer das escolas um "balcão de atendimento" do ministério. Foi apoiada pelo arco governativo de então uns "momentos" antes da entrada da troika. Era já uma associação de tragédias.

Há quem se interrogue sobre o que realmente se passa. O factor fundamental para a rejeição estará, na minha modesta opinião, na seguinte conclusão: "Abuso do poder e medo: 71% dos inquiridos consideram que o sistema aumentou as situações de abuso do poder, o clima de insegurança e de medo e o alheamento em relação aos assuntos da vida escolar". O modelo em curso possibilitou que sentimentos menores de favorecimento tomassem conta do processo de decisão e se afirmassem atitudes de assédio moral à volta da distribuição de serviço, da ocupação de cargos e da avaliação do desempenho. Geraram exaustão e medo; isto é, burnout. É mesmo impressionante e motivo de vergonha, mais ainda porque falamos de professores e de escolas. E depois, há tudo o resto que se pode ler numa notícia com um rol de conclusões muito desfavoráveis e que pode servir de aviso para o seguinte: o avanço da municipalização, e da gestão flexível do currículo, acentuará o clima muito negativo sem a alteraração do modelo de gestão.

 

Inquérito promovido pela Fenprof.

IMG_0797

 Vila Nova de Cerveira. Julho de 2016.



publicado por paulo prudêncio às 15:26 | link do post | comentar | partilhar

Domingo, 19.02.17

 

 

 

O "Governo vai mudar o currículo das escolas" contrariando decisões muito desfavoráveis aos alunos, principalmente aos mais jovens, promovidas por Crato com o empobrecimento curricular. É o passo seguinte depois do questionamento saudável a uma variável da mesma família: a indústria dos exames. É mais um motivo de esperança no sentido da moderação e da sensatez. Mas não chega. É preciso eliminar o que resta dos procedimentos da "guerra" aos professores, e à organização das escolas, da autoria de Lurdes Rodrigues.

A "nova" gestão flexível dos currículos eleva a exigência da escola (se a municipalização se abstiver). Não bastará disseminar directrizes centrais. Será preciso mais estudo, mais autonomia e mais responsabilidade, para que se afirmem valores de liberdade, maturidade e transparência. E tudo isto apela a profissionais não preenchidos por burnout e sentimentos de "fuga", precarizados ou rodeados de má burocracia num clima de desconfiança na democracia. Estas componentes criticas são mesmo os riscos a contrariar num ambiente de mudança curricular.

 

mw-960

 



publicado por paulo prudêncio às 18:00 | link do post | comentar | ver comentários (10) | partilhar

Quinta-feira, 26.01.17

 

 

 

O ambiente no país melhorou com o novo Governo, mas é inquestionável, e com todo o realismo, que se mantêm as componentes críticas da vida profissional de milhares de professores. Temos o dever de o sublinhar. E nem todas têm implicações financeiras; algumas melhoravam a capacidade volitiva, atenuavam o burnout e reduziam a despesa.

É a 4ª edição desta curta radiografia. A 1ª é de 5 de Novembro de 2015, a 2ª de 10 de Junho de 2016 e a 3ª de 20 de Novembro de 2016. Vou repetindo o post enquanto se justificar, sem esquecer boas intervenções em variáveis importantes (por exemplo: concursos BCE, prova de acesso e rede escolar).

Há uma legião de professores contratados sujeita a um inimaginável processo de desprezo profissional. O desinvestimento na escola foi brutal também nos seus profissionais. E os professores do quadro? Estão há anos com a carreira congelada, para além, obviamente, dos cortes transversais e da aposentação retardada. As imagens alojam-se e inscrevem os acontecimentos mais significativos: anos a fio com a avaliação do desempenho kafkiana (salva-se a inutilidade), divisões na carreira, mais turmas com mais alunos em horários ao minuto, inutilidades horárias, hiperburocracia, espectro de horário zero e megagrupamentos com um modelo de gestão "impensado" que transportou a partidocracia para dentro das escolas. É natural que o sentimento de "fuga" se afirme com tantos murros na dignidade. Importa sublinhar que os meios de comunicação social estão há uma dezena de anos a publicitar em primeira página a devassa da carreira dos professores e o "tudo está mal na escola pública".

