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Correntes

em busca do pensamento livre

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A Escola no Limiar da Tempestade

...Já só os alunos dão ânimo aos professores...

27.10.19

 

Acentua-se a falta de professores e os que existem estão, em regra, descrentes, agastados ou radicalizados. Já "só os alunos dão ânimo aos professores", apesar do ruído relacional quando o smartphone é uma dependência central na vida dos alunos. Para além disso, a sociedade contamina a disciplina escolar porque a mediatização diária dos conflitos educativos é geralmente conduzida por analistas, comentadores e dirigentes políticos que se entretêm a reforçar a sabida aversão aos professores ou a necessidade de mais uma "reforma meritocrática"; e são muitos anos nesta ventania.

Por outro lado, a escola perdeu a gestão de proximidade e a massa crítica. O aumento da escala para mega-agrupamentos eliminou a reflexão essencial à mobilização para qualquer ideia de autonomia com pressupostos modernos e desburocratizados de flexibilidade e inclusão, como se comprovou na anterior tentativa no Governo de Guterres que Crato interrompeu intempestivamente. A origem das nuvens carregadas não é a didáctica do ensino, é a organização doentia que está a montante da sala de aula. Portanto, quando o inverno se impuser, e o cansaço se acumular, o agastamento será a primeira pele. A "fuga" de professores será ainda mais grave porque escasseiam substitutos. É bom que se considere, em sede da anunciada revisão da carreira (onde, legitimamente, se esperam temperaturas muito abaixo de zero), que somos um país pobre (em grande parte por causa da "surpreendente dimensão" da corrupção - palavras da ex-PGR -), com baixos salários e empregos pouco atractivos. Como os jovens têm poucas alternativas internas, ainda existem alguns candidatos ao ensino. Mas o estatuto degradou-se e os professores estão há anos numa revolta contida naturalmente contagiante. Contratar precários (ia a escrever recrutar, como tanto gostam os sábios em colaboradores e recursos humanos que nos últimos quinze anos iam "endireitar" de vez os professores) terá as consequências conhecidas. Aliás, há países europeus, como a chuvosa Inglaterra, que são casos de estudo. Ou seja, não é difícil intuir que a escola está no limiar de uma qualquer tempestade.

Nota: afirma-se o propósito da frequência escolar ser um critério suficiente para a passagem de ano. Percebe-se a ideia, implementada noutras latitudes com outros contextos, mas teme-se que na nossa sociedade tenha efeitos tão desastrosos como a liberalização (que durou apenas dois anos lectivos) do número de negativas para as reprovações.

Imagem: Paresh Nrshinga - Inspired by Mark Rothko

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