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Correntes

em busca do pensamento livre

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O Tribalismo Tomou Conta do Escolar

17.02.19

 

 

 

O contraditório no debate ideológico é essencial. É também assim nas políticas educativas, onde o progresso não é linear: tem recuos e recomeços. Mas é importante sublinhar que os retrocessos civilizacionais levam anos a recuperar. A escola, que é "desde sempre", e quase por definição, uma instituição em crise, está  exposta ao tribalismo que tomou conta das sociedades.

Saberes estruturantes e coração do currículo, interdisciplinaridade (um desejo antigo), sucesso escolar, avaliação contínua - com rigor e exigência e nos modos formativo e sumativo -, e inclusão, são, há muito, as bandeiras da boa vontade. São atributos essenciais do escolar democrático. Estabelecem o denominador comum que dificulta a possibilidade do tribalismo. É absurdo, por exemplo, contrapor o "ler, escrever e contar" ao imperativo moderno dos saberes estruturantes que incluem ciências, humanidades, línguas, artes ou desportos. É reconhecida a dificuldade organizacional, acrescida se considerarmos a existência do senso comum, das ideologias e dos pragmatismos governativos, em ligar saberes, buscar o sucesso para todos, significar provas de avaliação ou construir a escola onde cabem todos. Mas são matérias em que a oscilação nos extremos abre espaço ao tribalismo, desde logo por contraposição. As sociedades "sobreviventes" - têm uma consistente e maioritária classe média -, com sistemas modernos e sensatos, anteciparam a gestão escolar propriamente dita sintetizando a incomunicabilidade das ciências da educação com as da gestão e administração. Não precarizaram a carreira dos professores, bem pelo contrário, testemunhando-lhe um clima de confiança numa atmosfera desburocratizada. Portugal tem caminhado o mais possível no sentido oposto. A precarização, a hiperburocracia e a desconfiança nos professores são causa e consequência da desorientação das políticas educativas e da prevalência de lógicas tribais.

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Nota: comecei este texto na semana passada e fui retocando para publicar hoje. Por acaso, ontem mediatizaram os rankings de escolas, uma excentricidade portuguesa (seria interessante perceber o que levou a pioneira Singapura a terminar radicalmente com o processo), que tem sido mais um momento de manifestações tribalistas.