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Correntes

em busca do pensamento livre

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O Que AÍ Vem

07.10.19

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António Costa abriu o discurso de vitória na direcção dos abstencionistas sublinhando a preocupação com o futuro da democracia. Nesse sentido, todo o espectro parlamentar devia inaugurar, antes que seja tarde, a descida da estratosfera e o abandono da nefasta lógica de aparelho.

Por outro lado, há quatro anos, e na criação da inédita maioria parlamentar que muitos anunciaram como catastrófica, Mário Centeno aterrou em Bruxelas, e no Eurogrupo, envolto numa aura risível semelhante à da primeira intervenção no parlamento que levou Passos Coelho às lágrimas de tanto rir. Por muito que custe aos ultraliberais, como foi o caso do ex-PM, houve mérito na estabilidade portuguesa e Centeno regressa como presidente do mesmo Eurogrupo. Quem diria. É certo que o plano priorizava a subida do consumo interno que não se verificou com a intensidade imaginada; para além disso, beneficiou da política do BCE, de um conjunto de cativações no OE, e nas carreiras com mais pessoas, dos impostos indirectos e do aumento inesperado do turismo. Mas é uma lição para os que adivinhavam o caos com um Governo assim. Como sempre defendi, todo o parlamento podia ser convocado para a aprovação de um programa de Governo e respectivos OE´s. Mas há riscos para a solução dos últimos quatro anos que poderão penalizar ainda mais as forças constituintes e aumentar a abstenção ou o recurso a votações extremas. Basta, como será a leitura de muitos abstencionistas, que o algoritmo de Bruxelas continue "aprisionado" pelas tais forças financeiras que capturaram os OE´s. O caso dos professores, que conheço melhor, vive uma espécie de quadratura do círculo que serve de exemplo: todos, com informação, claro, concordam com as razões dos professores, mas como são muitos são os mais injustiçados anos a fio. Repare-se no estado da carreira: falta grave, já indisfarçável, de professores; carreira não atractiva e não rejuvenescida com milhares de profissionais em baixa médica prolongada ou perto disso; constrangimentos para milhares que estão há muito bloqueados nas progressões; generalizado clima de desconfiança projectado em hiperburocracia e ambiente escolar doentio. Apesar do sumário descrito ser irrefutável, os professores foram literalmente excluídos da campanha eleitoral. Instalou-se a ideia de que quem defende os professores perde votos e não existiu um partido político que escapasse à "novidade". Os discursos que referiram, sempre apressadamente, a escola pública, ignoraram os professores. É um bom exemplo para a difícil equação de uma Geringonça 2.0 que aí venha e um sério aviso para os que se preocupam com o futuro da democracia e da abstenção, principalmente se se pensar nas forças não democráticas que estão disponíveis para todos os descontentamentos.

Imagem: A Geringonça criada por Leonardo da Vinci, um cientista ousado "que se destacou como cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquitecto, botânico, poeta e músico".

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