Em busca do pensamento livre.
Quarta-feira, 5 de Maio de 2004
inhamb1.jpg A história passa-se em duas praias. Tohofinho, uma das belas praias de Inhambane, cidade moçambicana, e Foz do Arelho, a praia das Caldas da Rainha, cidade portuguesa. Entre uma e outra, assistiu-se ao esboroar de um encantamento que durou mais de 30 anos. Decorria o ano de 1971 - tinha eu os meus 11 para 12 anos – e vivia na cidade de Maputo, então Lourenço Marques, capital de um país conhecido por Moçambique. As férias escolares, principalmente as grandes, eram momentos de tempo interminável. Nesse ano, tive o convite de uns vizinhos chegados – um casal com um filho sensivelmente da minha idade - para ir com eles passar um período alargado –cerca de um mês dos três que essas férias nos abençoavam - à cidade de Inhambane. Era uma viagem de mais de mil kms. Com a autorização dos meus pais, lá partimos, num belo carocha, rumo à cidade da boa gente – designação escolhida belo célebre navegador Vasco da Gama. A cidade era suave. Lembro-me que tinha uma imponente catedral e que era habitada por imensos cidadãos indianos e paquistaneses. Tinha a marca – aparente ou não, vá lá saber-se - de uma pacífica coabitação entre essas culturas. Era rodeada por imensas praias. Bastava percorrer qualquer coisa como trinta quilómetros para que uma bela praia nos fosse presenteada. Nessa altura, a escolhida foi o Tohofo (lê-se tofo). Praia quente e muito bonita, de águas imaculadas, impossível de descrever. Local pouco habitado – um hotel, uma estância balnear de ferroviários e pouco mais. Todavia, a uns poucos quilómetros de se chegar ao Tohofo, aparecia uma picada para uma outra praia – só ao alcance dos todo o terreno – o Tohofinho. E é deste segundo lugar que a minha memória guarda imagens inesquecíveis. Nós, crianças, chegávamos ao Tohofinho pela praia. Centenas de metros percorridos, de modo pedonal já se vê, e sempre com a mente desperta para o aviso dos perigos mortais – o Tohofinho tem uma rebentação fortíssima e é um albergue de tubarões. Na fronteira destas praias, erguia-se um invulgar rendilhado rochoso. Na maré vazia, a natureza oferecia-nos por ali um belo complexo (digo complexo para ser moderno, já que aquilo não era mais do que um “simplexo”) de piscinas naturais. E foi numa dessas piscinas que tive a sensação única de tocar num tubarão vivo – pequeno é certo, já que esta história não vos é contada por um caçador de leões ou de elefantes. Guardo dessas férias a ideia de ter estado no paraíso. Passados 33 anos, e imaginem como cenário uma esplanada da não menos bela Foz do Arelho, praia de cidade das Caldas da Rainha, lia eu uma entrevista à historiadora portuguesa, Dalila Mateus. Um arrepio apoderou-se de todo o meu ser. A tese desta investigadora, apresenta argumentos para se considerar como um verdadeiro genocídio a presença portuguesa nos antigos territórios coloniais. E entre outros relatos, Dalila Mateus conta algumas atrocidades cometidas pela PIDE, e entre estas, refere a prática comum de se lançar aos tubarões do Tohofinho – em plena primeira metade da década de 70 do século XX - os presos políticos de pele negra. Em que águas límpidas terei eu tocado? Como foi isto possível?

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publicado por paulo prudêncio às 22:39 | link do post | comentar | partilhar

3 comentários:
De anónimo a 9 de Maio de 2004 às 16:05
comecei a ler com o prazer indizivel de quem tambem andou por aquelas paragens,e ouve assim,traduzidas,as suas algo nublosas recordaçoes.eu era criança,alegre,despreocupada,e pouco desenvolvida demais,para ter consciencia de algo alem da vida livre e deliciosa que se levava.
nao vou portanto comentar a dor da revelaçao final.
nem saberia !cafezeira
</a>
(mailto:cafezeira@msn.com)


De anónimo a 7 de Maio de 2004 às 00:09
A dura realidade tão nossa desconhecida. A inocência dos nossos olhares encobria uma brutalidade sempre em gestação. A eterna maldição na diáspora da condição humana?Paulo Prudêncio,
</a>
(mailto:pgtrilho@netvisao.pt)


De anónimo a 6 de Maio de 2004 às 17:44
Espantoso!

Sabia que a PIDE/DGS não era tão pouco ofensiva quanto os defensores da tese do país dos brandos costumes nos querem fazer crer.

Mas atirar homens aos tubarões na praia do Tofo, no início da década de 70, quando eu lá estava a viver esse periodo dourado da colonização portuguesa, é algo que ultrapassa tudo o que eu poderia imaginar.

Que houvesse um outro turra que não resistisse à dureza dos interrogatórios, tudo bem, compreende-se. Agora, atirá-los aos tubarões!? Que poderia a polícia política ganhar com isso? Pôr os outros assistentes a falar, talvez.Luís Filipe Redes
(http://www.euooutro.com)
(mailto:luis.filipe.redes@netvisao.pt)


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