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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

e lembrei-me de kafka

18.04.20

 

 



(Este texto é de 10 de Junho de 2007. Lembrei-me de o recuperar por causa da ideia de ir levar documentos escolares a casa dos alunos que não têm internet nem computador)

 
Iniciava o exercício, e o privilégio, de gestão de uma escola portuguesa: decorria o ano de mil novecentos e noventa e sete e o estabelecimento de ensino integrava um território de intervenção prioritário: ou seja, a escola estava rodeada por problemas sociais graves e isso inundava o seu projecto educativo. Havia que arregaçar as mangas e consumir as energias no essencial.

Certo dia, recebo uma assistente social que, e ao que a memória me diz, representava os serviços sociais do ministério da justiça. Vinha com a firme determinação de ajudar a resolver um problema relacionado com uma família com as características da zona envolvente: a uma pobreza chocante, associava-se uma habitação degradada e só com um quarto; tinham sete filhos, salvo erro.

As minhas tarefas exigiam-me um alucinante desdobramento. Para ganharmos tempo, propus que os visitássemos: fomos a pé, a distância era curta, e conversámos sobre as soluções.

Estávamos em plena segunda-feira. Aproximámo-nos da habitação e quando nos preparávamos para bater à porta demos com um papel com a seguinte inscrição: "só recebemos assistentes sociais às 5ª feiras das 13.00 às 14.00".

Ficámos estarrecidos e sem palavras. Lá nos recompusemos, sorrimos, trocámos algumas opiniões sobre o futuro e partimos.

Mas não me esqueci da intrigante determinação. Tempos depois, encontro o pai da familia e interrogo-o: "fui a sua casa com uma assistente social mas o senhor não estava. Mas por que é que só recebe os assistentes sociais naquele dia?"

Respondeu-me prontamente: "sabe: passo a vida a receber assistentes sociais que vêm das mais variadas instituições; fazem-me inquéritos e mais inquéritos, querem saber tudo, devassam a minha vida e depois nunca acontece nada. E já lá vão uns anos nisto. Também tenho direito à minha privacidade. Sou pobre, eu sei, mas mereço algum respeito".

Teve, em mim, um efeito simultâneo: uma lição de vida e um redobrar de energias.

5 comentários

  • Belo, muito belo mesmo. Abraço e obrigado por comentar.
  • Sem imagem de perfil

    hermes

    02.07.08


    Julgo ter percebido ser da Comissão Executiva duma Escola. Admiro o seu trabalho: é dos mais complexos, difíceis e ignorados do mundo. Mas dos mais importantes. Um abraço e força. E viva a democracia na Escola!
  • Já fui. Fui presidente do Conselho Executivo de um escola durante três mandatos consecutivos. Estava muito entusiasmado e as coisas, e desculpe-me a imodéstia, até corriam muito bem. Mas quis dar um pequeno exemplo: auto-limitei os mandatos, disse-o logo de início, aspecto não contemplado na lei. Um imperativo democrático. Tem razão Hermes: feito com responsabilidade, com sentido de autonomia, com coragem, com compaixão, com dedicação aos detalhes é, mais do que difícil: é violento. Portugal é um país muito centralizado e a sociedade portuguesa é aquilo que se sabe.

    Abraço e obrigado por comentares. E viva democracia na escola :)
  • Sem imagem de perfil

    Francisco

    25.10.09

    Soberbo Paulo.
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