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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

o grito

26.09.08

(o grito de munch , quadro - alvo de desmedidas cobiças -

que, e ao que julgo saber, continua desaparecido)

 

Estou a fazer greve. É um dia de greve em Portugal.

E grito porquê? Inspirei-me numa entrevista que a "RTP 2" fez a Fernando Nobre da "AMI". Realmente, como bem diz este médico sem fronteiras, as desigualdades entre os humanos acentuam-se de modo vertiginoso: aquilo que sabemos e vemos ou choca ou não choca. E Fernando Nobre sabe bem do que fala: e escreve-o.

Por outro lado, há estudos que indicam uma verdadeira eficácia na arma das greves.

Sabemos do desequilíbrio orçamental do nosso país, sabemos dos novos desafios de competitividade que a globalização encerra, sabemos tudo isso. Mas também sabemos, vemos e lemos, muito mais: péssimos exemplos dos que governam e promiscuidades intoleráveis com o despautério de quem ambiciona lucros em escala vertiginosa; sabemos que a precariedade na contratualização laboral dos nossos jovens, e de muitos menos jovens, alastra-se.
Para benefício de quem? Queda sem fim? Niilismo gerador de desigualdades intermináveis?

Os professores portugueses assistem a um processo de candidatura aos escalões mais elevados da sua carreira assente em brutais (sim, brutais, o adjectivo foi bem pesado) injustiças:
critérios que descriminam, sem qualquer sentido pedagógico e de mérito, docentes que, em final de carreira, deram o seu melhor imbuídos de um discreto, à luz de uma democracia demasiado mediatizada, mas verdadeiro espírito de serviço público - porque generoso e desinteressado -;
olham para os seus colegas posicionados a meio da carreira e vêem o fechamento definitivo das suas legítmas progressões salarias e de estatuto;
vêem, com a indignação espelhada no rosto, jovens professores a leccionarem por cerca de quatro euros a hora e a recibo verde - estas situações verificam-se com a anuência dos responsáveis autárquicos e escolares -;
e vêem o processo para a contratação de jovens candidatos a docentes para substituições temporárias, ser objecto de um sistema igual ao que acontecia há trinta anos;
deve referir-se que, e na maioria das situações referidas, o que está subjacente, mais do que as questões orçamentais graves, é a falta de verdadeira convicção nos méritos democráticos do serviço público. Já se pensou, por exemplo, no que vai acontecer quando se tiver de cruzar esta coisa com as ideias, que por aí pululam, sobre o "monstro" (inundado de má burocracia, de brutais injustiças e inexequível) que será a avaliação do desempenho dos professores?

Choca. Choca muito.

E também choca a tolice graúda que preside ao modo como as escolas públicas vão sendo agrupadas: sem qualquer respeito pela sua autonomia e com uma total ignorância sobre a riqueza e a história do seus projectos educativas. Choca a tábua rasa que é exercida sobre os méritos e os deméritos das escolas públicas portuguesas e sobre os seus actores.


E tudo isto em nome de quê?

Gritemos, pois, na esperança que nos ouçam.



(reedição - primeira edição em 30 de Maio de 2007)

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