Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Do Capitólio Para o Mundo

10.01.21

Captura de ecrã 2021-01-07, às 20.25.34.png

A Democracia é uma construção diária que tem a confiança como valor precioso e a liberdade, no respeito pela liberdade do outro, como valor primeiro. É um regime político que se constrói no primado da lei. A governação exerce-se com um poder legitimado pelo sufrágio universal (directo ou por representação, mas mais sólido quando se opta pelo primeiro). Todos os cidadãos elegíveis participam em igualdade de circunstâncias. A estabilidade das democracias modernas tem uma relação directa com a prevalência de classes médias maioritárias e fortes; pelo contrário, o crescimento das desigualdades, das classes pobres e dos fenómenos de corrupção associados ao poder (mais próprios das tiranias e das oligarquias) originam desconfiança e crises.

Neste sentido, só com o tempo se perceberá o grau da destruição que Trump provocou. Apesar de serem antigos na Democracia os movimentos demagógicos e populistas que usaram estrategicamente o ódio e a mentira, nunca se tinham passado tantas linhas vermelhas. Ao ler-se Anne Applebaum (2020), em "O crepúsculo da Democracia", percebe-se que há uma rede global de "trumpinhos" - que a autora conheceu ao mais alto nível - que nos remete para os horrores totalitários do século passado. Na Europa, países como a Hungria, a Polónia, a Alemanha, a Áustria, a França, a Itália, a Inglaterra e a Espanha já aglutinam movimentos violentos, racistas e xenófobos e fazem incursões experimentais noutras democracias. Têm sinais mediáticos comuns no modelo "América First" ou "Make America great again". Aliás, já em 1949 os franceses do regime de Vichy, que colaborou com Hitler, usaram o slogan "A França Primeiro" e aqui ao lado, e sublinho-o porque é um registo assustador, o partido espanhol Vox propõe "tornar a Espanha grande de novo".

Mas o principal problema da disputa com Trump foi a mentira como sistema intenso (o documentário "Roger Stone," na Netflix, é imperdível) que dificultou muito o essencial da Democracia: o contraditório. E por mais mentiras que se desmascarassem, Trump desconhecia o substantivo vergonha e desdizia-se. Acima de tudo, fez o inimaginável para obter o poder e vingou-se: nos seus que discordaram (Trump registou um número inédito de demissões), nos que concorreram contra ele (Clinton) e até nos antecessores (Obama). E foi mais longe, para além da irresponsabilidade perante a covid-19: Trump instigou a invasão do Capitólio, mas não deu o corpo às balas. Manipulou as emoções - usando os canais da Casa Branca - de grupos de pobres e de excluídos (que é o que mais custa observar) dizendo-lhes que "vocês são maravilhosos, únicos e diferentes; tenho muito orgulho; íamos fazer a América grande de novo", mas ficou a ver pela TV e a twittar porque desconhece o substantivo coragem. Como a invasão, que incluiu movimentos violentos, acabou com mortes e pessoas gaseadas, criticou os invasores e demarcou-se enquanto preparava um indulto para si e para os seus familiares; e ainda declarou: “We love you, you are very special"

O crescimento do autoritarismo no Ocidente tem uma relação directa com a crise de 2008, com o empobrecimento que se seguiu e com a corrupção nas instâncias financeiras. Em Anne Applebaum também se percebe o óbvio: grande parte destes demagogos, populistas e autoritários fazia parte do que nos levou a 2008. Contudo, a situação vigente tem que ser um lição para a responsabilidade das forças democráticas. Não é suficiente acreditar que "a mentira tem perna curta" e que a lei acabará por se impor. É preciso fazer mais. É preciso dar o exemplo. Repare-se no caso mais recente entre nós: o processo, que já tem uns meses, do Procurador Europeu que nos representará num tribunal que vai fiscalizar a aplicação dos milhares de milhões do plano de recuperação. Há dias, Catarina Martins, líder do BE, disse com propriedade, e a propósito deste caso, que "informações falsas em currículos são situações comuns de mais em Portugal". E o que fez a seguir sobre esse descrédito dos concursos públicos que mina a Democracia e faz crescer o autoritarismo? Aliás, a própria ministra da justiça teve um registo análogo e também com conhecimento dos factos. Como disse no parlamento que "reconhece que o documento tem erros e que isso "é mau", que foi "uma falha" sua não ter revisto a carta antes desta ser enviada para a UE, que por tudo isto chegou a pensar na demissão, mas que decidiu ficar", espera-se que exerça a função e que algo de substantivo aconteça.

É sempre bom recordar a célebre frase, e a época em que foi proferida, de Winston Churchill: "a democracia é o pior dos regimes, à excepção de todos os outros". E na fase vigente do regime político dos EUA, Biden sublinhou um passo essencial: "as palavras contam". O seu antecessor não só desprezou as palavras, como terminou a dar a ideia que quis mostrar ao mundo, a partir do Capitólio como sede da Democracia norte-americana, um sinal de fragilização deste regime político a ser replicado numa fase em que os movimentos populistas cavalgam a crise pandémica (como se viu com a Hungria e a Polónia a "impedirem" a coesão europeia). Se teve essa intenção, esperemos que tenha falhado.

2 comentários

Comentar post