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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

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A Inteligência Artificial e o estranho caso português

10.05.23, Paulo Prudêncio

 

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Com os desenvolvimentos da Inteligência Artificial (e do ChatGPT), com os recentes alarmes provenientes do interior da Google e com a promulgação do inadmissível decreto sobre os concursos de professores, recupero este texto que publiquei em 18 de Maio de 2021.

Ora leia:

Título: Até a Inteligência Artificial se espanta com o sistema escolar português.

Texto:

Numa sociedade controlada pelo partido totalitário, Winston Smith não acompanhava devidamente, porque tossia, a aula matinal obrigatória de exercício físico emanada do telecrã. Até que: “ - Smith! - berrou a voz áspera do telecrã. - 6079 W. Smith! Sim, você! Curve-se mais, se faz favor! Consegue fazer melhor do que isso. Não se está a esforçar. Mais, por favor! Assim está melhor, camarada! Agora, todos à vontade e olhem para mim.” O que George Orwell imaginou em 1949 não aconteceu em 1984, mas concretizar-se-á no futuro próximo com um importante contributo português (e de outras nações com turmas numerosas).

Ou seja: a inteligência artificial (IA) da Google reivindicará melhorais contratuais por nossa causa. Os algoritmos não estavam preparados para tanta aceleração. A IA também se espanta com os professores e a Google é grata com o que existe.

Para lá das ironias e ficções, constata-se a falta estrutural de professores e a inércia dos poderes. Já nem se trata do tempo de serviço, da carreira, da gestão ou da avaliação kafkiana. Isso seria elementar. O que surpreende, ou talvez não, é a supressão de qualquer iniciativa para a frequência da formação inicial.

E enquanto isso, e daí o espanto da IA com a auto-flagelação, os professores enviam gratuitamente para os servidores da Google (nas plataformas drive, doc´s, classroom, gmail ou youtube) conteúdos e testes planificados ao detalhe e prontos a utilizar. E, note-se, a Google também absorverá as editoras com escolas virtuais que contratam professores construtores de manuais escolares com um elenco considerável de ligações digitais preparadíssimas para registar a pegada digital dos professores e calendarizar os procedimentos. Não tarda e a IA fará a avaliação dos professores. Preencherá as quotas e as vagas com "Youtubers" e "Classroom Influencers". Até que lá virá o dia em que "berrará a voz áspera do telecrã".

Os governos contam com a IA para reduzir o número de professores. Por cá, projecta-se exames online e espera-se que o mundo digital substitua professores por "guardadores" no "modelo-Uber". O outro objectivo é o regresso da contratação local de professores. A memória mais recente desse processo desastroso data do tempo da troika. Foi eliminado de imediato no primeiro Governo de António Costa. O poder central quer livrar-se dos concursos de professores, mas agrava o temor porque já se adivinha o reforço do clientelismo que facilita a precarização. 

É uma pena. É que os meios serão ainda mais simplificados e velozes no universo 5G e dispensarão os procedimentos de gestão das autarquias. Para além disso, será despesista ter dezenas de centros de concursos quando um seria moderno e adequado à dimensão do país. E o argumento da selecção do perfil dos professores tem tanto de atávico como de revelador. Por regra, o ensino público não deve excluir alunos, professores e restantes profissionais. Deve elevar as organizações. É a sua natureza. A inclusão é uma pedagogia que se destina a todos e, a prazo, permite que as nações não falhem. É obrigatório organizar as instituições com professores e outros profissionais contratados por concursos públicos confiáveis.

Voltando ao início, as escolas de massas certificarão (também para as estatísticas internacionais) os obedientes "Winston Smith" e as de propinas elevadas formarão os dirigentes partidários de cúpula e afins. Pensou bem Niklas Luhmann (2001:14), em "A improbabilidade da comunicação", ao considerar “uma viragem radical do pensamento político dominante que abandonou o modelo em que a posição central estava sempre reservada ao indivíduo". Na sua opinião, o humano foi remetido para o exterior tornando-se uma causa para o aparecimento de problemas constantes e complexidades crescentes.