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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

risos e sorrisos

10.05.04
sidney.jpg As actividades desportivas estão cheias de risos. É conhecida a tradicional assembleia de risos provocada pela exibição televisiva dos gestos desportivos mais bizarros. Quando a atmosfera motora exige a perfeição ou o controle milimétrico do tempo, os proscritos são sempre premiados com uma valente salva de gargalhadas. Quem não se riu com a prova realizada pelo nadador africano nas Olimpíadas de Sidney? Sim, aquele que quase morria afogado nos primeiros vinte e cinco metros. Mesmo que se considere, posteriormente, que o jovem da Guiné-Equatorial tinha apenas treinado num charco com vinte metros de comprimento, ou que as suas condições de vida e de treino, estão a anos luz das dos outros concorrentes, esse foi um exemplo flagrante de que ou se ri ou não se ri. E daí só vem bem ao mundo. Mas mais do que rir, sorrir é a questão que agora nos interessa. Digo nós, porque se o meu caro leitor chegou até aqui, então, é só fazer mais um pequeno esforço e vá até ao fim da história. Não sei é se vale a pena. Deste e doutros dualismos viveu o pensamento ocidental. Muitos tentaram, da forma mais erudita possível, diga-se, ultrapassar esta fatalidade. Hegel, Marx e tantos outros, quiseram assegurar o princípio da simultaneidade. Todavia, ninguém foi capaz de encontrar a fórmula mágica. Seria arrasadora, por exemplo, a mestria docente capaz de ensinar em ambiente de pleno riso e sorriso. O riso é imediato, aparentemente ingénuo ou inocente. Rir às gargalhadas só está ao alcance do gesto espontâneo. Por isso, só depois de muito rir, alguém poderá questionar o significado do seu acto. O sorriso, por sua vez, é mais elaborado e claramente mais enigmático. Pode ser de encantamento mas também de troça. Quantas vezes não foi um simples sorriso que mudou o nosso mundo de angustias e preocupações? Quantas vezes não foi um simples sorriso que despertou e absorveu toda a nossa atenção? O sorriso mais saboroso é sempre aquele que ou se prolonga no tempo ou é o resultado de um tempo quase todo. Mas, mesmo no desporto, o sorriso também pode ser elaborado ou prolongado. Lembro-me de um jogo de basquetebol escolar, disputado por intervenientes já muito sérios e profissionais. No início da segunda parte, quando é suposto as equipas trocarem de campo, nada disso foi feito. O equívoco durou uns 30 segundos, mas só uns quantos deram conta. Seguiram-se momentos perfeitamente hilariantes. Colegas de equipa em perfeita discórdia não verbal. Um jogador insistia em meter a bola no próprio cesto, mas era impedido de forma decidida pelo colega esclarecido. Nunca mais o jogo foi o mesmo. Todos sorriam. Estabeleceu-se um clima de perfeita harmonia. Conseguiu-se um momento único de “fairplay”. As teias que o humor tece. Mas eu sou, confesso, um adepto fanático do sorriso. Principalmente, daquele que resulta de um tempo longo de espera, de um jogo de paciência. Privilegio, sem hesitações, os sorrisos provocados pela quebra de um dogma. Qual Galileu ao ouvir o anúncio papal na segunda metade do século xx. Sempre foram trezentos anos de espera. Desculpem fulanizar a questão, mas não resisto a contar-vos mais um dos meus sorrisos. Durante muitos anos, foi norma inquestionável, na Educação Física, a impossibilidade de se tocar nas bolas de Voleibol com os membros inferiores. Um dogma dos verdadeiros. Foram muitos os alunos excluídos, sim, excluídos das aulas por cometerem tal sacrilégio. Nem a leveza sonhadora da bola, acompanhada da sua cor tão branca como a da paz, demovia os docentes mais crédulos. Durante anos, vivi este problema seriamente. Acreditem. Não dar uns habilidosos toques com esta bola ou não poder jogar algo parecido com uma mistura de futebol e de ténis, foram das frustrações mais emergentes na minha carreira como aluno da disciplina de Educação Física. Ao usar, como docente, as bolas de voleibol nas aulas de futebol, por considerar que os meus alunos beneficiariam muito com isso, recebi sempre a incompreensão dos meus colegas de especialidade. Das discussões intermináveis, nunca consegui receber um apoio que fosse. Nem um mísero sorriso. Ao fim de uns anos, sorri. A entidade máxima que regulamenta o jogo decide-se pela possibilidade de se jogar com os pés. Considera mesmo esta decisão fundamental para a evolução do dito jogo. Já falámos de Galileu. E como falar do sorriso dos inquisidores?

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