Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

"Mais de 6 mil Docentes no Topo", diz o Expresso na 1ª página

08.03.21

1ª edição deste post em 19 de Janeiro de 2020.

Captura de ecrã 2020-01-18, às 17.58.01.png

"Mais de 6 mil docentes no topo", diz o Expresso na 1ª página (e o Público anteontem). É a insistente estratégia comunicacional da última década e meia, com o objectivo de precarizar os professores que ainda são cerca de 47% da administração central; e o olhar orçamental não resiste em desinvestir nos professores. E é também por isso que a crescente falta de professores é imparável. Já nada há a fazer de civilizado para o curto e médio prazos. Por exemplo, a ideia apressada de um professor leccionar várias disciplinas (onde o modelo funciona com decência tem anos de preparação séria na formação inicial e profissional), não reduz o investimento e degrada o que existe. Leia-se, adaptado, um jovem professor que emigrou para onde o desnorte começou há mais de uma década: "em Inglaterra, um professor lecciona qualquer disciplina, basta ter um canudo, mas isso reduz a exigência e deteriora a qualidade de ensino. Para ensinar uma infinidade de conteúdos, e não é possível saber de tudo ao mesmo tempo, tem que se "simplificar" o ensino. Portugal também vai por aí? E regressar por 1200 euros por mês? A 500 quilómetros de casa?". Só haverá dois modos de atenuar a falta de professores: acabar com várias disciplinas ou reduzir os dias lectivos semanais (um estado americano ultraliberal reduziu para três, mas os mentores duraram pouco) e transformar as escolas em armazéns a tempo inteiro com "guardadores" contratados em plataformas no "modelo-Uber".

E como as primeiras páginas teimam na desinformação, resta-nos repetir o óbvio: há 115 índices remuneratórios na administração pública (a imagem é do site da Direcção-Geral da Administração e Emprego Público). O topo dos professores está no 57º lugar (sublinhei na imagem). Há 58 índices remuneratórios acima dos professores e o topo recebe quase o dobro; e mais 120% do que a média. 

Para além disso, um coro mediático repete há muito que "os professores não podem chegar todos ao topo" e, não raramente, argumenta com as hierarquias militares. De modo sucinto, diga-se que um brigadeiro não realiza as tarefas de um tenente e vice-versa, mas um professor do 1º escalão pode leccionar a mesma turma que um do 10º. O cerne da profissionalidade dos professores é a sala de aula e as progressões oxigenam uma carreira horizontal. O conceito de topo não existe. De resto, há uma discussão sobre direitos e deveres a recuperar (algo de preocupante estará a acontecer quando a sociedade não se questiona sobre a perda de direitos fundamentais que exigiram lutas determinantes). Desde logo, civilizar os horários laborais para que as famílias tenham tempo para as crianças, e rejeitem a incivilizada escola a tempo inteiro, e esclarecer que os cortes nos professores atrasaram milhares (mais de 6 mil) na chegada a um escalão máximo que é o 57º da DGAEP, que há 60 mil que nunca lá chegarão e que os que entrarem aspirarão ao 80º lugar.

6 comentários

  • Sem imagem de perfil

    maria teresa morais quintela

    10.03.21

    Eu tenho 61, 36 de serviço e estou no 8º escalão. Se pedisse a reforma antecipada, nem o salário mínimo receberia. No entanto a opinião publica, feita pelos media e sucessivos governos, teima em colocar-nos a ganhar pequenas fortunas, faz de nós preguiçosos, incompetentes e outros mimos.
    Triste sorte a nossa.
  • É inadmissível que esteja no 8º escalão e nem se percebe como é possível que "Se pedisse a reforma antecipada, nem o salário mínimo receberia". Estas reformas deviam ser proibidas por lei. Há pessoas desesperadas (até por questões de saúde) que o fazem e que depois se arrependem; em vão.
  • Sem imagem de perfil

    maria teresa morais quintela

    11.03.21

    Mas estou, fui sempre avaliada, desempenhei tudo que é cargo, mas tive o azar de levar com todas as mudanças de escalão, além de que o tempo que estive em serviços regionais do ME e em representação do ME na SS e numa CPCJ me prejudicou . Mas olhe que há professores ainda pior que eu, mas também hã colegas com o mesmo tempo de serviço e que estão no 10º escalão.
    Deixei de ser sindicalizada porque os sindicatos nunca se preocuparam realmente com as desigualdades entre professores.
  • Tem toda a razão, Maria Teresa. Desde os famigerados concursos do tempo de David Justino, em que à última hora se inventou um algoritmo que colocou tudo errado no quadro e assim ficou "para a vida" sem a maioria se aperceber, que a carreira foi sofrendo atropelos sucessivos e brutais injustiças (o legado de Lurdes Rodrigues é muito lamentável); a maioria das injustiças são irreparáveis até porque muitas pessoas já se reformaram e noutros casos nunca haverá retroactivos. E não há meio de se parar com estes modelos de avaliação, carreira e gestão para que a profissionalidade dos professores ganhe algum oxigénio. Aquele entendimento entre sindicatos e governo em 2008 foi fatal para o sindicalismo dos professores, ainda por cima porque, e infelizmente, já estávamos numa fase de descrédito do sindicalismo em geral.
  • Sem imagem de perfil

    mario silva

    14.03.21

    e as últimas leis da portaria das 'ultrapassagens' e do OE 2018 que permitiu a uns subirem 2 escalões no mesmo ano e a outros a esperar mais 2 anos...
    o sindicalismo padece de uma agenda politico-paridária que conspurca a sua matriz mas depende-se dele para a negociação laboral...
  • Comentar:

    Mais

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.