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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

a última ceia

08.06.08
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Caminhávamos nos primeiros dias de mais uma primavera. Era o último Abril do século vinte. Dei comigo mergulhado numa teia de contradições. Tinha passado a semana anterior a conduzir ou a participar num sem número de reuniões. Sempre que a oportunidade me abria as portas, apelava a Italo Calvino e às suas seis propostas para o próximo milénio. Aludia, com todas as minhas forças retóricas, e com uma pretensa eloquência, à primeira delas: a leveza.
 
Mas chegávamos a uma, mais do que planeada, terça-feira.

Era o dia da realização de uma reunião, onde ficaria decidido o futuro percurso escolar de uma criança com necessidades educativas especiais profundas. Nunca a tinha visto sequer, nem nunca a encontrei fisicamente. Omito-vos o nome. Mas levava a lição bem estudada. A escola, que eu iria representar, não tinha condições para a receber. Os argumentos eram perfeitamente aceitáveis. Mas sem saber porquê, sentia que carregava um peso enorme. Aquele complexo de culpa tão cristão. Não peques, não mintas, não isto, não aquilo e eu, ateu convicto, vacilava.

Enchi-me de coragem.

Conhecia bem a minha escola, uma básica integrada com o ensino do 1º ao 9º ano de escolaridade, e sabia das dificuldades. Dirigi-me a uma escola de educação pré-escolar. Era perto e não demorei a dar com o sítio. Sim, digo sítio, porque aquilo era só isso. Fui dos primeiros a chegar. Receberam-me num “hall” exíguo e dei de frente com a casa de banho.

A educadora, pessoa excelente, traçou-me o quadro. A aluna não controlava as mais intimas das necessidades corporais. Davam-lhe banho no lavatório e com água fria. Valia, por agora, o sorriso da primavera. Entrei na única sala. Ao centro um “puzzle” de mesas. As cadeiras deixavam-nos quase no chão e com as pernas saturadamente dobradas. Esperei.

Entraram todos. Éramos DOZE. Representávamos as diversas instituições. Professores, psicólogos, assistentes sociais e professores especializados em apoios educativos. A Mãe era a décima terceira. Era a encarregada de educação da aluna. Diz-me a experiência, que, por estes lados e nestas ocasiões, o lado feminino é que vai sempre à luta. Por ironia do destino ficou sentada na cadeira mais alta. A única de adulto. Tinha, no semblante, um espantoso e surpreendente ar de esperança e de tranquilidade. O lado menos masculino de anunciar a boa nova?
 
A educadora abriu as hostilidades. Falou de tudo o que era feito. Com uma transparência digna de quem lida, diariamente, com as dificuldades mais prementes da escolaridade em Portugal. Dizia-o do modo mais alegre e natural que se possa imaginar. No entanto, tinha chegado o ponto final. A aluna tinha que partir. Para onde? Fez-se um estranho silêncio. Seguiu-se um erudito debate sobre a utopia da escola pública inclusiva. Teceram-se os mais elaborados raciocínios à volta da ausência de recursos especializados. Não restavam dúvidas, a verdade entrava-nos pelos olhos dentro. O semblante da mãe não sofria a mínima alteração. Sorria de quando em vez. Anuía a todos os argumentos. Parecia esperar pelo veredicto com uma determinação fora do comum. Só queria um lugar para a sua filha. Conseguiu-se, com cerca de uma hora de reunião, encontrar um caminho. O Centro de Educação Especial Rainha D. Leonor que apesar de todas as dificuldades em que vivia por obra do seu decretado esvaziamento, seria a próxima etapa. Olhei, com toda a minha capacidade de perscrutar o outro, para a Mãe. Ela sorriu e eu agradeci-lhe sem sair de mim. Restabeleceu-me a leveza.
 
(Este texto não é inédito. Foi publicado, em 1999, na revista do Centro de Educação Especial Rainha D. Leonor, em Caldas da Rainha).

2 comentários

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    Anónimo

    07.08.06

    Obrigado. Um abraço do Paulo Prudêncio.
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