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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

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A escola entre a pandemia e a guerra

15.03.22

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A escola entre a pandemia e a guerra

Pelo Público em 15 Março de 2022. Como acordado, o texto está publicado no blogue.

Título: A escola entre a pandemia e a guerra

Texto:

“Há um ambiente de cortar à faca nas escolas”, declarou Manuel Pereira, ao Público, no curto intervalo entre a pandemia e a guerra. O presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE) recebeu a concordância dos que denunciam, há mais de uma década, a atmosfera que provoca a falta estrutural de professores, e o aumento das desigualdades educativas, também por imposição de um tríptico calamitoso: avaliação do desempenho, gestão escolar e carreira dos professores.

Mas essa anuência revestiu-se de protesto dirigido ao longo silêncio das organizações de dirigentes escolares e das profissionalizadas confederações de encarregados de educação. Criadas na mesma época do tríptico, tornaram-se os únicos interlocutores "credíveis" - em simultâneo com a continuada perda de influência das organizações científicas de professores e dos sindicatos - enquanto as políticas eram consolidadas por chefias intermédias "incapazes", em regra, do contraditório e da defesa da mais elementar justiça democrática. Aliás, e como alguém disse, "pequenas Bielorrússias" na guerra que nos consome. Note-se que, e como se sabe, há lideranças que se exercem em qualquer circunstância. Mas um modelo não pode estar tão dependente de quem gere e muito menos abrir portas flagrantemente à autocracia.

Mas não foi apenas a declaração deste dirigente escolar que se destacou no curto hiato entre a pandemia e a guerra. O acordar da mediatização (e já se sabe que o que não é mediatizado não "existe") também salientou, no Expresso, estudos recentes da OCDE. A conselheira Karine Tremblay explicou a posição cimeira de Portugal em tudo o que é negativo em relação aos professores: escolha de outra profissão se voltassem atrás, stress profissional, exaustão, redução de inscritos na formação inicial e falta de reconhecimento e confiança.

Para agravar o fenómeno, esta calamidade nunca existiu nos documentos do Ministério da Educação nem no universo político. Não há uma linha que identifique mais de uma década de brutais injustiças, muitas irremediáveis, que atravessaram, em mágoa, esgotamento e revolta contida, os professores em exercício, os que se aposentaram e os que testam um regresso. Aliás, a fuga a ser professor não se circunscreve à idade ou remuneração. É óbvio que esses factores são fundamentais, mas a deserção dá primazia à insanidade, à desconfiança, à parcialidade e à arbitrariedade.

O aumento das desigualdades educativas é uma consequência da família da falta estrutural de professores. Cresce em paralelo e agrava o fosso no investimento em educação entre as classes ricas e as restantes. Conheçam-se as quantias investidas e as condições das escolas, e dos seus professores, frequentadas pelos educandos de quem entra com vistos gold no país (e das elites, já agora) e as dos 60 a 70% dos contribuintes com rendimentos mais baixos. Aliás, o intervalo entre a pandemia e a guerra também mediatizou o fenómeno. O Expresso salientou um estudo, "Práticas Culturais dos Portugueses", que é lapidar: para quem tem mais de 15 anos de idade, nove em cada dez tem "baixo consumo cultural" por motivos sócio-económicos com números - leitura de livros, por exemplo - que chegam a ser chocantes no panorama europeu.

Para além disso, sabe-se o óbvio: a falta estrutural de professores não acontece apenas em Portugal. O Ocidente vive-a por acção das "Novas Políticas de Gestão Pública" que integraram o caderno do radicalismo ideológico iniciado nos EUA e no RU na segunda metade do século XX e que provocou mercados desregulados, polarização política e crise das democracias. Mas por cá, o modo arrogante como se impôs o tríptico resultou também da incomodidade muito preconceituosa com a liberdade de aprender e ensinar, e com a democracia nas escolas, que se designou por "descomunificar as escolas". E se o dirigente escolar usou a metáfora bélica, diremos que eliminar o comunismo das escolas foi um objectivo tão ridículo e desastroso para os conhecedores como é a "desnazificação da Ucrânia" para a generalidade dos observadores da guerra na Europa.

Por fim, é difícil ter alma para escrever sobre um assunto que não seja a guerra e a admirável resistência - que sempre nos recorda o sentimento contrário em relação ao abjecto colaboracionismo - dos ucranianos. Mas pensar em políticas que provocam injustiças pode ser uma forma de os homenagear.  E se o que se fez entre nós no século XX resultou na geração mais habilitada de sempre porque a escola pública foi um espaço democrático ímpar na nossa História, os historiadores não entenderão como decretámos a extinção da escola democrática pouco tempo depois da sua generalização para instituir um ambiente exclusivo "de cortar à faca nas escolas”.

Neste domínio, inscrevamos a saga dos ucranianos que constituem a tal ameaça ideológica, e não militar, para Putin. E nada melhor do que um poeta ucraniano, o escravo Taras Shevchenko - foi poeta e pintor em São Petersburgo onde pagou a sua liberdade -, com um poema sobre a escravidão escrito (1859) em ucraniano. É reconhecido como o poeta da “identidade nacional” da Ucrânia.

"Calamidade outra Vez",

"Meu Deus, calamidade outra vez!

Estava tudo tão pacífico, tão sereno;

Tínhamos acabado de começar a quebrar as correntes

Que prendem o nosso povo à escravidão

Quando pára! Mais uma vez o sangue das pessoas

Está a jorrar…"

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