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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

(de)formação

18.10.10

 

 

Dizia-me um amigo entendido no assunto: à medida que o programa avança, fico ainda mais surpreso com a dimensão da monstruosidade. A formação contínua de professores do não superior é tão degradante que até dá dó.
Vamos ao princípio. Talvez bastasse se escrevesse que falamos dum negócio de milhões e ponto final. Não escrevia mais e quase que se percebia, tal a vilanagem que se instalou. Mas acrescento: os serviços centrais do ME tratam os professores do não superior com desrespeito. É gente que foge das salas de aula e desconsidera quem se "resigna" a viver por lá. Para não existirem dúvidas, aconselho-o a ver o vídeo (cortesia do Miguel Pinto) imperdível que adicionei ao post, entre os minutos 14 a 21.
O Programa abjecto decorre no âmbito do PTE (plano tecnológico da Educação) com organização da DGIDC (direcção-geral da inovação e desenvolvimento curricular) e da DGRHE (direcção-geral dos recursos humanos da Educação).
Trata-se de certificar com competências TIC (tecnologias da informação e comunicação) de nível 2, cerca de 30% dos professores. Não há quem responda ao motivo desta percentagem. Há quem diga que se quer criar uma "elite" de docentes dotados de literacia digital, pasme-se, para formar os futuros relatores (antigos titulares).
Esta certificação de competências só é reconhecida no nosso país.
Está a decorrer a certificação nível 1 (processo tipo novas oportunidades digitais), bastando aos professores terem realizado 50 horas de formação TIC, entre 2000 e 2010, para obterem essa certificação.
A certificação de nível 2 decorre da frequência de 4 módulos, de 15 horas cada, sendo 2 obrigatórios e 2 de opção (em quadros interactivos (também designados por hiperactivos ou inactivos), portfolio digital, moodle e quejandos). A certificação não é reconhecida pelos países da UE e apenas pelo governo português.
Repare-se nos detalhes da formação que está a decorrer:
Com a colaboração da DGIDC, da DGRHE e dos centros de competências dos CFAE, encontra-se a decorrer a formação dos módulos obrigatórios para a certificação de competências digitais. A formação é financiada pelo POPH e pelo Orçamento do Estado a 2€ por hora por cada formando.
O número de turmas a constituir por cada CFAE (centro de formação de associação de escolas) foi imposto pela DGRHE em função do número de docentes associados de modo a contemplar os 30%. Os docentes são indicados pelas direcções das escolas. Muitas das turmas são partilhadas pelos diversos CFAE.
Na prática acontece o seguinte: há formandos de Abrantes a fazerem formação em Santarém e há pessoas de Mafra deslocadas para as Caldas da Rainha. Este pandemónio desmultiplica-se ao nível nacional. Em muitos casos durante a semana e no final do dia. A candidatura financeira não inscreveu verbas suficientes para pagar as deslocações dos formandos, mas contemplou as deslocações dos formadores (indicados pelo programa) que recebem 43.50€ por hora de formação.
A perplexidade dos entendidos reúne ainda mais interrogações.
Para que servem estas 15 horas de formação? Para aprender a usar quadros interactivos? Para que serve esta certificação que não é reconhecida em mais nenhum país europeu? Estamos perante um assunto que apenas garante mais uma oportunidade de negócio? Por que é que a formação é feita sobre uma marca específica, interessada e bem colocada no fornecimento de quadros interactivos às escolas?
Veja de seguida o vídeo referido. Repito: entre os minutos 14 e 21.

 

O Miguel Pinto deu-se ao trabalho de fazer a seguinte adenda ao vídeo:

 

Adenda:

 

Minuto 14 – “O Ministério da Educação tem um modelo de gestão profundamente ultrapassado e tacanho. É um modelo de comando e controlo. Para o ME, os professores são uma cambada de preguiçosos, sem iniciativa. E isso é um erro completo.(…) Nós temos professores espantosos, com uma paixão pela sua missão comovente.”


Minuto 15 – “Há da parte do ministério uma inadequação completa quanto à mobilização dos professores para um projecto de mudança. Enquanto o ministério não conseguir apaixonar de novo os professores para um projecto de mudança pode meter quantos magalhães ou quadros interactivos quiser que não vai mudar o sistema [reforma pedagógica]. Os eventuais resultados positivos não se deverão ao ministério mas apesar dele.”


Minuto 17 – “O Plano Tecnológico da Educação tem uma visão tecnocrática primária, muito semelhante a alguns projectos do início dos anos 80.”


Minuto 36 – “A educação tem que ser profundamente remodelada. Há que recuperar, reconquistar e vai ser difícil reconquistar os professores, recuperar a paixão que os professores tinham pela sua missão. Eu tenho feito o exercício desde que fizemos este relatório, tenho feito o exercício de tentar ver qual é o sonho na cabeça dos professores, em várias partes do país. O sonho que neste momento está na cabeça dos professores é reformarem-se antecipadamente. É absolutamente deprimente, quando havia tantos sonhos, pelo menos em grupos muito representativos das escolas, havia paixões, havia pessoas que de manhã iam para a escola apaixonados por aquilo que faziam, apesar de saberem que aquilo era desgastante. Agora, o sonho dos professores é aposentarem-se antes do tempo”.

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