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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

"Raiva Contra A Máquina"

29.07.20

"Bom dia!

Tom Morello está contente. Afinal, diz, foi mesmo para isto que os Rage Against the Machine fizeram aquela canção. Lançada em 1991 primeiro êxito da banda de Los Angeles, “Killing in the name” fala de racismo institucionalizado e violência policial. Passadas quase três décadas, tornou-se hino dos manifestantes que há semanas protestam nas ruas de Portland, Oregon, um pouco mais a norte na costa ocidental dos Estados Unidos da América. Ainda se lembra do refrão? É isso: “Fuck you, I won’t do what you tell me!”, cantado com convicção. E abanando a cabeça, sobretudo quem usa cabelo comprido.

A situação em Portland é grave, conta o correspondente do Expresso, Ricardo Lourenço. Há dezenas de feridos e até o presidente da Câmara já apanhou com gás lacrimogéneo lançado pela polícia. Afinal, como é que tudo isto começou?

A CBS explica que ali houve, como em todo o país, contestação na sequência da morte de George Floyd, negro asfixiado pelo joelho de um polícia em maio, em Minneapolis. Em Portland tudo se precipitou quando, a 4 de julho – Dia da Independência, estando os protestos já a esmorecer –, a polícia federal, enviada pelo Governo central, se dedicou a proteger o tribunal federal, que fora arrombado na véspera por um pequeno grupo de protestantes. Ali perto há uma cadeia e uma esquadra que também tinham sido alvo de protestos. Dias antes Donald Trump tinha assinado um decreto a autorizar a intervenção da polícia federal para travar o “vandalismo contra bens estatais”.

As autoridades locais criticaram a decisão do Presidente – forças federais devem atuar nas cidades a pedido destas e não por imposição da Casa Branca, argumentam, falando em abuso de poder – e a autarquia de Portland não quis que a polícia municipal colaborasse com a federal. Outra das fontes de controvérsia é que a Administração central destacou para Portland membros dos serviços de imigração e fronteiras.

William Barr, o procurador-geral (cargo que nos Estados Unidos acumula as funções de ministro da Justiça), defendeu a ação das forças federais perante o Congresso, numa sessão agitada em que considerou estar-se perante tumultos e não protestos. “The New York Times” procura destrinçar factos e mitos, ao passo que “The Atlantic” explora os efeitos deste barril de pólvora em ano de eleições. Veredicto: Trump quis isto e está a correr-lhe bem.

É certo que convém ao chefe de Estado que desliza pelas sondagens abaixo chamar a atenção para a segurança, a lei e a ordem, palavras caras ao eleitorado que o elevou ao cargo máximo em 2016. Em eleições americanas mobilizar o voto costuma ser mais importante do que persuadir gente do campo oposto, num clima político cada vez mais polarizado e avesso ao diálogo e à construção de pontes. Nesse aspeto, imagens de destruição e caos em Portland são um sonho para o Presidente, escreve “The Washington Post”.

Trump pretende, acima de tudo, que se fale pouco ou nada de covid-19, embora não resista em repetir as suas fixações e contrariar os cientistas da sua própria equipa. A pandemia grassa descontrolada no país e não só prejudica as perspetivas de reeleição como dá asas aos que defendem soluções de cobertura de saúde universal, que o adversário Joe Biden faz por recuperar, informa o Politico.com. Recorde-se que o candidado presidencial do Partido Democrata foi vice de Barack Obama, cujo plano Obamacare o atual Presidente quer a todo o custo revogar. Ora, se há ano em que a importância dos serviços públicos de saúde ficou clara, foi este bizarro 2020.

Com o mês a terminar, avizinha-se a data em que Biden indicará quem o acompanha na candidatura à Casa Branca. Sabe-se que a sua aposta para o cargo de vice-presidente será uma mulher e o próprio promete tudo esclarecer nos próximos dias. Há quem não resista a tentar saber antes (faz parte do ofício de jornalista, certo?) e uns papéis nas mãos do candidato levaram muitos a voltar o olhar para Kamala Harris, senadora da Califórnia que concorreu às primárias. Nas notas de Biden liam-se elogios como “Fez campanha comigo e Jill [mulher de Joe]”, tem “talento”, “ajudou muito na campanha” e “muito respeito por ela”. Faltam três meses e três dias para as presidenciais de 3 de novembro. Leia na edição semanal de sábado, 1 de agosto, uma entrevista sobre quão complicado pode ser esse dia além-Atlântico."

Expresso Curto. Pedro Cordeiro. Editor da Secção Internacional. 29 de Julho de 2020.