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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Regresso às Aulas

19.07.20

Captura de ecrã 2020-07-18, às 13.42.46.png

Antes de mais: o rating dos países determina a prosperidade. Com um bom rating, contrai-se dívida a juros e prazos muito favoráveis e prospera-se com défices baixos ou superavits. É um exercício que, e vê-se, não prevê longas quebras. O rating, ao contrário do que muitos pensam, não depende das riquezas naturais (olhe-se a Venezuela ou Angola). Decorre da consistência das legislaturas. É o que assegura investimentos, em paralelo com as imagens da justiça e do controle da corrupção. Foi o que a Europa percebeu tarde na crise de 2008 e que deve concretizar na covid-19 se quiser manter a paz, salvar vidas e recuperar as economias.

Portanto, como há muitas regiões em que o papel central da escola é assegurar a força laboral das classes média e média baixa e dos pobres, alguns políticos, na Europa também, nivelam-se por Trump: "abram as escolas, dê lá por onde der"; agrava-se na aproximação a actos eleitorais, apesar "das escolas e dos transportes públicos serem os principais focos de contágio". E se a escola, como substituta da sociedade e da família, tem um papel tanto mais nuclear quanto mais pobre a região, é um argumento irreal salientar a urgência das aprendizagens. Essa escola não prioriza, em regra, o ensino e a aprendizagem.

Além disso, a escolaridade dos países melhora com o crescimento do nível de vida e da ambição escolar. Exige investimento continuado (o contrário do que Portugal fez quando gravemente considerou os professores, e a escola, o despesismo da nação em contraposição à excelência empresarial do GES/BES, e dos intermináveis inspirados, e da sua elevada estatura moral). A educação, ao contrário de outras áreas sociais, tem resultados a médio e longo prazos e só é vital no curto prazo para a economia. Com a pandemia, o longo encerramento das escolas trará outras implicações imediatas que afectam o desenvolvimento dos alunos.

Dito isto, é injusto que se diga que os professores nada fazem para abrir as escolas. É tão desinformado como a citada contraposição. As salas de aula estão no grau mais elevado de contágio e também se estima "que 20 crianças de uma turma contactam com mais de 800 pessoas em dois dias". Não é culpa dos professores. E, nem de propósito, a visão estratégica de António Costa Silva, no PRE 2020-30, enuncia, vejam lá, "a intenção de investir num programa de reformas antecipadas para os professores". Não será por acaso que o fez. Não parece dado a epifanias. Mais de metade dos professores tem mais de 50 anos e há milhares com mais de 55 ou até de 60. Mesmo que os professores fossem maioritariamente jovens, a questão era idêntica como se vê onde também não se investiu, com consequências, por exemplo, no número de alunos por turma e por escola.

O facto, e para além do que foi dito, é que em Setembro não se optará entre ensino à distância e aulas presenciais. Não se trata disso. Primeiro, porque, em regra, não há aprendizagem atrás de uma máscara ou de um ecrã. Depois, porque se prevê que só teremos escola presencial plena lá para o segundo ou terceiro períodos. Quando muito, em Setembro recorrer-se-á ao não presencial para metade da turma intervalada semanalmente por sessões na escola; e mesmo isso deverá ser impraticável. O que se espera, é que se aproveite este hiato e se elevem de vez as condições de ensino e aprendizagem (e tão decisivas que seriam nesta fase, como se regista nos que elevam a educação) enquanto se combate o flagelo da pandemia.

Desenho de "Côte, Para Le Soleil, Canadá" - na Courrier Internacional - texto adaptado.