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Correntes

em busca do pensamento livre

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os professores e as faces da quarta revolução industrial

22.06.18

 

 

 

As novas contas do Ministério das Finanças ("os custos das progressões dos professores em 2018 baixam de 90 para 37 milhões"), escaparam a uma geometria política variável na manipulação de números e argumentos que há mais de uma década degrada a carreira dos professores. Ou seja, o concreto fragilizou a argumentação governativa. Tem sido assim com os últimos executivos e nem os governantes da educação diferem (dá ideia, tal o grau da coisa, que o presente é um ajuste de contas que vem de 2007 e 2008, como se não bastasse o desprezo profissional que se intensificou desde aí). Aliás, o que surpreendeu os governos, e quem os apoia de modo clubista, foi a capacidade dos professores mediatizarem argumentação e desconstruirem falácias com solidez. Já era tempo, e como sublinha Klaus Schwab (2017:64) na "A Quarta Revolução Industrial", de "(...)os governos se adaptarem ao facto do poder estar a mudar de agentes estatais para não estatais e de instituições estabelecidas para redes dispersas. As novas tecnologias e os grupos sociais e as interacções que promovem permitem que praticamente qualquer pessoa exerça influência de um forma que seria inconcebível há apenas alguns anos.(...)". A educação está num pré-caos e num impasse: o Governo terá de rebuscar o faseamento da recuperação do tempo de serviço e a plataforma sindical não poderá assinar uma versão que não o contemple. A mesa negocial não valorizou o aparecimento de um sindicato digital, nem, e pela enésima vez, o efeito das redes sociais e do grau de saturação dos profissionais, e o executivo adiou o inadiável. Agora, terá de ser célere e inteligente numa solução salvífica para as faces. 

 

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Faces, Picasso

3 comentários

  • Nem mais.
    Já em 2007 e 2008 muitas pessoas se surpreenderam. Esta solução governativa até começou bem, mas dá ideia que a disciplina do euro é draconiana. E depois há qualquer má vontade mal resolvida com os professores. Pelo mesmo, é o que fica.
  • Sem imagem de perfil

    Maria Silva

    02.07.18

    A má vontade mal resolvida contra os professores comporta vários fatores:
    1- Um imaginário limitado em relação à importância da cultura e do saber, enformado por uma sociedade cujo perfil, no momento em que acontece o 25 de abril, apresenta a mais alta taxa de analfabetismo da Europa, situação que não foi resolvida, como deveria, com uma revolução cultural, mas que foi varrida para debaixo do tapete com a massificação da escola. Assim a massificação de diplomados que é hoje constituída por decisores e “opinion makers” deste país é oriunda deste perfil social e reconhece mais valor ao futebol do que ao teatro, por exemplo.
    2- O facto da expetativa em relação à escola ser irrealista, de se atribuírem à escola missões impossíveis que obviamente só pode falhar. Por exemplo, espera-se da escola que descubra o brilhantismo oculto que existe em cada um nós, antes mesmo de que ele seja revelado perante o próprio. O professor tem o ónus de modelar mentes e vontades até ao infinito, tarefa que não se espera de psicólogos e psiquiatras que são especialistas na mente humana. A indefinição clara das incumbências da escola e das limitações da sua ação, servem a correlativa indefinição acusatória que flutua contra a escola e contra os seus agentes, os professores.
    3- A assimetria social, não existem quotas de género para o grupo profissional dos professores, predominantemente constituído por indivíduos do sexo feminino. Esta situação é afetada por alguma simbologia social. O facto da sua imagem social não ser representada por executivos de fato e gravata, com um ar grave, influencia o estatuto social do grupo profissional dos professores, que são tuteados na praça pública com a familiaridade de quem vive na porta ao lado, sem se vislumbrar que a educação é um sector tão estratégico como as finanças, uma vez que a principal riqueza que este país possui são os recursos humanos, e todos: juízes, políticos, artistas, cientistas, metalúrgicos etc. são formados na escola.
    A nossa sociedade atribui ao grupo profissional dos professores (apesar da exigente tarefa que lhe cobra) um estatuto remuneratório inferior ao de outros grupos profissionais com graus académicos equivalentes, porque aceita que o contributo para o orçamento familiar da mulher seja secundário em relação ao do homem.
    O tradicional espírito de entrega e de sacrifício das mulheres e a sua capacidade de multitarefas, paradoxalmente, não ajuda ao seu reconhecimento.
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