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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

poderia o nosso ME ser diferente?

30.07.09

 

 

(encontrei esta imagem aqui)

 

"Poderia o nosso Ministério da Educação ser diferente?


Uma leitora do De Rerum Natura deixou um comentário crítico a um texto que antes publiquei, onde questionava algo da política do Ministério da Educação. Subentendido nas suas palavras estava a ideia de que eu, tal como muitas outras pessoas, rejeito qualquer responsabilidade no (mau) estado da educação, imputando-o directa e linearmente aos decisores políticos.


Tentarei esclarecer, neste texto, que essa está longe de ser de ser a minha posição. O que penso sobre o assunto é bem mais preocupante.


Caso eu considerasse que os males da educação decorriam desta ou daquela equipa governamental, teria a esperança de que, quando ela fosse substituída, algo mudaria, eventualmente para melhor.


Porém, ao fazer um balanço dos tempos mais recentes, percebo que, com oscilações menores, as medidas da tutela e as práticas que delas decorrem, não obstante o ar de inovação e o aparato com que são apresentadas, têm mantido uma constância perturbadora num aspecto que é essencial: a aprendizagem dos alunos


E porque é que, apesar das divergências, os partidos mais à esquerda e mais à direita tendem a dizer ou a fazer o mesmo? Porque, entendo eu, eles sabem que o que dizem e fazem é aquilo que nós, como sociedade, de facto, pensamos e queremos.


Que partido teria coragem de defender que o ensino, mais do que respeitar os interesses e as necessidades dos alunos ao ponto de os tomar como metas educativas, deve modificá-los no sentido do que é tomado por educação desejável? Que a aprendizagem direccionada (só) para o quotidiano social, cultural, étnico dos alunos, descuidando as suas potencialidades cognitivas, empobrece-os intelectualmente; que a aprendizagem cooperativa, de projecto, de pesquisa não pode nem deve substituir o ensino estruturado; que não há garantias que as tecnologias da informação e da comunicação constituam uma grande ou pequena revolução pedagógica; que, por princípio, os encarregados de educação e pais não se devem pronunciar em matéria de ensino formal, pois este constitui uma actividade técnica que só os professores dominam com a competência de especialistas; que as actividades lúdicas e as actividades formais devem estar devidamente separadas e sequenciadas no espaço e tempo escolares; que a noção de escola inclusiva levanta as maiores dúvidas, do ponto de vista de desenvolvimento daqueles que mais dificuldades têm; que as crianças e jovens não devem, em circunstância alguma, avaliar os professores; que a escola a tempo inteiro acarreta problemas dos quais ainda mal conhecemos os contornos; que as câmaras de vigilância nos recreios, em substituição de pessoas, não educam; que o conhecimento tem valor e que a escola não o deve dispensar ou aligeirar em nome seja do que for; que todos os sujeitos têm direito a uma educação elitista, mesmo aqueles que seguem vias profissionalizantes?


Trata-se de ideias impopulares, de crenças que se desviam muito do politicamente correcto, esse modo de pensar que caracteriza o momento que atravessamos e que é um momento “soft”, “relativista”, da opinião fácil, da mobilização em função de conveniências próprias.


Do que afirmei até aqui se deduz que considero sermos todos responsáveis pelo estado em que a educação se encontra e que nos faz interrogar sobre a capacidade de educarmos as novas gerações. Percepção essa que se agudiza em períodos de avaliação nacional e internacional, e que nos faz escrever em jornais e blogues e falar em programas de rádio e de televisão, sem termos a esperança de conseguir mudar muito.


Quando digo que todos somos responsáveis penso em encarregados de educação e pais, professores, autarcas, formadores de professores, "cientistas da educação” (sim, também me incluo), protectores de menores, programadores do ensino, directores de escolas, pessoas com interesses económicos e, claro, os políticos...


Nesta amálgama social faço, porém, uma destrinça entre aqueles que supõem que estão a pensar e a agir em função do bem comum, e aqueles (que os há) a quem convém manter, sem o dar a perceber, um razoável nível de ignorância.


Mais grave é perceber que a situação que acima referi não se restringe às nossas fronteiras. Se lermos autores que lançam um olhar atento para as políticas de ensino de países próximos - espanhola, inglesa, francesa, alemã, etc. - encontramos o mesmo cenário, que D. Schwanitz sintetizou em palavras bastantes azedas: “em poucas áreas se mente tanto como na política educacional e escolar”. E mente-se porque, definitivamente, pouca gente quer saber a verdade.


Livro referido: Schwanitz, D. (2004). Cultura: Tudo o que é preciso saber. Lisboa: Dom Quixote, páginas 25-30.

Postado por Helena Damião aqui"

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