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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

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A Pandemia e a Delinquência nos Jovens

27.05.20

Pelo que percebi, Portugal não adoptou uma estratégia semelhante a italianos e espanhóis com receio de provocar uma onda de delinquência nos jovens. Parece-me uma preocupação infundada e até se estranha a utilização do argumento. Era importante perceber se isso aconteceu nas sociedades italiana e espanhola que têm problemas sociais semelhantes, ou até mais graves, a Portugal. Para além de tudo, as pessoas estiveram confinadas e os jovens não saíram de casa. Repita-se (no caso que vai ler, de um post com uns dias, italiano e britânico; os espanhóis seguiram uma linha semelhante aos italianos): 

apreciei os casos escolares italiano e britânico. Os primeiros inscreveram uma lição de confiança à sociedade: decretaram passagens administrativas, sem que isso impedisse que alunos e professores se ligassem no ensino por internet sem a "cenoura" da avaliação. Já os britânicos sublinharam as classificações do final do 2º período, depositando em cada um dos professores a possibilidade de alteração no final do ano lectivo. Em Portugal, e para lá da depreciação que passou a elogio enternecedor, basta ler o elenco de orientações imprecisas emanadas pelo ministério da educação para se concluir que a iniludível desconfiança nos professores fez escola. 

Repitamos de novo:

Aconselho o filme "De cabeça erguida" que tem como figura central uma juíza (Catherine Deneuve) de um tribunal de menores francês. Isso diz muito do argumento e tem uma relação poderosa com os actos terroristas a que temos assistido. O muito bom filme de Emmanuelle Bercot devia ser de visionamento obrigatório para as pessoas que opinam sobre o abandono escolar e a delinquência juvenil num tom crítico para os profissionais ou com ligeireza. A personagem interpretada por Catherine Deneuve dá uma lição de pedagogia, sensatez, firmeza e sabedoria. Imperdível mesmo. O filme retrata as tutorias no sistema francês. Considerando que um jovem pré-delinquente (ou sem pré) passará umas 5 a 7 horas diárias na escola, o tutor supervisiona, logicamente, as restantes 17 ou 19. O tutor é, portanto, um profissional ligado aos sistemas social e judicial. Tem contacto, por exemplo, com as situações de indisciplina, ou de género semelhante, que ocorrem fora da escola. Em Portugal é o inverso. O tutor é um professor inspirado em Sísifo. Todos os dias parte do zero. Faz numas 4, se tanto, horas semanais, o que "será desconstruído" nas restantes 158. É também aqui que se constata a ubiquidade, e a inutilidade, do conceito de escola a tempo inteiro (sem desprezar, obviamente, a colaboração da escola na "guarda" de crianças em situações bem identificadas) por omissão de uma sociedade demasiado ausente.