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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

filhos de montessori

30.11.10

 

 

 


Mas que grande confusão. Só nos faltava mais isto. O modo como se atropela e desrespeita o nosso sistema escolar é mesmo de bradar aos céus. Vivemos num sistema sem um rumo claro e onde se determina com uma autoridade conferida por sabe-se lá quem; a cultura do atrevimento generaliza-se, digamos assim. Já não bastava a mediatizada "parque escolar" ser questionada por uma série de coisas, com saliência para a oportunidade em desenvolver nesta altura um programa com elevada incidência financeira, fica-se agora a saber que os arquitectos (arquitectos mesmo) copiaram uma ideia holandesa que se inspirou na velha escola pedocentrista (considerada de desequilíbrio na relação pedagógica) de montessori (Maria Montessori 1870), que se integrou na corrente da escola moderna (início do século XX), e que resultados tão desastrosos pode provocar se for aplicada como é referido aqui ou aqui.

 

Antes da análise detalhada para um registo de blogue, convém enunciar um pressuposto: se as ideias da "parque escolar" fossem aplicadas num investimento privado seria lá com eles; mas pegaram num investimento público deste montante e deram largas a coisas como as que pode ler a seguir; e isso é um exercício demasiado atrevido para não nos beliscarmos. Generalizam-no sem testagem por amostra, afinal a política obstinada que desgovernou o sistema escolar nos últimos anos. Nos casos da avaliação de professores ou do estatuto da carreira, por exemplo, os resultados são a desgraça que se conhece.

 

As novas escolas querem mudar o ensino em Portugal

"A sala de aula já não é o espaço mais importante da escola, acredita a Parque Escolar. A arquitectura poderá transformar o ensino?(...)"

 

Leu bem. A parque escolar decretou a subalternização das salas de aula. Ponto final. Se isso não acontecer, já conhecem os responsáveis: os professores.

 

"(...)Uma escola descentrada da sala de aula, em que os alunos se espalham por espaços informais, com os seus computadores portáteis, cruzando-se com os professores na biblioteca e discutindo projectos - é esta a visão que a Parque Escolar tem para o ensino em Portugal.(...)"

 

Ou seja, o pior do discurso bem-pensante do eduquês: o espaço escolar (e não a escola) destina-se à informalidade, ao entretenimento e à aprendizagem. O ensino fica arrecadado na memória dos desfasados da pós-modernidade.

 

"(...)A modernização das escolas anunciada pelo Governo de José Sócrates não é apenas um projecto em que as velhas escolas, com a pintura a cair e janelas que não fecham, passam a ter um novo rosto. A ideia é aproveitar as obras - e o ano escolar que agora termina foi de esforço para as escolas, obrigadas a trabalhar no meio de máquinas, e poeira - para modernizar também a concepção do ensino.(...)"

 

É o que sempre se temeu: este governo não se limita à organização do sistema, tem para nos oferecer uma nova concepção de ensino com pelo menos um século de existência. Só que desta vez recorre aos gadgets das tecnologias como outrora se sonhou com a construção do homem novo.

 

E quando se questiona exactamente o que está a mudar é que nos confrontamos com ideias de quem só conhece a capital (que deixou degradar durante 20 anos o seu parque escolar porque quem exerceu cargos políticos como profissão exclusiva, e de uma ponta à outra no espectro partidário, optou pelo ensino privado para os seus filhos e não "viu" o que acontecia à escola pública).

 

Veja-se.

"(...)Num modelo muito inspirado em experiências de países como a Finlândia ou a Holanda, a Parque Escolar propõe uma escola com espaços mais informais (é o conceito da learningstreet, ver texto nestas páginas), locais para pequenas exposições de trabalhos e, acima de tudo, uma biblioteca, que passa a assumir um lugar central, com jornais, revistas, computadores, Internet. No caso dos liceus antigos, mantém-se por vezes a biblioteca original como "memória histórica" e espaço mais formal, e cria-se uma nova.

A biblioteca deve ser um "espaço aberto à comunidade": juntas de freguesia ou outras entidades poderão usá-las para iniciativas abertas ao exterior. Os novos pavilhões gimnodesportivos e salas polivalentes podem ser cedidos ou alugados pela escola, que se abre ao bairro e pode ter fontes de rendimento alternativas. "A ideia é levar a escola para fora dos seus limites físicos, trazendo para dentro as pessoas de fora", explica Teresa Heitor. Em muitos casos pretende-se ainda instalar um Centro de Novas Oportunidades.(...)"

 

O país está repleto, e bem, pela rede de bibliotecas escolares e municipais desde o século passado. As bibliotecas escolares são há muito o que aqui se desenha. Só não são mais abertas às comunidades porque os clientes usam, e bem, a rede municipal. Estas políticas fazem recordar os tempos dos três e quatro pavilhões desportivos por avenida ou da desmultiplicação das piscinas municipais de tamanho desmesurado e insustentável.

 

Há mais exemplos como os enunciados. Até a ideia de alugar os pavilhões desportivos escolares às comunidades é apresentada como solução inovadora. Francamente. Há mais de 30 anos que o país conhece essa realidade.

 

A peça jornalística insere também, e obviamente, um depoimento de quem parece alertar para a sensatez. Tardiamente.

 

"(...)Será este programa ambicioso de mais sobretudo quando é preciso adaptá-lo a edifícios antigos? "A arquitectura está relacionada com a vida, tem que servir a vida, não é a vida que vai servir a arquitectura", defende Michel Toussaint, vice-presidente da secção regional sul da Ordem dos Arquitectos e professor de arquitectura na Universidade Técnica de Lisboa. "A questão patrimonial tem os seus limites, [senão] o edifício transforma-se num museu, ou então abandona-se e vai-se para outro lado. Se estamos perante um conjunto patrimonial, ele tem que ser conservado, sem dúvida, mas a forma de o conservar é também habitá-lo. A arquitectura não tem sentido se não for habitada. As escolas têm que continuar a ser escolas."

Quanto à concepção dos espaços de ensino, Toussaint lembra que um país como a Holanda, por exemplo, "tem uma tradição de experimentalismo na arquitectura, e isso tem muito a ver com a própria sociedade". Em Portugal "há outras tradições de ensino, outras condições financeiras, de organização social, de eficácia administrativa e até de experiência arquitectónica". Pode não ser fácil transferir experiências de outros países.(...)"

 

(1ª edição em 6 de Junho de 2010)

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