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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

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Os drones e a guerra higiénica

11.02.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os drones e a guerra higiénica

Pedro Xavier Mendonça
Sexta feira, 7 de fevereiro de 2014
 

"A guerra é uma questão de sangue. De muito e pouco. Muito, porque quer-se o sangue dos outros; pouco, porque procura-se poupar o próprio. A tecnologia surge precisamente neste duplo de destruição e proteção. Ao longo dos séculos, podemos ver nas armas a pretensão de destruir com mais precisão ou com maior massificação o inimigo, ao mesmo tempo que se tenta aumentar o nível de segurança do guerreiro. Umas armas tendem mais a um aspeto do que ao outro, mas têm-nos implicitamente no seu modo de ser. Uma espada é mais destruidora do que protetora e um escudo vice-versa. Uma bomba atómica destrói mais em massa do que um veneno, mas ambos, ao destruírem, protegem. As bombas atómicas lançadas pelos EUA no Japão na II Guerra Mundial foram um meio de destruição em massa que evitou que mais soldados americanos morressem. Diferentemente, na I Guerra Mundial, a inadaptação dos generais às novas máquinas de guerra lançou soldados para mortes estúpidas frente a um novo poder de fogo. Hoje, isto é cada vez menos provável.

 

A tendência para este binómio tem crescido. É visível o aumento da destruição ou da precisão da mesma e simultaneamente uma cada vez maior proteção do guerreiro. Os drones são o expoente máximo disto. São dispositivos robóticos que podem ser comandados à distância por terra ou ar. Destruindo com exatidão e por vezes em massa, protegem completamente o piloto, que fica no conforto do gabinete a conduzir o artefacto. Na lógica da segurança, atinge-se a despersonalização total do guerreiro. E uma desumanização ainda maior da guerra. Esta transforma-se numa espécie de jogo de computador, em que o sangue e a dor alheios são realidades tão distantes que se transformam em índices de ação em lugar de fatores de sentimento.

 

Ironicamente, a democracia favorece este tipo de guerra. Os soldados, em geral, neste regime, são mais preciosos do que numa ditadura. O comandante das forças armadas tem que responder perante os cidadãos. Veja-se o pudor que há nos EUA com os corpos dos militares mortos quando chegam a território americano. Explicar essas mortes não é fácil. Então passa a ser quase tão importante salvaguardar a vida do soldado como é destruir a do inimigo. É em democracia que o equilíbrio entre a necessidade de matar e a de proteger é maior. Por isso, ela favorece a dita despersonalização e uma perversão muito específica: apela-se aos direitos humanos na proteção do militar amigo ao mesmo tempo que esses direitos são desprezados no inimigo, por vezes de forma brutal. Basta ver como os atentados terroristas no Iraque são tratados como banalidades pelos media ocidentais comparando com a excecionalidade dos que ocorrem dentro das portas do ocidente. Por isso, para sair para a guerra há que ter a higiene da distância. A vitória mede-se nos ecrãs."