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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

um dia

01.04.10

 

 

Foi daqui

 

 

 

 

Cortesia de Manuela Silveira.


 

 

 

 

Um dia,

os intelectuais
apolíticos
do meu país
serão interrogados
pelo homem simples do nosso povo.

Serão perguntados
sobre o que fizeram
quando a pátria se apagava lentamente,
como uma fogueira frágil,
pequena e só.

Não serão interrogados
sobre os seus trajes,
nem acerca das suas longas
sestas após o almoço,
tão pouco sobre os seus estéreis
combates com o nada,
nem sobre sua ontológica
maneira de chegar às moedas.

Ninguém os interrogará
acerca da mitologia grega,
nem sobre o asco
que sentiram de si,
quando alguém, no seu fundo,
dispunha-se a morrer covardemente.
Ninguém lhes perguntará
sobre suas justificações absurdas,
crescidas à sombra
de uma mentira rotunda.

Nesse dia virão
os homens simples.
Os que nunca couberam
nos livros e versos
dos intelectuais apolíticos,
mas que vinham todos os dias
trazer-lhes o leite e o pão,
os ovos e as tortilhas,
os que costuravam a roupa,
os que manejavam os carros,
cuidavam dos seus cães e jardins,
e para eles trabalhavam,
e perguntarão,


“Que fizestes quando os pobres
sofriam e neles se queimava,
gravemente, a ternura e a vida?”

Intelectuais apolíticos
do meu doce país,
nada podereis responder.

Um abutre de silêncio vos devorará
as entranhas.
Vos roerá a alma
vossa própria miséria.
E calareis,
envergonhados de vós próprios.

 

 

Otto Rene Castillo

 

2 comentários

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    Vasco Tomás

    20.02.10

    Ser um "intelectual apolítico" é ontologicamente uma impossibilidade real, porque toda a privação ou abdicação é ainda uma forma de acção, mas neste caso de consagração do existente. Mas se o real é também o possível, cabe ao intelectual o compromisso da realização daquela possibilidade.
    Ser um "intelectual apolítico" é também uma traição às aspirações de justiça que latejam no coração do povo, sobretudo daqueles que mais sofrem.
    Urge que se compreenda que, acima do saber das especialidades, existe a vida comum dos homens, que a todos respeita, e em relação à qual o intelectual tem o dever especial de intervir, pelo pensamento e pela acção, na sua transformação.
    Para que no mundo se amplifique os níveis de liberdade e de justiça para todos.
    Bem hajas, poeta guatemalteco, tão cantado pelo teu povo, porque escrevestes com a tinta do teu sangue este poema inspirado, tão actual no que denuncia e no que apela.
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