Em busca do pensamento livre.
Domingo, 9 de Maio de 2004

anjo.gif Apetece-me dar voz à escola. Desculpem-me a ousadia e, já agora, a maçada. Mas elevo-a a uma entidade nivelada pelos anjos de Rilke. Ou ainda, lembrar-vos-ei que, a Blimunda de Saramago, antes de deglutir a sua côdea via os Homens mais por dentro do que por fora, como convém. Elevar a escola e deixá-la ver-nos por dentro terá, porém, algumas desvantagens. Da devassa da sua visão resultará a nossa indefesa exposição. E por lá, nos lugares mais altos, ela encontrará, com frequência, apenas alguns dos Homens. Certo e sabido. Não pretendo mostrar-vos um libelo acusatório dos encarregados de educação. Elevei-os à categoria dos belos, mas sabemos que esses, e mesmo esses, podem tornar-se terríveis e capazes de nos destruir. Opina-se com ligeireza sobre o valor da escola. Lá bem por dentro não lhe elevam a importância. Acolhem-se nela quando os argumentos estão aflitos de razão. Culpam-na de tanta e mais alguma coisa, até de não consolidar as asas de uma boa educação. Comprovemos, convocando para isso alguns dos nossos encarregados de educação. Saibamos quem decide pela localização, e pela insuficiência de qualidade, das diversas construções escolares. Ou então, questionemos quem reduz, ou não aumenta, a percentagem do P.I.B. (produto interno em bruto) para a educação. Por lá encontraremos, certamente, registos discursivos laudatórios da importância da escola, assinados por encarregados de educação. Nuvens negras. Pensar que a relação destas duas entidades – a escola e os encarregados de educação - se esgota nos mecanismos formais existentes, é de uma inverdade comprovada. Mais do que o tradicional encontro com o director de turma, associado à ténue proliferação de presenças, ou ausências, nos diversos órgãos de gestão das escolas, esta é uma relação cheia de mistérios não explicados e convenientemente imergidos. São feitos de matéria nem sempre estéril, composta de duras, e mútuas, acusações. Mais do que erradicar a “restrita” exclusão escolar, pede-se à escola a nobre tarefa de eliminar a exclusão educativa. Continua certo que o famigerado “índice socio-económico das famílias”, representa o princípio dos obstáculos. São certas as desvantagens das crianças mais pobres de riquezas materiais. Mas a escola vê, com clareza e no amargo jejum conhecido, muito para além desse mensurável indicador. E importa falar-vos dessas outras confidências. Os problemas educativos sobem aos céus da escola nas formas mais variadas. Falam-nos, com um carácter quase decisivo, das insuficiências familiares no acesso aos bens culturais. Segredam-nos, com temeridade, da importância da distância que os jovens percorrerem entre a escola e a habitação. Quase que desistem quando falam dos problemas relacionados com os filhos dos anjos em queda. Requerem-se soluções de longo prazo. Confidenciam-nos, no entanto, a vivência de momentos de impaciência e mesmo de alguma incredulidade: beliscam-se muito quando observam uma refeição familiar com a comunicação permanentemente ocupada pela tal caixa que mudou o mundo; entristecem-se quando vêem o seu jovem aluno confrontado com a impossibilidade do diálogo por falta de tempo, que é sempre uma outra maneira de dizer, por falta de vontade. Mas renovam-se de esperança quando se confrontam com as inúmeras presenças dos encarregados de educação. São legiões de gente que ama de verdade e que está sempre sobrevoando. Que aparece, mesmo quando a atmosfera de emancipação juvenil não o aconselha. Que fala aos jovens, que os questiona, que os aborrece. Que lhes diz que NÃO, para que aprendam a fazer o mesmo. E desses, mais ricos ou mais pobres, nota-se a sua permanente presença na escola. Registada, mesmo com a sua doce aura de invisibilidade. Não, os belos anjos nem sempre são terríveis.



publicado por paulo prudêncio às 20:55 | link do post | comentar | partilhar

Inauguração do blogue
25 de Abril de 2004
Autor:
Paulo Guilherme Trilho Prudêncio
Discordâncias:
Mais até por uma questão estética, este blogue discorda ortograficamente
arquivo
comentários recentes
Até pode ser uma explicação: anos a fio na "selva"...
Até pode ser uma explicação: anos a fio na "selva"...
Uma descida grave.
Também de Singapura vêm outras boas iniciativas:ht...
Também aqui se realça Singapura por boas razões:ht...
tempos que têm os ingredientes para os 'trumps'/'b...
Não conhecia essa situação.
subscrever feeds
mais sobre mim
Por precaução
https://www.createspace.com/5386516
ligações
blog participante - Educaá∆o - correntes .jpg
tags

antero

avaliação do desempenho

bancarrota

bartoon

blogues

campanhas eleitorais

cartoon

circunstâncias pessoais

concursos de professores

contributos

corrupção

crise da democracia

crise da europa

crise financeira

desenhos

direitos

economia

educação

escolas em luta

estatuto da carreira

falta de pachorra

filosofia

fotografia

gestão escolar

história

humor

ideias

literatura

luís afonso

movimentos independentes

música

paulo guinote

política

política educativa

professores contratados

público-privado

queda de crato

rede escolar

ultraliberais

vídeos

todas as tags

favoritos

bloco da precaução

pensar o sistema escolar ...

escolas sem oxigénio

e lembrei-me de kafka

as minhas calças brancas ...

as minhas calças brancas ...

reformas e remédios (1) -...

sua excelência e os númer...

posts mais comentados
Razões de uma candidatura
https://www.createspace.com/5387676