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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

tempos que são de guerra

24.01.08
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Estávamos em plena guerra fria - nunca percebi o nome de fria, a não ser que tenha sido pela incapacidade de aquecer o coração dos beligerantes do "topo" -. As grandes potências usavam, até à exaustão, as suas armas de propaganda: e nada melhor que a arte para iluminar as vontades indecisas.

O corpo, com as suas múltiplas acções e representações, foi elevado muito para além dos limites conhecidos. Aguardavam-se os momentos da realização dos Jogos Olímpicos, como se de uma feira de material bélico se tratasse.

Contavam-se as medalhas ganhas como quem confere as mais polidas e ofuscantes das cruzes de guerra. Eram necessários anos a fio para que os resultados atingissem os incrédulos e alimentassem os crédulos; e não havia tempo a perder. Duas décadas, no mínimo, para que cada "Fábrica do Corpo Humano" desempenhasse o seu papel estratégico.

Encontrou-se, como não podia deixar de ser, uma táctica de efeito cirúrgico: adiantou-se o tempo. Aparecerem génios, ainda quase de fraldas e com o peluche em vez da bandeira, a fazerem o serviço patriótico. Foi uma louca corrida ao ouro. Os garimpeiros de então, muniram-se dos mais sofisticados avanços científicos e tecnológicos.

Conheço a história de duas pessoas produzidas nessa maquinaria infernal. Uma ginasta dourada e um xadrezista consagrado e totalmente especializado. Ambos ensinam, na data em que esta questão se torna pública, no mesmo país, que não é o de origem de nenhum dos dois. Percebe-se. As "altas esferas" desuniram-se. Gostam muito pouco de falar do passado. Menos ainda do caminho tortuoso que os lançou para a celebridade efémera. Sabe-se que a ginasta, aos 24 anos, colecciona hérnias e problemas nos tecidos que ligam as diversas partes do corpo. O xadrezista só não tem tendinites crónicas no dedo mindinho da mão esquerda, porque, segundo consta, o seu mestre tinha-o perdido numa acidente doméstico: "Um génio à minha imagem e semelhança".

Nadia Zedong, a ginasta, nasceu de um cruzamento manipulado pelo conhecimento genético de então. Filha de um romeno, exímio na arte circense, e de uma chinesa contursionista, raptada numa digressão dos famosos circos chineses.

Anatoly Fisher Brahms, o xadrezista, foi produzido num processo mais erudito mas semelhante, em tudo, ao de Nadia. Filho do mais persistente dos xadrezistas russos e de uma alemã, bisneta do conhecido compositor Joannes Brahms. E o Fisher? Bem, necessidades da contra-informação. Era preciso seduzir vários públicos, e Fisher era uma garantia de não alinhamento.

Nadia e Anatoly ensinam, no mundo livre, numa Escola Superior de Artes do Espectáculo.



(reedição em homenagem a Bobby Ficher - reescrito)