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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Nem no Ensino por Internet e em Plena Pandemia

24.05.20

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O elogiado ensino finlandês consolidou há muito características determinantes que incluem a não avaliação do desempenho dos professores e a inexistência de serviços de inspecção escolar (mas existem, obviamente, os órgãos da justiça). A pandemia proporcionou-lhes um desafio formativo no ensino por internet. No resto da Europa não é tanto assim nos mecanismos de controlo, mas o que se passa em Portugal está muito distante e nem a crise serviu para qualquer avanço civilizacional que permita uma escola mais humanizada.

E não é apenas por causa do efeito sistémico do injusto acesso ao superior. Os especialistas em direito reconhecem que em Portugal se legisla mal e em excesso e, para além disso, o país tem mais de 20 anos de insucessos na organização de um sistema decente de gestão da informação escolar. A conjugação das duas insuficiências estimula um clima desregulado e de fingimento que tanto permite boas inovações como ilegalidades raramente penalizadas. Aliás, ainda no regresso à escola presencial tanto foi noticiado, com merecido elogio, o agrupamento que contornou o protocolo (pasme-se mas com um sorriso) como apareceu o ministro a prometer disciplinar a inflação de notas que é um produto antigo de um acesso ao superior que quase todos dizem querer mudar e que o próprio promete repensar; enfim. E é este ambiente de excessos, imprecisões, inacções, impreparações, desconfianças e irregularidades que cansa professores e alunos (os segundos cada vez gostam menos da escola, como se observou em estudos recentes).

E se a qualidade dos sistemas se regista nos detalhes, é a sua soma que faz a diferença. Por exemplo, os professores rapidamente se viram rodeados por excessos no processo digital. E não foi apenas por causa da "impossibilidade" da escola através da máquina. Como se recordam, os fantásticos professores passaram a leccionar, com os seus meios e de um dia para o outro, nas plataformas da google, microsoft, zoom, cisco webex, whatsapp, facebook ou moodle onde ficam os meta-dados com a devida notificação (por exemplo, presenças, com dia e hora, de alunos e professores) e se alojam conteúdos, tarefas, actividades e conexões digitais. Mas para o legislador é insuficiente. Como as escolas financiam plataformas digitais de empresas privadas, por causa do referido insucesso do Estado, para todos estes registos no tempo normal, os professores repetem o lançamento da informação para preencherem horários que deixaram de existir. Mas para o legislador ainda é insuficiente. As orientações centrais ainda prevêem a obtenção das informações de um modo que resulta em ficheiros digitais (em regra, em word ou excel e nas já célebres e infernais grelhas) com uma periodicidade que pode (o deve fica sempre nas entrelinhas) ser diária, semanal, quinzenal, mensal, trimestral, semestral ou anual. É o tal estímulo às ideias de fingimento e contorno do protocolo.

Em regra, apontam-se duas razões (aconselho a leitura do "Temos que parar para pensar" de António Galopim de Carvalho) para este universo estranhamente pouco estudado: impreparação na análise e programação de sistemas de informação e o "modo como há muito se preenchem os lugares no parlamento, nos gabinetes ministeriais e na máquina escolar". Parecem-me conclusões razoáveis (digo razoáveis porque não são exclusivas de Portugal; embora por cá se exagere, realmente), mas com elevado grau de acerto. De qualquer modo, é uma letargia que nem o ensino por internet, e em plena pandemia, inquietou verdadeiramente. E isso cria apreensão com a logística da anunciada "blended learning" (presencial e internet), ou dos seus derivados na sociedade das conexões, num futuro próximo que radiografará os países.

Duas pequenas notas:

1. O Público entrevistou Ruth Wagen, doutorada em comportamento organizacional pela Universidade de Harvard, que diz: “Em teletrabalho, não ceda à tentação de monitorizar as pessoas, de as pressionar ainda mais”.

2. A pandemia teve uma utilidade: caiu por terra a ideia da substituição de professores por máquinas.

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