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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

a política dos dez por cento

01.11.05

 

 

 

 

Texto publicado na "Gazeta das Caldas", jornal das Caldas da Rainha, algures em 1992. Em 2005 dei-lhe o título de "a política dos 10 por cento".

 

Porquê? É uma homenagem aos políticos que ainda não acreditam que as coisas bem feitas têm 10 por cento de inspiração e 90 por cento de trabalho.

 

Penso que é hoje consensual a necessidade de se fazer o ordenamento do território, realizando e cumprindo os Planos Directores Municipais, assegurando assim a qualidade de vida das populações e a preservação do meio ambiente.

 

As actividades físicas e desportivas enquadram-se nestes objectivos, não apenas por metáfora ou analogia pertinente, mas também por consenso. Mas será que se percebe ou discute o seu necessário ordenamento? Sabemos que os níveis de desenvolvimento destas actividades são variados (rendimento, lazer e formação), mas os destinatários são todos cidadãos e os indicadores principais são pois, a cidadania responsável e o bem-estar. Analisemos agora em pormenor, o que se passa com as actividades destinadas às crianças e jovens.

 

Importa antes de mais precisar, que penso que a este nível os pincípios orientadores devem ser comuns, pese embora as diferentes instituições que as promovem (clubes, escolas públicas ou privadas, associações,…). O grau biológico do esforço pretendido, o respeito pelos ritmos individuais de aprendizagem de cada um, as características psicossociais deste grupo etário, devem ser em qualquer circunstância escrupulosamente respeitados. Na nossa realidade, o que observamos são os extremos que se tocam, o caos "urbanístico" latente. É frequente e chocante, verificar o que se passa nos quadros competitivos das diversas instituições: escolta policial para os árbitros, uma pressão desmesurada sobre os jovens (com os próprios pais à mistura), "chicotadas psicológicas", falsificação das idades, jogos disputados em recintos não adaptados às possibilidades biológicas dos jovens, instituições públicas sem um mínimo de meios. Acresce ainda, a preocupação de alguns, que começam a falar de crianças maltratadas na especialização desportiva precoce. A política dos equipamentos desportivos, é realizada sem a preocupação de os rentabilizar, funciona com divórcios inexplicáveis.

 

As escolas, sem autonomia e dirigidas por um poder abstracto e através de ofícios ede circulares, são o exemplo acabado do que foi dito, tendo sempre grandes dificuldades em se integrar e servir os interesses das comunidades. As autarquias, procuram ultrapassar as ausências de actividade. Mas como?

 

Vejamos, como exemplo, as Caldas da Rainha.

 

Na escola preparatória e na secundária Rafael Bordalo Pinheiro, as dificuldades para realizar a disciplina de Educação Física e o desporto escolar de acordo com as legítimas aspirações da comunidade, são elevadas, por sobrelotação e ausência de espaços adequados. Sabemos que o horário "nobre" para realizar as actividades com este grupo etário, oscila entre as oito e as dezoito horas. Entretanto, a autarquia construiu um pavilhão na mata da cidade, que durante este período está invariavelmente vazio. Então? Não seria lógico e ordenado que o pavilhão estivesse na escola, gerido sem conflitos de interesses e ao serviço real da comunidade, sendo utilizado depois das dezoito horas pelos clubes? Com base em que estudo, se está a construir uma nova infraestrutura desportiva coberta, junto à universidade da cidade? Quem a vai utilizar durante o dia? Será a nova escola 1,2,3? E nos dias de chuva, em aulas de educação física de 50 minutos intervaladas por períodos de 10 minutos das restantes aulas, como é que os jovens se deslocam? Quem faz a gestão criteriosa das necessidades reais de equipamentos? Bom, estas e outras respostas deveriam ser dadas pela política participada de ordenamento.

 

Espera-se da escola, que facilite ao jovem depois de 12 anos de escolaridade (cerca de 700 horas de aulas de educação física), os conhecimentes e hábitos suficientes, que o levem a construir o seu próprio programa de actividade física (como vai à biblioteca escolher o livro sem o professor respectivo), que saiba escolher dentro das ofertas que recebe quais as que o beneficiam verdadeiramente e com atitudes e valores conducentes a uma cidadania responsável.

 

Espera-se do desporto escolar, um forte contributo na formação desportiva e integral dos jovens.

 

Espera-se do professor, que continue entusiasmado, que saiba gerir os seus conflitos com o sistema, mantendo a atenção e a lucidez para tentar ser feliz.