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Correntes

em busca do pensamento livre

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A Escola e a Dança dos Homens

03.11.19

 

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"Se houvesse um povo de deuses, ele governar-se-ia democraticamente. Um governo tão perfeito não convém a homens" (1). Esta conclusão explica o ministério da educação das últimas duas décadas, em que houve homens acima dos deuses e da democracia. Se a entropia social evidenciada em 2008 expôs a "lei de bronze da oligarquia" (ideia de Robert Michels) que condicionou os governos, na escola portuguesa a dependência ficou a cargo de uma dança de homens que descolou o discurso oficial de qualquer realidade. Quando se denuncia a tormenta burocrática de um centralismo distante das salas de aula e com forte tendência para sofisticar à exaustão a administração de inutilidades que excluem o conhecimento das disciplinas, não se pensa em funcionários. A sofisticação é obra de grupos de missão bem avençados e sem tabela de remuneração, escrutínio ou avaliação. Está para além de ser ministro ou secretário de estado, embora inclua a função de correia de transmissão tridimensional: rever programas curriculares e meta-procedimentos, organizar formação e produzir e comercializar literatura de apoio. É um bailado que inferniza qualquer ideia de autonomia, currículo, interdisciplinaridade, flexibilidade ou inclusão e que sustenta quatro pilares do neoliberalismo imposto pelos governos de Barroso e de Sócrates: carreira dos professores, estatuto do aluno, avaliação do desempenho (inspiraram-se, e só para avivar memórias, no modelo do Chile) e gestão das escolas. 

O Grupo de Missão, que estimula o conceito de Grupo Fechado, resulta desse triunfo que fez escola no sistema escolar. Corre patamares bloqueando canais participativos e mecanismos mobilizadores. O Grupo de Missão impacienta-se com o contraditório e pugna pela pirâmide da organização militar omitindo que um professor do 1º escalão pode leccionar a mesma turma que um do 10º e que a tarefa cimeira da escola é a sala de aula. Outro sinal negativo para a escola pública, é a publicidade dos Grupos de Missão. Visitam escolas e recomendam o modo organizacional, como exemplo de cooperação, sem sequer vislumbrarem a contradição. Invariavelmente, argumentam: mas os resultados escolares na escola pública não melhoraram nos últimos 45 anos? Claro que melhoraram. O essencial é sempre a evolução da sociedade, e basta comparar o Portugal de 60 e 70 do século passado com o actual, como demonstra a história mundial dos sistemas escolares. Quanto mais pobreza, mais insucesso e abandono escolares. Se temos 2 milhões de pobres, é natural que 50 mil crianças reprovem logo nos primeiros ciclos como diz hoje o Público. É uma realidade que está a montante da escola, por muito que esta atenue desigualdades. 

Daniel Innerarity alertaria os Grupos de Missão: os vossos "conceitos estão completamente ultrapassados" numa sociedade em rede, porque estão estritamente ligados a uma linha centralista e hierarquizada. Só persistem como um fatalismo histórico porque, e como alguém também disse, "as nossas elites são historicamente viciadas em viver à custa do trabalho dos outros; foi assim durante três séculos com a escravatura, também com o ouro e as especiarias e até com o colonialismo; na actualidade, é o que se vai conhecendo."

Escolhi uma imagem de "danças de deuses" na esperança de que um dia se cumpra o desejo de Rousseau e a lembrar-me como é cada vez mais difícil regressar a George Steiner (2): "Quem não estiver doente de esperança não tem a mais pequena hipótese de ser professor".

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(1) Jean-Jacques Rousseau, Contrat Social ou Príncipes ãu Droit Politique, Paris, Garnier, s/à, p 281.

(2), George Steiner (2005:148) "A Lição dos Mestres", Gradiva, Lisboa.

Encontrei a imagem do post na internet sem referência ao autor.