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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

michael fullan

13.09.08

 

 

“De facto, vivemos actualmente tempos agitados - muita coisa acontece rapidamente. Sabemos que nenhum destes ínfimos desenvolvimentos levará à percepção de que a liderança é a chave para o melhoramento em larga escala, embora tenhamos a consciência de que tudo terá de ser radicalmente diferente do que foi até agora. Para além disso, a liderança eficaz é cada vez mais escassa. Podemos, por isso, esperar que eventuais iniciativas de desenvolvimento da liderança venham a dominar a cena na próxima década. Contudo, a liderança exigida por uma cultura de mudança nem sempre é clara e fácil de compreender. Vivemos em condições absolutamente caóticas. Por conseguinte, os líderes deverão ser capazes de agir sob circunstâncias complexas e incertas. Por este motivo, dedico este livro a um conceito especial de teoria do caos - “a selvejaria anda à espreita”.” É com esta dedicatória que Michael Fullan assina o seu livro “liderar numa cultura de mudança”.

Exigimos que os líderes resolvam, ou pelo menos sejam capazes de gerir uma multiplicidade de problemas interligados que podem degenerar em crises, sem qualquer aviso prévio; exigimos que naveguem numa realidade em crescente turbulência, realidade esta que, em certos aspectos-chave, acaba por ser literalmente incompreensível para a mente humana; bombardeamo-los por todos os lados com interesses especiais, cada vez mais arrojados e poderosos, que desafiam todos os conceitos de políticas inovadoras; afogamo-los em informações frequentemente inúteis e confusas; e obrigamo-los a decidir e a agir a uma velocidade cada vez mais rápida” - escreve Michael Fullan.

Mas quem é Michael Fullan? Um da suas notas biográficas diz assim: “É reitor do Ontario Institute for Studies in Education da Universidade de Toronto. É reconhecido como uma autoridade internacional em reforma educativa. Ocupa-se ainda da consultadoria, avaliação e formação dos projectos de mudança em todo o mundo. As suas ideias relativas à gestão da mudança são utilizadas em muitos países e os seus livros foram publicados em muitas línguas”.

 

 


Da leitura deste livro de Michael Fullan, destaco algumas das muitas ideias que podem suscitar um interessante debate:

“Quanto mais complexa se torna a sociedade mais sofisticada terá de ser a liderança. Complexidade significa mudança, mas significa sobretudo uma mudança não linear e imprevisível, que ocorre rapidamente. Como é, então, possível liderar numa cultura como a nossa, que parece cada vez mais especializar-se na inovação desenfreada? Este é o dilema do líder. Por um lado não agir quando o ambiente que o rodeia está a mudar radicalmente pode conduzir à extinção. Por outro lado, tomar decisões rápidas mediante condições próximas de uma histeria intelectual pode ser igualmente fatal. Este livro aborda a forma como os líderes podem concentrar-se em determinados temas-chave da mudança que lhes permitirão liderar com eficácia perante um contexto de confusão. O livro foca ainda o modo como os líderes fomentam a liderança nos outros, de forma a poderem tornar-se dispensáveis a longo prazo. E, para além disso, analisa a forma como podemos criar mais líderes de líderes”.


“A l
iderança nos negócios e na educação tem cada vez mais pontos em comum. Como veremos adiante, o mundo empresarial começa a tomar cada vez mais consciência do quão perigoso é para o sucesso sustentável ter um objectivo moral. Neste ponto, terá decerto muito que aprender com as escolas. Isto porque as escolas começam a descobrir que as novas ideias, a criação e a partilha do conhecimento são essenciais para resolver os problemas de ensino-aprendizagem numa sociedade em rápida mudança”.

“Se pedirmos às pessoas para nos indicarem palavras que descrevam a mudança, certamente que seremos confrontados como uma mistura entre termos positivos e negativos. Por um lado, medo, ansiedade, perda, perigo, pânico, por outro, júbilo, coragem, empreendimento, entusiasmo, inovação, estímulo. Para o bem e para o mal, a mudança desperta sempre emoções, e quando as emoções ganham cada vez mais intensidade a liderança é a chave”.

“Este não é um livro sobre os super-líderes. Sem querer, os líderes carismáticos acabam por ser mais prejudiciais do que benéficos, isto porque, na melhor das hipóteses, proporcionam melhoramentos esporádicos a que se segue uma dependência frustrada ou debilitada. Os líderes sobre-humanos também nos prestam outro péssimo serviço: constituem modelos exemplares que jamais poderão ser igualados pelo comum dos mortais. Qualquer reforma profunda e constante está dependente de muitos de nós, e não apenas de um pequeno número que nasceu para ser extraordinário.”


“Uma das imagens alternativas de liderança, defende Heifetz, consiste em “mobilizar pessoas para lidar eficazmente com problemas difíceis”. A liderança não é, então, mobilizar os outros para resolverem problemas que nós já sabemos como resolver, mas antes ajudá-los a enfrentar problemas que nunca foram resolvidos”.


“Descobrimos que o aspecto singular comum a todas as iniciativas de mudança bem sucedidas é o melhoramento ao nível do relacionamento. Se o relacionamento evolui positivamente, tudo melhora. Se se mantém ou deteriora, então a batalha está perdida. Por isso, é necessário que os líderes sejam sobretudo capazes de construir relacionamentos perfeitos com as mais diferentes pessoas e grupos - especialmente com pessoas e grupos - especialmente com pessoas diferentes deles próprios. Os líderes eficazes alimentam constantemente a interacção e a resolução de problemas objectivos e definidos, revelando igualmente alguma tacto e cuidado em relação aos consensos fáceis”.

“As pessoa jamais partilharão voluntariamente conhecimentos a não ser que sintam algum compromisso moral para tal; a dinâmica de mudança pode favorecer essa troca; a existência de dados sem relacionamento apenas serve para gerar mais excesso de informação”.


O seu livro “liderar numa cultura de mudança” é uma obra corajosa: a exemplo daquilo que acontece na martirizada investigação em ciências da educação, o seu objecto de estudo situa-se numa área que pode considerar-se de areias movediças. Muito difícil de avaliar e de compreender, a liderança em situações de mudança é um mundo por conhecer. O paralelismo que faço com a investigação nas ciências da educação é compreensível. A dificuldade de afirmação desta última, relaciona-se muito com o seu objecto: como é que se aprende, afinal?; conhece-se muitas maneiras de ensinar, mas pouco ou nada se sabe sobre o modo como se aprende; para muitos, é mesmo mais correcto falar-se em ignorância do que em conhecimento em relação a este último pressuposto.

Uma obra interessante com um aspecto negativo: uma descuidada tradução.



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