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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Contratar Mais Professores?!

21.06.20

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Acentua-se a falta de professores para diversas disciplinas o que dificultará o anunciado reforço de contratação em tempo de pandemia. O problema tornou-se estrutural. Mesmo que se iniciasse uma qualquer urgência formativa, os efeitos chegariam depois de 2030. Para além disso, e é saudável que se pense também para lá da crise, mais de metade dos professores reformar-se-á nesta década e muitos cursos de formação inicial estão há anos a fio "sem alunos". Em cada cem (ou em cada mil) alunos dos cursos "regulares" do ensino secundário, contam-se pelos dedos de uma mão os que escolhem ensinar como profissão e é surpreendente que não se motive os jovens para o ensino.

Para além da falta de atractividade da profissão, dá ideia que se esgotou o modelo de formação inicial. Um caminho mais flexível e apelativo seria a criação de licenciaturas exclusivamente para as componentes científicas. Ajudaria numa mudança futura de profissão. Só nos mestrados se estudaria a pedagogia para leccionar. Apenas depois de um estágio (internato ou profissionalização) plurianual, realizado em exercício, se acederia ao quadro e a uma carreira. Mas nada disso se discute e a especificidade científica perdeu peso na profissionalidade. Aliás, até a formação para professores no activo se centra na preparação da sua irrelevância. Parece um paradoxo, mas é só parecença.

Repare-se na ligação de três factos e tendências:

1. as gigantes tecnológicas de serviços - google, amazon, uber, booking ou airbnb - não produzem conteúdos para os motores de pesquisa nem objectos, carros, hotéis ou imóveis de aluguer, mas cobram pela sua utilização na generalidade do planeta com trabalhadores independentes não regulamentados que estão na nuvem;

2. os professores no activo alimentam gratuitamente os servidores da google (por exemplo, nas plataformas drive, doc´s, classroom, gmail ou youtube) com conteúdos de ensino planificados ao detalhe e com os receptivos testes de avaliação de alunos prontos a utilizar pela IA; e a exemplo doutros domínios, a google (que ganhou mais esta disputa à microsoft) absorverá com facilidade as editoras com escolas virtuais;

3. há uma revolução do trabalho que pede como competência a ligação à internet; como escreve Klaus Schwab (2017:46), na "A Quarta Revolução Industrial", "parte da força de trabalho desenvolve diferentes tarefas para assegurar o seu rendimento - pode-se ser um motorista da Uber, um shopper do Instacart, um anfitrião do Airbnb e um Taskrabbit".  

Ou seja, criam-se condições para acrescentar os tarefeiros das salas de aula (que podem acompanhar qualquer disciplina) a pensar na civilidade presencial da escola automatizada massificada. E se os professores continuam numa zona de incerteza porque ainda não são incluídos nas profissões mais e menos propensas à automatização, dá ideia que a passividade dos sucessivos governos na formação inicial é "articulada" com as gigantes tecnológicas que prestariam, através dos cortes na educação, um "relevante" serviço aos orçamentos dos países. Dir-se-á que são as regras do jogo. Mas como dizem os investigadores da quarta indústria, o futuro pode ser muito bom ou caótico. Aliás, já se iniciou uma corrida imparável ao trabalho virtual não regulamentado que se pode transformar em forte instabilidade social e política e difícil de reverter num ensino "sem" formação de professores.

Nota: Klaus Schwab (2017), na "A Quarta Revolução Industrial", apresenta uma lista das profissões mais e menos propensas à automatização: mais propensas: operadores de marketing, contabilistas, avaliadores de seguros, árbitros e juízes desportivos, secretários e assistentes administrativos, recepcionistas, consultores imobiliários, agricultores, estafetas; menos propensas: assistentes sociais, coreógrafos, médicos e cirurgiões, psicólogos, analistas de sistemas, antropólogos e arqueólogos, engenheiros e arquitectos navais, gerentes de vendas. 

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