 

 

632de4ff531e7f964e6bbf1da02900b9

 

 Faces, Picasso



publicado por paulo prudêncio às 16:40 | link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Quarta-feira, 04.01.17

 

 

 

Os "franceses já podem ignorar emails fora do horário de trabalho". Não é o único país a legislar com a preocupação no burnout de profissionais, que é um flagelo resultante do desconhecimento vigente sobre ciências da administração associadas aos sistemas informacionais dos diversos domínios de actividade. As escolas portuguesas, onde a desconfiança nos professores é a causa de um inferno de informações inúteis, repetidas e redundantes, aderiram às plataformas digitais de empresas comerciais. Quando a sensatez francesa atingir o território nacional, a escola portuguesa ficará finalmente centrada no essencial: aulas, com as respectivas classificações de alunos.

 

Captura de Tela 2017-01-04 às 17.02.39

 



publicado por paulo prudêncio às 17:38 | link do post | comentar | partilhar

Terça-feira, 06.12.16

 

 

 

Os alunos portugueses, com 15 anos em 2015, "obtiveram os melhores resultados de sempre nos testes PISA". Apesar das "reformas" perpetradas por Lurdes Rodrigues, Crato e afins, das causas do burnout e dos professores portugueses serem a classe profissional mais devassada pela comunicação social na última década, os alunos portugueses estão, pela primeira vez, acima da média da OCDE com elogios à ambição escolar dos encarregados de educação e à capacidade dos professores (elogiada também pelos seus alunos): "são os melhores a adaptar as aulas aos alunos". Conclui-se que as salas de aula vão sobrevivendo aos "reformistas" radicais de sinal contrário.

 

Nota: os testes PISA "valem o que valem" (como as sondagens) e há críticas fundamentadas a este modelo de análise de dados (uma espécie de subprime destes assuntos). Concluem-se dois dados gerais: estamos nos três últimos lugares no insucesso escolar e os tais países dos arautos da privatização afundam-se. Como dado humorístico, sublinha-se que os alunos testados desde 2000 (Portugal subiu quase sempre em cada triénio) nunca fizeram exames no quarto ano e, provavelmente (só mesmo os que reprovaram três vezes até ao sexto ano), só uma pequena parte da última amostra fez no sexto ano; e sobreviveram.

Legenda das linhas do gráfico: ciências a verde (a maior subida), leitura a vermelho e matemática a azul (uma estagnação); dados desde 2000 referentes a Portugal.

image

 

image

 



publicado por paulo prudêncio às 12:03 | link do post | comentar | partilhar


Inauguração do blogue
25 de Abril de 2004
Autor:
Paulo Guilherme Trilho Prudêncio
Discordâncias:
Mais até por uma questão estética, este blogue discorda ortograficamente
arquivo
comentários recentes
um outro sinal do envelhecimento, é o aumento do n...
Será caótico e explosivo.
Percebo e concordo.
subscrever feeds
mais sobre mim
Por precaução
https://www.createspace.com/5386516
ligações
blog participante - Educaá∆o - correntes .jpg
tags

antero

avaliação do desempenho

bancarrota

blogues

campanhas eleitorais

cartoon

circunstâncias pessoais

coisas tontas

concursos de professores

contributos

corrupção

crise da democracia

crise da europa

crise financeira

desenhos

direitos

economia

educação

escolas em luta

estatuto da carreira

falta de pachorra

filosofia

fotografia

gestão escolar

história

humor

ideias

literatura

luís afonso

movimentos independentes

música

paulo guinote

política

política educativa

professores contratados

público-privado

queda de crato

rede escolar

ultraliberais

vídeos

todas as tags

favoritos

bloco da precaução

pensar o sistema escolar ...

escolas sem oxigénio

e lembrei-me de kafka

as minhas calças brancas ...

as minhas calças brancas ...

reformas e remédios (1) -...

sua excelência e os númer...

posts mais comentados
Razões de uma candidatura
https://www.createspace.com/5387676