Em busca do pensamento livre.
Segunda-feira, 10 de Maio de 2004
idades.gif Queiramos ou não, as nossas IDADES e os nossos nomes condicionam-nos em quase todos os dias das nossas vidas. Eleutério Jasmim Florido Sousa dos Santos Silva acreditava estar bem consciente do problema. Era um Homem com uma determinação fora do comum. Tudo na sua vida obedecia a um plano meticulosamente concebido. Ter um filho, por exemplo, era objecto de uma verdadeira preparação. Refira-se como ponto prévio que, Eleutério, provou a ciência anos depois, tinha inscrito no seu código genético uma irresistível tentação para contrariar as decisões de seu pai. Fatalmente, os seus filhos, herdariam esse costume. Está bom de ver que o nascimento do seu primeiro filho obedeceu a um plano digno de ser contado. O dia do nascimento foi escolhido em função do longínquo dia de entrada na escola. O nome, esse outro peso, encontrou-o no meio de uma divagação interessantíssima. Como Homem aprumado, recto, completamente independente e até inquestionável, defendia com unhas e dentes a tese do efeito nefasto que os diminutivos dos nomes exerciam sobre a autonomia das crianças. Afirmava sem hipótese de refutação, que tal era exclusivo da língua portuguesa, e originava um elevado grau de dependência dos cidadãos lusos. Eleutério, de tanto magicar, descobriu para o seu filho um nome impossível de diminuir – Olegário Silva. Não pensem que era só a economia dos nomes, não, era sobretudo a impossibilidade de se chamar alguém de Olegarzinho, ou Olegarinho, ou outro inho qualquer. Afirmaria assim, o seu filho, uma só IDADE no tempo todo. Foi, portanto, neste ambiente que o nosso Olegário Silva foi acrescentando dias e mais dias à sua IDADE. Foi sempre a criança mais azul que terá existido por aquelas bandas. Todos o achavam demasiado desenvolvido para a IDADE que tinha. Conta-se até que, de tanto usar sapatos com atacadores, era de uma precocidade, no seu atar, digna de realce. Ainda no pré-escolar e após a tradicional sesta das crianças, apertava não só os atacadores dos seus SAPATOS, como num abrir e fechar de olhos punha a turma toda de SAPATILHAS bem atadas. Imaginem o seu primeiro dia de escola primária. Uma pose mais direita e mais segura era pedir o impossível. Acrescentem-lhe então, um belo sapato de verniz com dois berloques, meias brancas quase até ao joelho, uns calções bermudas, com dobra, vincados de forma irrepreensível, camisa branca, casaco a condizer e papillon preto. Impressionante. O verdadeiro homúnculo, de que já nos falavam no século XVIII. Decorria tudo como decerto fora planeado. Mas as IDADES mudam, e de que maneira, as vontades. Chegava Olegário à IDADE da escolha profissional. Começava a experimentar os limites da verdadeira autonomia. Reparava, o nosso Olegário, num paradoxo fundamental para o desenrolar da nossa estória. Seu pai, que trajava sempre os melhores e mais elegantes fatos, desatava a usar aos fins de semana e feriados uma roupa um tanto esquisita. Não abandonava o fio de ouro ou mesmo a pulseira do referido metal precioso. Vestia um reluzente fato de treino e passeava alegremente pelas grandes superfícies de então. Que valente fonte de inspiração. Olegário ansiava afanosamente pelo dia da liberdade. E que tal inverter esta coisa toda? Decidiu, vou ser professor de educação física. Usaria, assim, o traje da liberdade. É claro que mesmo um leigo em desporto, pois uma criança de sapatos de verniz não pode ser, em regra, outra coisa, pode, por mais incrível que pareça, ensinar aquilo que nunca aprendeu. Olegário fará prova provada daquilo que acabo de afirmar. No meio de alguma desilusão familiar, embora os profissionais do desporto já tivessem ganho a maiorIDADE, lá conseguiu a sua carta de alforria. Não foi sem esforço que conseguiu fazer o curso. Sempre tinha um “handicap” poderoso. Foi até determinante a disciplina em que foi educado. Aprendeu nos manuais da didáctica da educação física que um bom professor demonstra sempre, e de forma adulta, os exercícios físicos a serem aprendidos. Que desafio. Era uma tarefa inatingível para quem não os exercitou na IDADE adequada. Acrescenta-se, que Olegário também não era talentoso. No entanto, começou a desbravar um novo conceito didáctico, consideremos mesmo um nova teoria da didáctica no ensino dos desportos. Foi recorrendo a inovadoras práticas pedagógicas. Nada exemplificava, mas os alunos quase tudo aprendiam. Era mestre para todas as IDADES. Em todos os desportos conseguia usar o seu método, e, não esqueçamos, as matérias a ensinar eram cada vez mais variadas. Eis que estava no auge da sua sabedoria. Mas não no da IDADE. Recebeu a carta da Caixa Geral de Aposentações. Já não o queriam para nada. De nada valia a sua exímia mestria. Ia para férias o resto da vida. Incompreensível para quem, como se disse, teria a mesma IDADE o tempo todo. Mas não era tudo. Chegou a casa. Abriu a porta e uma voz disse: “Já tens tempo para brincar avozINHO?”


publicado por paulo prudêncio às 22:52 | link do post | comentar | partilhar

1 comentário:
De anónimo a 14 de Maio de 2004 às 11:39
Só agora compreendo, Paulinho.Rui Correia
</a>
(mailto:ruicorreia@iol.pt)


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