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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

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A escola não aprendeu com a pandemia

05.11.21

Captura de ecrã 2021-11-04, às 23.52.41.png

Pelo Público em 5 Novembro de 2021. Como acordado, o texto está publicado no blogue.

Título:

A escola não aprendeu com a pandemia

Lide (lead): 

As notas subiram, mas as desigualdades aumentaram e a falta de professores agudizou-se.

Texto

O distanciamento histórico ajudará a perceber o impacto da Covid-19 no modelo de escola. Por agora, regista-se a aceleração das aprendizagens digitais de professores e alunos e um conjunto imutável de variáveis estruturais que nos permite concluir que a escola não aprendeu com a pandemia. E não se trata de exigir o inatingível. Requer-se a inscrição de objectivos possíveis, mas numa lógica diferenciada num momento de injecção de milhões de euros.

Para isso, questione-se o que o neoliberalismo impôs nas últimas décadas como critério único da avaliação de organizações escolares e de professores (AOEP): os resultados dos alunos. Analise-se o fenómeno pensando na nota de conclusão do ensino secundário: 15 valores, e até 14, era muito bom há menos de três décadas; actualmente, finalizar com 16 é apenas razoável. Esta inflação percorre todo o edifício escolar. Não significa alunos mais preparados do que os antecedentes. Deriva dessa impensada AOEP que exigiu, para ser positiva, a subida paulatina dos resultados, com uma censura excessivamente burocrática à atribuição da nota negativa ou a uma qualquer descida. 

É evidente que há vantagens na inflação das notas, nomeadamente no aumento da frequência escolar. Todavia, o escolar como parque de estacionamento para futuros candidatos ao salário mínimo ou ao desemprego, ou, como diz o Público, com o "prémio salarial da escolaridade a cair para os mais jovens", tem de contrariar a ilusão das notas inflacionadas e encontrar respostas individualizadas que a escola isoladamente não consegue. A pandemia foi um exemplo. As notas subiram, mas as desigualdades aumentaram e a falta de professores agudizou-se. Ou seja, a inércia instala-se quando prevalece o convencimento do caminho certo apenas porque as notas dos alunos sobem. Seria como não valorizar a média de cinco horas em filas de espera para a renovação do cartão de cidadão, com o argumento de que, no final, ninguém fica sem o documento.

Por isso, é necessário recuperar a AOEP como uma solução cooperativa moderna - em Portugal, foi sempre o oposto - promotora de valores preciosos. Fazê-lo com inclusão e consistência, exige tempo para lá das legislaturas e ideias claras. Deve incidir em variáveis que contrariem políticas extractivas, que equilibrem a relação de poder entre a sociedade e o Estado em territórios cada vez mais digitais (Acemoglu e Robinson (2020:520) em "O equilíbrio do poder" ) e que respeitem uma asserção nuclear: a escola só é inclusiva se o for para todos - alunos, professores e restantes profissionais da educação -.

É, portanto, fundamental identificar os domínios em que a escola não aprendeu:

1. Redução do número de alunos por turma;

2. Horários desfasados que impeçam a sobrelotação dos acessos e dos espaços interiores;

3. Redução do tempo em frente a ecrãs. Enquanto as escolas das elites o concretizam, as de massas aplicam, com imprudência, ambientes exclusivamente digitais em várias disciplinas. Se os programadores das gigantes tecnológicas de Silicon Valley contratam cuidadores humanos para que as crianças tenham uma vida sem ecrã, as crianças das escolas de massas passam mais de duas horas por dia no ecrã fora da escola (Noreena Hertz (2021:128) em "O século da solidão"), e reduzem as competências de comunicação e relações empáticas. E, teme-se, com efeitos a prazo na saúde mental;

4. Redução da tendência galopante do controle e vigilância digitais (Shoshana Zuboff (2020:138) em "A era do capitalismo de vigilância"). Não tarda, os algoritmos da Inteligência Artificial controlarão a assiduidade - e a avaliação - e os restantes procedimentos de todos, numa atmosfera inapelável que se teme assustadora no ambiente 5G e que se agravará se for dominado por regimes políticos autoritários;

5. Eliminação das seguintes componentes exclusivas: aulas de igual duração, e mediadas por curtos intervalos, para alunos dos 5º ao 12º anos e retrocessos pedagógicos e civilizacionais como a publicitação de um calendário de testes da avaliação contínua logo no 2º ciclo e de quadros de mérito académico a partir do 1º ciclo;

6. Desburocratização inequívoca. A falta estrutural de professores, resultante da degradação acentuada da carreira, também tem origem na sobrecarga com inutilidades burocráticas nos domínios analógico e digital.

Posto isto, discuta-se o modelo de escola no debate que a pandemia acelerou. A história diz-nos que as democracias consolidam-se sem turmas numerosas, sem educação a tempo inteiro na escola, com avaliação contínua exigente e com professores prestigiados. Também nos diz que desde as primeiras décadas do século XX que se procura eliminar o modelo "industrial" de "uma escola, uma turma, uma sala de aula e uma disciplina". Essas tentativas nunca resultaram, para lá do 1º ciclo, porque o cerne da escola está na relação contraditória entre o professor e o aluno, mediada pelos conteúdos do ensino e das aprendizagens. Quando se perdem essas centralidades, surgem ambientes indisciplinados, e de frágeis aquisições, que contribuem para a ascensão de regimes autoritários (como escreveu Hannah Arendt, "a filósofa que desconstruiu o nazismo").

Por isso, discorda-se de duas correntes, crédulas do digital, aceleradas na pandemia: educar as crianças em casa ou em escolas com ambientes exclusivamente digitais e projectos interdisciplinares substitutos de turmas e disciplinas. E discorda-se porque é crucial conservar a dimensão pública da educação. A pedagogia e a escola implicam espaços comuns – o que não se faz em casa - que inscrevam um clima de conectivismo (tese de George Siemens) em espaços interdisciplinares não substitutos das turmas nem das disciplinas do currículo completo e em que a relação humana - corpo a corpo e olhos nos olhos - seja insubstituível. 

Por outro lado, a pandemia acentuou a emergência do ensino das Humanidades (das Letras, das Ciências Sociais e das Artes). Nestes tempos de euforia tecnológica, é no regresso às Humanidades que se cultiva conceitos essenciais - diferente, distinto e proximidade -, que se ganha a coragem que medeia a ignorância que oblitera o outro e que combate cruzadas culturais e ideológicas.

No essencial, a escola não pode prescindir da análise crítica e da constante reflexão que impedirá que as mudanças sociais em curso empurrem o humano, e a sua frágil liberdade, para o círculo que Dante consideraria das complexidades crescentes e dos problemas irresolúveis.

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