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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

sua excelência (1) (reedição)

08.03.12
      Estava, como sempre, inquieto. Sua Excelência tinha, digamos assim, uma doença: via ameaças, antes mesmo de elas nascerem. E assustava-as (as ameaças morrem de medo). Conta-se até que, de tanto ameaçar as ameaças, as ditas acabavam mesmo por crescer: ficavam-lhe agradecidas. Para além disso, exaltava-se com frequência e enfurecia os que o rodeavam. Persuadia-os. A ameaça vivia dentro de Sua Excelência e isso explicava tudo.   (Reedição. 1ª edição (...)

sua excelência, o legislador em ambiência de abundância

22.01.12
(Se o leitor teve dificuldades com a leitura do título, peço desculpa, mas as obrigações de Sua Excelência não me deixam seguir outro caminho.) Sua Excelência estava submerso em encargos reguladores destinados à protecção da saúde dos seus indefesos concidadãos, e era incomodado com os estudos comparados dum seu assessor infiltrado - servia, secretamente, a grande loja de inquietação da República -: "Em virtude das cíclicas cheias na zona envolvente do rio (...)

sua excelência e o movimento impetuoso da simplificação

21.01.12
  Sua Excelência estava à frente de mais uma reunião: discutia-se o prazo para a caducidade das certidões de nascimento e de óbito. A polémica centrava-se em dois pólos: o da maioria, que favorecia a ideia de alargar o prazo de validade, e o da minoria, defendida apenas por um subordinado - por sinal, chato e teimoso - que não concebia a intenção de realizar-se pela segunda vez o acto de nascer ou de morrer. Sua Excelência ouviu, ponderou e sentenciou: “"para já, e de modo (...)

sua excelência, o moderador

20.01.12
Sua Excelência estava impendida para moderar um debate à volta dos amontoados de escolas: coisa descomunal, já se vê, mas em plena propagação num país sem falência anunciada. O plenipotenciário do poder central disse: "todos os meus colegas, pelo menos os que são sérios, desvelados e versados na realidade, estão de acordo com a espécie de montão." O plenipotenciário do poder local disse: "todos os meus colegas, pelo menos os que são sérios, desvelados e versados na (...)

o spleen da omnisciência

07.09.11
        Sua Excelência vivia em permanente estado de graça - é arriscado atribuir um vivência ascética, mesmo que se trate de Sua Excelência -, mas sofria de uma síndroma muito comum: contestava a importância de tudo o que desconhecia. Também se considerava um primeiro: vivia na ânsia do arrebatamento dos seus contrários, uma derivação da síndroma que o turvava.  E assim era: Sua Excelência mantinha-se em estado de "ignorância triunfal" e desfazia-se em (...)

sua excelência, o activista

16.12.10
            Sua Excelência ruborizava-se amiúde: a sua solenidade estava bem decretada: educar os corpos perdidos no tempo e no espaço, e agora, também, no ciberespaço; e todos; e finalmente; e para sempre; e. Era uma sina sideral, digamos assim. Sua Excelência conhecia mais da astrologia do que da astronomia e existia em permanente alteridade cósmica: nunca saía do outro. Sua (...)

sua excelência, o hermeneuta (1)

15.10.10
Sua Excelência não esgotava o tempo a fantasiar: a sua instituição era regida, em exclusivo e à distância, pelos ofícios e circulares emanados pela erudita central do poder. Sua Excelência sentia-se ilimitado, exacto e inovador. Efectivava, e com uma destreza original, as perturbantes vantagens tecnológicas da sociedade da informação e do conhecimento: o governo à distância. (1ª edição em 9 de Setembro de 2006)

sua excelência, o hermeneuta (2)

15.10.10
Sua Excelência teve dúvidas: o decreto dizia que os seus serviços tinham até oito dias para passar uma declaração ou um certificado, mas com o inconveniente avanço das tecnologias o documento podia ser impresso na hora. Sua Excelência decidiu: "o cliente faz o pedido e leva uma senha de levantamento para oito dias depois. O funcionário imprime o documento e guarda-o na gaveta com um “post-it” com a data de oito dias depois". . (Reedição. 1ª edição em 8 de (...)

sua excelência, o arquivista

11.06.10
Sua Excelência mandava arquivar tudo em triplicado. A ideia era antiga e estava decretada: teria sido fixada, segundo uma douta investigação de um correligionário seu, após um parecer dos serviços de bombeiros e de protecção civil. Mas os tempos tinham mudado: já não era só a arrumação da competente numeração das pastas de arquivo - a 300031 para a cópia 1, a 300032 para a cópia 2 e a 300033 para a cópia 3 - era, agora, a reprodução dos meios de comunicação. (...)