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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

Enquanto o sol teimar em nascer

02.12.18

 

 

 

Como é possível que o deputado do PS, Paulo Trigo Pereira, "escreva na sua declaração de voto" que os professores exigiram retroactivos? Não acredito que não saiba que não é verdade. Como o deputado é economista, decerto que saberá que os retroactivos superariam a última antecipação ao FMI (8 mil milhões de euros) e que os professores foram a classe profissional mas atingida na administração central;  e de longe. Entre 2006 e 2016, por exemplo, "desapareceram" mais de "40 mil professores (cerca de 30%)" enquanto a dívida pública subia de "64.7% do PIB (2006)" para os "130% do PIB (2016)". E como é que isso se explica? Por que será que há tanto receio em detalhar a dívida pública e informar devidamente as pessoas?

Se este constante "arremesso ao professor", que é partilhado em locais inesperados, tem efeitos nas salas de aula (não serão as únicas causas, obviamente) como se percebe na conclusão da OCDE que diz que "a pequena indisciplina nos coloca no primeiro lugar do tempo perdido para começar uma aula", é importante que se sublinhe a resiliência dos professores que, e "como também sublinha a OCDE em relação ao respeito, e reconhecimento, mútuo generalizado entre professores, alunos e encarregados de educação, os professores portugueses são os melhores a adaptar as aulas às necessidades dos alunos." Convenço-me que estas pessoas não têm qualquer noção do que é uma sala de aula e da energia decisória que é necessária para corresponder a dezenas de solicitações importantes por parte de trinta indivíduos (crianças e jovens) por hora.

Estudos recentes dizem que "só os alunos dão ânimo aos professores" e que "os professores são vítimas de uma organização de trabalho que os adoece". Mas não se lê uma linha sobre o assunto. Deputados, comentadores e até governantes silenciam a tragédia. Se o sistema escolar mais parece um manicómio organizacional antecipado pela sonda da NASA que aterrou em Marte, dá ideia que os decisores políticos, e os seus suportes comunicacionais, se julgam a salvo noutra galáxia, e com outro sol, e insistem nestas falácias completamente intoleráveis.

Imagem: Pôr-do-sol em Sagres.

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