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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

os anjos também vão à escola

20.10.06


 

 

Apetece-me dar voz à escola. Desculpem-me a ousadia e, já agora, a maçada.
Mas elevo-a a uma entidade nivelada pelos anjos de Rilke; ou lembrar-vos-ei que, a Blimunda de Saramago, antes de deglutir a sua côdea, via os Homens mais por dentro do que por fora, como convém.

Elevar a escola e deixá-la ver-nos por dentro terá, porém, algumas desvantagens: da devassa da sua visão resultará a nossa indefesa exposição.

Não pretendo mostrar-vos um libelo acusatório dos encarregados de educação. Elevei-os à categoria dos belos, mas sabemos que esses, e mesmo esses, podem tornar-se terríveis e capazes de nos destruir.

Opina-se com ligeireza sobre o valor da escola. Lá bem por dentro não lhe elevam a importância. Acolhem-se nela quando os argumentos estão aflitos de razão.

Comprovemos, convocando para isso alguns dos nossos encarregados de educação: saibamos quem decide pela localização, e pela insuficiente qualidade, das diversas construções escolares; questionemos quem se queixa do "despesismo" do sistema escolar e perguntemos se têm os educandos em escolas públicas; e façamos perguntas sem fim, como dizia Sócrates, o filósofo: "aqueles que perguntam são sempre os mais perigosos. Uma simples pergunta pode ser mais explosiva do que mil respostas".
Encontraremos, certamente, registos discursivos laudatórios da importância da escola, assinados por encarregados de educação. Discursos.

Pensar que a relação destas duas entidades – a escola e os encarregados de educação - se esgota nos mecanismos formais existentes, é de uma inverdade comprovada: é uma narração cheia de mistérios não explicados e convenientemente imergidos.

A escola vê, com clareza e no amargo jejum conhecido, muito para além dos mensuráveis indicadores. Os problemas educativos sobem aos céus da escola nas formas mais variadas: falam-nos, com um carácter quase decisivo, das insuficiências familiares no acesso aos bens culturais; segredam-nos, com temeridade, da importância da distância que os jovens percorrerem entre a escola e a habitação; quase que desistem quando falam dos problemas relacionados com os filhos dos anjos em queda.

Confidenciam-nos a vivência de momentos de impaciência e mesmo de alguma incredulidade: beliscam-se muito quando observam uma refeição familiar com a comunicação permanentemente ocupada pela tal caixa que mudou o mundo; entristecem-se quando vêem o seu jovem aluno confrontado com a impossibilidade do diálogo por falta de tempo, que é sempre uma outra maneira de dizer, por falta de vontade.

Mas renovam-se de esperança quando se confrontam com as inúmeras presenças dos encarregados de educação. São legiões de gente que ama de verdade e que está sempre sobrevoando. Que aparece, mesmo quando a atmosfera de emancipação juvenil não o aconselha. Que fala aos jovens, que os questiona, que os aborrece. Que lhes diz que NÃO, para que aprendam a fazer o mesmo. E desses, mais ricos ou mais pobres, nota-se a sua permanente presença na escola. Registada, mesmo com a doce aura da invisibilidade.

Não, os belos anjos nem sempre são terríveis.



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