Em busca do pensamento livre.
Sexta-feira, 7 de Setembro de 2007





Há tempos, fiquei surpreendido quando se discutiu, em Portugal, o protocolo de estado.
E não deveria ter ficado, reconheço.
Tenho alguma experiência dessas coisas, e, francamente, o excesso de formalismo sempre me deu vontade de sorrir.
Por herança conhecida, a sociedade portuguesa tarda em libertar-se dessa obsessão pelo desnecessário.

Li um editorial do jornal público, escrito por Manuel Carvalho e intitulado “as excelentíssimas autoridades”, que tem passagens muito acertadas e, só por isso, redundantes: “... os portugueses devotam um particular carinho pelo beija-mão... são vulgares as poses ridículas a que muitas figuras secundárias do Estado se sujeitam para aparecer ao lado dos “poderosos”... se há alguma coisa a discutir - e não há dúvidas que há -, que se discuta na discrição dos gabinetes”.

Mas, dizia, tenho algum conhecimento dessa paranóia que é o protocolo de estado.
Tive a oportunidade de participar em comissões executivas para a realização de actividades de âmbito nacional e regional, e recordo, como grandes momentos de humor, a elaboração dos programas, principalmente na componente protocolar.

Eram páginas e mais páginas com a designação das entidades devidamente hierarquizada. Havia mesmo especialistas, para quem se telefonava vezes sem conta, que dominavam o rigor dos patamares: se o comandante dos bombeiros aparecia primeiro que o presidente da junta de freguesia, se o ministro da pasta x aparecia primeiro que o ministro da pasta y, eu sei lá...

Era um verdadeiro sufoco. Ficava calado, ria para dentro, por vezes estrebuchava um pouco, outras vezes partia para outra - havia sempre outros assuntos a tratar, felizmente - e esperava que a tempestade passasse. Mas via o modo, convicto e sério, como os meus colegas tratavam do assunto.

Mas o que mais me espantava, era o dia da cerimónia, onde nada daquilo tinha relevância: a maioria das entidades não aparecia, ou se marcava o ponto, assumia um registo informal e mandava às malvas o protocolo. Surreal. A questão era o papel, literal, que passaria para a história. No programa do evento, a ordem dos lugares obedecia à mais minuciosa avaliação da totalidade das entidades. Uma doença.

Questionava-me sempre: mas se nem tempo tenho para ler aquilo tudo, como é que estas pessoas conseguem dedicar um minuto que seja ao assunto?

Escolhi, para acompanhar este texto, uma foto com uma cadeira, porque lembrei-me de uma história bem ilustrativa.

Passou-se em Vila Real de Trás-os-montes, onde leccionei nos anos de 1985 a 1987.

Participava na organização de uma actividade com abrangência regional, quando, e no meio de uma esgotante azáfama, se coloca a questão mais inacreditável que testemunhei: "é preciso ir buscar a cadeira do senhor Bispo".

Por momentos, sou franco, pensei que o senhor seria um obeso excessivo ou coisa do género. Mas teve de ser. Tivemos de providenciar uma carrinha e convocar quatro ou cinco homens para carregar com a pesadíssima cadeira - informação prestada por quem possuía experiências anteriores -.

Fiquei de olho no assunto. No dia da actividade, a cadeira estava vazia. Pergunto a um dos colegas entendidos: - “então o Bispo?”. - “Está atrasado. Mandou dizer para começarmos”.

Perto do fim, lá chegou o senhor. Homem para 70 quilos, se tanto, apareceu quando já todas as pessoas estavam de pé, e, pelo menos aparentemente, nem deu pela cadeira. Terminado tudo aquilo, estávamos confrontados com um problema final: "temos de devolver a cadeira à casa do do senhor bispo de Vila Real".



(reescrito)

tags:

publicado por paulo prudêncio às 09:02 | link do post | comentar | partilhar

6 comentários:
De NMM a 7 de Setembro de 2007 às 19:27
é mesmo assim , infelizmente parece que se usa o protocolo para se adiar as decisões importantes, muitas são as vezes em que se perde
tanto tempo com o protocolo que quando se chega a questão fulcral o tempo subitamente terminou e pronto assim se adiam as decisões.
dáme até ideia que até se perde tempo nas folhas a descrever o protocolo para não se ter tempo para pensar nas questões que é preciso decidir.
E depois durante as cerimónias revela-se finalmente que o protocolo não interessa, é absurdo como no exemplo dado no texto, se não fosse assim toda a gente o cumpria.
Abraço


De Paulo G. T. Prudêncio a 7 de Setembro de 2007 às 20:52
É isso meu amigo. Abraço.


De Rhiannon a 8 de Setembro de 2007 às 16:02
Tem razão. A sobrevalorização do protocolo é de tal ordem que continuamos, ainda hoje, preocupados com a cadeira.


De Paulo G. Trilho Prudêncio a 8 de Setembro de 2007 às 19:08
:) Abraço.


De anónimo a 5 de Janeiro de 2008 às 00:27
apesar de tudo não há ninguém que goste de ficar preterido nas funções que ocupa. está a respeitar-se o cargo e não a pessoa que momentaneamente o ocupa. um abraço


De Paulo G. T. Prudêncio a 6 de Janeiro de 2008 às 20:33
Claro. Mas tanto excesso... Abraço.


comentar post

Inauguração do blogue
25 de Abril de 2004
Autor:
Paulo Guilherme Trilho Prudêncio
Discordâncias:
Mais até por uma questão estética, este blogue discorda ortograficamente
arquivo
comentários recentes
Muito bom.
https://blog-da-anal.blogspot.com/
Depois há coisas destas...https://www.blogger.com/...
É um tema que exige muitos caracteres. Darei a min...
Ora nem mais. Mas refiro-me apenas à audição de pr...
subscrever feeds
mais sobre mim
Por precaução
https://www.createspace.com/5386516
ligações
blog participante - Educaá∆o - correntes .jpg
tags

antero

avaliação do desempenho

bancarrota

bartoon

blogues

campanhas eleitorais

cartoon

circunstâncias pessoais

concursos de professores

contributos

corrupção

crise da democracia

crise da europa

crise financeira

desenhos

direitos

economia

educação

escolas em luta

estatuto da carreira

falta de pachorra

filosofia

fotografia

gestão escolar

história

humor

ideias

literatura

luís afonso

movimentos independentes

música

paulo guinote

política

política educativa

professores contratados

público-privado

queda de crato

rede escolar

ultraliberais

vídeos

todas as tags

favoritos

bloco da precaução

pensar o sistema escolar ...

escolas sem oxigénio

e lembrei-me de kafka

as minhas calças brancas ...

as minhas calças brancas ...

reformas e remédios (1) -...

sua excelência e os númer...

posts mais comentados
Razões de uma candidatura
https://www.createspace.com/5387676