Em busca do pensamento livre.
Domingo, 9 de Maio de 2004

 

 

 

 

 

 

 

Primeiro que tudo, e convém esclarecer, 30 horas é uma questão pessoal. Não consigo resumir nada a tão pouco tempo. Sou pouco dado a coisas rápidas. Sonhei viver uma eternidade acompanhado das pessoas que mais amo. A angústia da luta contra o tempo desgosta-me nas horas quase todas. Feitios. Acima de tudo, confesso, gosto da solidão do meu pensamento. Adoro elaborar as ideias. É um prazer indizível. É francamente o meu jogo predilecto.

 

Falar das 30 (ou das 32, ou das 34, ou, mesmo, das 36) horas escolares, engloba a minha, já confessada, sedução pelo tempo. Pela sua inexorável voracidade. Mais do que a impossibilidade do eterno retorno, as aulas escolares sempre me pareceram um saltitar de jaula em jaula. Educámos, educamos e educaremos de acordo com a pressa dos tempos que, entretanto, correm. Com tanta pressa, pela superficialidade ficaremos. Escolarizados e condenados, mas não sages.

 

Tantos – e quase todos - querem ter um lugar ao sol na composição dos programas escolares. Tanto há para ensinar. Incontestável e legítima ambição. Da intuição à retórica, tudo justifica a necessidade de mais tempos escolares. Desde as associações científicas de professores aos sindicatos de docentes, passando pelos membros dos governos ou das respectivas oposições, todos advogaram a favor da redução do número de aulas escolares. Fez escola e foi consensual. O resultado de todas essas consultas e discussões teve, quase sempre, como resultado a manutenção de quase tudo.

 

Os argumentos repetiram-se. Até podemos imaginar um lapidar diálogo. Diz o docente da disciplina x: “Têm que reduzir o número de aulas escolares, nem sei como é que os alunos aguentam isto”. Responde o docente da disciplina y: “Sim, sim. Mas nas aulas da disciplina z, pois nas minhas, ou nas tuas, seria o caos, não te esqueças”.

 

Tarefa inumana para o decisor. Por tudo isto, ser criança em tempo escolar implicará, cada vez mais, uma percepção alargada e cheia de inúmeras imagens. A sua relação com os mestres será efémera. Curtos –muitos e intermitentes- períodos de concentração serão os segredos de uma boa aprendizagem (entretanto, pouco ou nada se sabe sobre a forma como cada um aprende. Mas não compliquemos). A figura do mestre perder-se-á na razão da sua multiplicidade. A criança necessitará de recorrer a fontes mais velozes, associará ao desperdício de tempo a ideia do pecado original. Terá saudades do futuro?

 

Na ânsia do minimalismo economicista, projectado desde as nanoteconologias à magreza corporal, nada escapa a esse círculo estonteante. O “zapismo” da vida leva-nos a esta angústia. Andamos tanto para não sairmos do mesmo sítio (e, no entanto, a ciência avança, todos os dias). É tudo curto, rápido e preciso. Devorar o “Em busca do tempo perdido” de Marcel Proust, sete volumes, cerca de 4000 páginas em “times new roman” 09, ficará fora de qualquer programa escolar. É pena. A eternidade toda, paradoxalmente, em sete volumosos volumes. Volta a ser, novamente, uma questão do universo pessoal. A única revisão curricular – e com as mais variadas posições horárias - está dentro de cada um de nós. Um postulado para a eternidade, digo eu.



publicado por paulo prudêncio às 20:59 | link do post | comentar | partilhar

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25 de Abril de 2004
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