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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

régua e esquadro

25.03.10

 

Sei que muitos de vós passam por este "blog" e limitar-se-ão ou a ler os títulos ou a salpicar as mentes com uma, mais que diagonal, leitura do primeiro parágrafo. Garanto-vos que se estiverem cheios de pressa para irem a lugar nenhum, que saltem, sim, que saltem já para o último parágrafo e que fiquem logo com o mais importante desta crónica.

Não quero, contudo, condicionar o vosso apetite literato nem tão pouco ilustrar uma estimável característica da personalidade: a generosidade. Serei considerado, pelos mais atentos e eruditos, um verdadeiro realista.

Escrever em prosa, também podia ter sido outro o género escolhido se para aí tivesse alma e sabedoria, sobre a atmosfera das funções que exerci é, para mim, uma verdadeira odisseia. E como sou um ex-presidente de conselho executivo de uma escola pública portuguesa e em que a coisa até nem correu nada mal, é preciso uma certa dose de coragem, pois corre-se o risco de se ser considerado um laudatório em causa própria.

Não quero, contudo, começar a correr por aqui fora sem vos dar a conhecer algumas das minhas preocupações quando me iniciei nessas andanças.
Existirá alguém que não conheça o arquétipo do director de escola? Sempre tive um certa desafectação por essa figura. E que raio, todos gostamos de fazer boa figura. Ouvi, vezes sem conta, que alguém que ocupa lugares de poder passa logo a ser suspeito. Nunca mais o olham da mesma maneira. “Vais fazer isso? Por esse dinheiro? Não vais conseguir mudar nada".

Confidencio-vos que não foi preciso mudar uma vírgula no que quer que eu fosse. Aos putativos candidatos, aconselho-os a estarem preparados e a irem aos treinos ou então… e se não houver limitação de mandatos auto-limitem-se. Depois, é preciso não nos levarmos demasiado a sério mas ouvirmos os outros exactamente na medida oposta. A linguagem exprime emoções, aconselha e organiza os nossos conhecimentos e o nosso mundo. E isso não se faz sozinho.

Passadas as sempre protocolares questões prévias, entramos na parte mais difícil da crónica. Até a mim me apetece escrever já o último parágrafo. Mas ficavam coisas importantes para dizer, quem sabe se as mais fundamentais.

Pois bem, tudo se resume a coisas muito simples: ideias, claras e distintas - com princípio, meio e fim - uma extrema dedicação e uma boa equipa, no sentido mais moderno do termo; um apelo constante a uma mais do que instintiva capacidade para sobrevoar; uma discrição absolutamente religiosa nas questões que envolvem cada uma das pessoas - mesmo com as mais mesquinhas e maldizentes -; uma firme vontade em aplicar as boas ideias dos outros.

Para além dos tradicionais suplementos profissionais dos docentes - enfermeiro, médico, psicólogo, assistente social, engenheiro, arquitecto, autarca, decifrador de ofícios e circulares e prospector dos grandes desígnios da nação - a pós-modernidade requer: analista e programador informático, especialista em informática na óptica do utilizador, gestor de sites e de plataformas de comunicação e informação, escritor de circulares internas e de divulgações, gestor financeiro, capacidade visionária na elaboração do projecto educativo da escola, electricista e mecânico de impressoras e de cabos de rede.

Feita a súmula eis que nos confrontamos com o tão desejado último parágrafo.

Vou contar-vos um acontecimento que, de algum modo, caracteriza o ambiente profissional de muitas das nossas escolas. Estava eu a tentar arrumar a casa, no primeiro ano do primeiro mandato, quando me confronto com uma porta, que se destinava a fechar um dos corredores da escola, prostrada no chão. A avaria relacionava-se com a faixa lateral que suporta as dobradiças, que tinha sido arrancada através de um desajeitado e adolescente empurrão. Solicito a presença imediata da pessoa experiente neste tipo de arranjos e questiono-a sobre as possibilidades de salvação da dita.
Resposta pronta: "“isso não é um problema, não vai ser necessário comprar outra. Tem arranjo. Coloca-se uma faixa etária à volta da porta e prontos”".



(este texto não é inédito, mas reescrevi-o.
Publiquei-o numa revista da especialidade,
algures em 2000, 2001 ou 2002).

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