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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

o sabor das linguagens

09.05.04

sabores.gif Sei que muitos de vós pegarão nesta publicação e limitar-se-ão ou a ler os títulos ou a salpicar as mentes com uma, mais que diagonal, leitura do primeiro parágrafo. Garanto-vos que se estiverem cheios de pressa para irem a lugar nenhum, que saltem, sim, que saltem já para os dois últimos parágrafos e que fiquem logo com o mais importante desta crónica. Não quero, contudo, condicionar o vosso apetite literato nem tão pouco ilustrar uma estimável característica da personalidade – a generosidade. Serei apenas considerado pelos mais atentos e eruditos – um verdadeiro realista. Escrever em prosa, também podia ter sido outro o género escolhido se para aí tivesse alma e sabedoria, sobre a atmosfera das funções que actualmente exerço é, para mim, uma verdadeira odisseia. E como sou um presidente em fim de mandato e em que a coisa até nem correu nada mal, é preciso uma certa dose de coragem, pois corre-se o risco de se ser considerado um laudatório em causa própria. Não quero, contudo, começar a correr por aqui fora sem vos dar a conhecer algumas das minhas preocupações quando me iniciei nestas andanças. Existirá alguém que não conheça o arquétipo do director de escola? Sempre tive um certa desafectação por essa figura. E que raio, todos gostamos de fazer boa figura. Ouvi, vezes sem conta, que alguém que ocupa lugares de poder passa logo a ser suspeito. Nunca mais o olham da mesma maneira. “Vais fazer isso? Por esse dinheiro? É só chatices.” Confidencio-vos que não foi preciso mudar uma vírgula no que quer que eu fosse. Aos putativos candidatos, aconselho-os a estarem preparados e a irem aos treinos ou então… e se não houver limitação de mandatos auto-limitem-se. Depois, é preciso não nos levarmos demasiado a sério mas ouvirmos os outros exactamente na medida oposta. A linguagem exprime emoções, aconselha e organiza os nossos conhecimentos e o nosso mundo. E isso não se faz sozinho. Passadas as sempre protocolares questões prévias, entramos na parte mais difícil da crónica. Até a mim me apetece escrever já os últimos parágrafos. Mas ficavam coisas importantes para dizer, quem sabe se as mais fundamentais. Pois bem, tudo se resume a coisas muito simples. Ideias, claras e distintas - com princípio, meio e fim - muita dedicação e uma boa equipa, no sentido mais moderno do termo. Um apelo constante a uma mais do que instintiva capacidade para sobrevoar. Uma discrição absolutamente religiosa nas questões que envolvem cada uma das pessoas - mesmo com as mais mesquinhas e maldizentes. Uma vontade firme em aplicar as boas ideias dos outros. Para além dos tradicionais suplementos profissionais dos docentes – enfermeiro, médico, psicólogo, assistente social, engenheiro, arquitecto, autarca, decifrador de ofícios e circulares e prospector dos grandes desígnios da nação – a pós-modernidade requer: analista e programador informático, especialista em informática na óptica do utilizador, gestor de sites, electricista e mecânico de impressoras e cabos de rede e um domínio fluente dos diversos idiomas usados nos quinze da união europeia e nos países do antigo leste europeu. Feita a súmula eis que nos confrontamos com os tão desejados últimos parágrafos. Vou contar-vos dois acontecimentos, passados num mesmo mandato. O primeiro no início e o segundo no fim. Façam as devidas interpretações sem deixarem de considerar a sua localização temporal. Estava eu a tentar arrumar a casa quando me confronto com uma porta, que se destinava a fechar um dos corredores, prostrada no chão. A avaria relacionava-se com a faixa lateral que suporta as dobradiças, que tinha sido arrancada através de um desajeitado e adolescente empurrão. Solicito a presença imediata da pessoa experiente neste tipo de arranjos e questiono-a sobre as possibilidades de salvação da dita. Resposta pronta: “isso não é um problema, não vai ser necessário comprar outra. Tem arranjo. Coloca-se uma faixa etária à volta da porta e prontos”. Uns anos mais tarde, estava eu a fazer um daqueles intermináveis telefonemas que são vitais para o futuro da instituição. Escolho sempre as horas de menor movimento e deixo a porta do gabinete estrategicamente encostada. Não estava de frente para a porta, mas sentia que alguém a abria e a voltava a fechar. A cena repetiu-se umas cinco vezes. Quando finalmente o telefonema acabou, dirigi-me ao hall e encontrei-o vazio. Nada a fazer. Encontro, horas depois, a professora de uma das turmas do 1º ano de escolaridade (a escola é uma básica integrada). Conta-me que tinha enviado um aluno brasileiro, de seis anos apenas, ao gabinete do conselho executivo, para solicitar umas informações imprescindíveis. O miúdo, depois de uns bons quinze minutos, regressou e com um ar contrafeito sentenciou: “o cara está barricado e não larga o telefone”.