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Correntes

em busca do pensamento livre

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A Reprovação como Distracção

17.11.19

 

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Uma população mais escolarizada e menos pobre vai reduzindo, naturalmente, o insucesso e abandono escolares. É também o caso português. Contudo, e infelizmente, ainda registamos quase 35% dos alunos a necessitarem de 10 ou 11 anos para concluírem os 9 primeiros anos de escolaridade (nada de incomum na regulação dos sistemas massificados; e sublinhe-se o paralelismo com a Bélgica, o Luxemburgo ou a Espanha), apesar de se reconhecer à escola portuguesa, a primeira da Europa no "faz-tudo", décadas de obra feita. Dizem os estudos - e as realidades - que a "ausência" de sociedade é um dever por cumprir. O abandono escolar é desse domínio. Basta interrogar as Comissões de Protecção de Crianças e Jovens (cerca de uma CPCJ por concelho). É, em regra, o flagelo da pobreza - ou a falta de ambição escolar das famílias - que explica o abandono escolar ou o não cumprimento da escolaridade básica "regular" de 9 anos nem em 11.

Quando o pico da discussão do programa do Governo entre Costa e Rio são as reprovações no ensino básico, é porque há uma concertação política institucional; e é recorrente. Ou seja, elege-se as reprovações como factor de manipulação e distracção da opinião publica (e confiando que a mediatização culpe escolas e professores), para que não se discuta investimentos essenciais: alunos por turma, falta de professores, currículo completo, carreiras de professores e de outros profissionais, organização, dimensão e gestão das escolas (por exemplo, o inferno da burocracia resulta da gritante incapacidade política para gerar em 20 anos uma solução informática decente para a gestão das escolas) e parque tecnológico escolar, e de outra ordem em muitos casos, no limiar do colapso. Recorro às 10 estratégias de manipulação enunciadas por Noam Chomsky. Publico a primeira (encontra as outras no blogue).

"1. A estratégia da manipulação. O elemento primordial do controlo social é a estratégia da distracção que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e económicas, mediante a técnica do dilúvio ou a inundação de contínuas distracções e de informações insignificantes. A estratégia da distracção é igualmente indispensável para impedir que o público manifeste interesse pelos conhecimentos essenciais na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. "Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar".

Nota: é um desperdício de tempo incluir a discussão financeira na questão das reprovações; há estudos nos dois sentidos: mais "despesa", mesmo que residual, com e sem reprovações. E basta pensar um bocado para se perceber que as reprovações não exigem, em regra, mais turmas num dado ano de escolaridade no ano seguinte.