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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

a dignidade e a greve de professores

14.06.06





Não me interessa a discussão a propósito de quem convoca as greves de professores e muito menos o calendário escolhido para a convocação da suspensão voluntária das tarefas docentes.

Quando ouço argumentar que estas greves têm uma agenda exclusivamente partidária, francamente, apetece-me dizer que isso é tão válido como dizer-se que o que os governantes querem é desvalorizar a escola pública para a entregar, como negócio altamente apetecível, aos interesses privados. Cada um falará, sempre e só, do que sabe: aliás, como é possível alguém falar do que não sabe?

Hoje fiz greve e fiquei muito orgulhoso com o comportamento dos professores portugueses.

A ideia de avaliar o mérito dos docentes - fazendo o paralelismo com  os militares - e depois instituir cotas no acesso à categoria de docente titular é impossível de aceitar.

Foi uma greve justa.

Por muito que se diga o contrário, existe hoje uma desvalorização quase absoluta do percurso do nosso sistema escolar. Generaliza-se de modo leviano. É grave o modo como se passa por cima da organização autónoma da cada escola: este último despacho que remete para os docentes "faltosos" a incumbência da realização das tarefas de planeamento do ano lectivo é lapidar. É o total desrespeito por cada uma das escolas. Só é possível no "estado de sítio" actual. As escolas estão incluídas num regime de autonomia e gestão e devem ser avaliadas enquanto tal.

As generalizações são sempre desadequadas - "não fazem parte deste tempo" -, perigosas e tremendamente injustas.

Quer ver, meu caro leitor. Vou pegar no último ministro da Educação.
O ex-ministro David Justino que é, hoje, assessor para a educação do actual presidente da República, passava o tempo todo a dizer que a gestão das escolas tinha de ser profissionalizada e depois deu os exemplos de gestão que todos conhecemos - sendo o exemplo mais mediático o inenarrável concurso de docentes, não devemos esquecer as incursões destemperadas na lei de bases ou na lei orgânica do próprio ministério -; agora aconselha, de modo sábio, já se vê, a presidência do país.
Será a voz do presidente?
Será que os ministros, principalmente os ex-docentes de sociologia, são todos deste nível de competência?

O que nos vale é que existem muitos docentes, como existem profissionais de outras áreas, certamente, que se orgulham do seu exercício profissional em Portugal e do trabalho que têm realizado: e lembrei-me, de novo, de Vergílio Ferreira.




"... porque há uma invencível lei do homem
que é a da sua libertação,
a sua conquista inexorável
de uma cada vez maior dignidade."



Vergílio Ferreira, Alegria Breve



Paulo Guilherme Trilho Prudêncio.