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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

acertar no alvo (reedição)

07.10.08
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Primeira parte.
 

Escrever um texto para quem nos conhece é uma tarefa que pode atalhar muita tecla, e como estamos em tempos de alucinantes combates ao despesismo...

Só resolvi voltar a abordar estes assuntos - quais assuntos? diz o leitor; continue a ler que já percebe do que se trata - depois de se aproximar a irrevogável verdade do calendário gregoriano: estamos a uma hora do dia 23 de Novembro de 2005 (não se surpreenda, sei que estamos em 2008, mas este texto é um reedição, pode continuar). Volta a não entender? Meu caro leitor, sou professor e o subsídio de natal entra a 23. Não vá alguém que não me conheça, inspirar-se e decidir-se a seguir a politica alemã. Vou editar este texto apenas cinco minutos antes da meia-noite. Mas voltemos ao início. Quem me conhece imagina a vontade que tenho em escrever sobre o tema actual da vida das nossas escolas: as aulas de substituição. Apesar de tudo, vi ontem um esperado programa televisivo de “prós e contras” - 21 de Novembro de 2005 - sobre o tema da actualidade mediática.

Fiquei enjoado, desculpem-me a franqueza. Fala-se de ilhas, de despachos, de nivelamento por baixo e das necessidades de socialização dos jovens; aplaude-se aqui e acolá de modo clubista e pouco olímpico. Fala-se, fala-se, fala-se, fala-se... Tem de falar-se e ainda bem, com todas as reservas que se possa ter dos benefícios desta democracia tão mediatizada.

Fiquei enternecido com o professor David Justino, ex-ministro da educação. O seu primeiro e principal alvo foi a gestão escolar. Advogou a ideia do gestor profissional. Lembro-me bem de uma sua confissão, enquanto ministro: “

"só não contrato gestores profissionais porque não tenho dinheiro para lhes pagar
”.".

Agora diz:

"não são os homens que estão em causa, mas sim os procedimentos profissionais de gestão. Os professores podem e fazem isso muito bem."”

Corrigiu o alvo enquanto ex-ministro. Demasiado tarde. Os alvos estudam-se antes e devem orientar-se por princípios autênticos e genuínos. A "chico espertice" e os oportunismos compulsivos só não são visíveis para os próprios. Das aulas de substituição fico com a mesma ideia: alvo desejável desde que bem estudado e por isso muito simplificado. E o que vem por aí. Não se augura nada de bom.

Mas resisto à tentação. Poupo-me, se me permitem, a ousadia. Lembrei-me da ideia de acertar no alvo. Tirei logo as minhas conclusões. Mas, meu caro leitor, desafio-o a tirar as suas depois de ler a história que lhe vou contar. Ora leia.

Segunda parte.

É um desejo que se repete na efemeridade da vida humana: acertar no alvo. Sempre que um ser qualquer perscruta na memória os momentos da necessidade de uma exímia pontaria, emergem imensos quadros onde os desafios de acertar no alvo se sobrepõem; nem que apenas umas pequenas pedras tenham sido o instrumento e o desafio.

Lembro-me de uma história arrepiante, feita da mais completa persistência e finalizada com um raro exercício de lucidez: a história de um pistoleiro olímpico: lusitano, português, atleta de alta competição na modalidade de tiro com pistola de ar comprimido.

Foram anos e mais anos de um treino intensivo: quatro a seis horas diárias de tiros ao alvo. Sacrifícios na vida com os mais próximos e despesas nem sempre devidamente apoiadas.

A imposição do desígnio assume um carácter colectivo e verdadeiramente idiossincrático: a medalha olímpica dissimula a fusão, diz-se, com o equilíbrio sábio da natureza.

O nosso atirador alimentava sérias e fundadas expectativas. Partiu rumo ao sonho. Não sei se o leitor já viu o espectáculo olímpico de uma prova destas: num salão muito sofisticado, os atiradores tapam os ouvidos com uns aparelhos que os isolam de todos os ruídos da natureza e usam umas pistolas que nem parecem deste mundo. Aos leigos, como eu, dá ideia de que a bala já decorou o seu caminho e o seu destino.

Dá a sensação que a haver falha ela nunca será do homem. Nas provas, alinham-se atletas carregados de práticas e de esperanças e os alvos devidamente numerados - são os seus únicos espelhos. Ganhar ou perder fica na mão da mais mínima das falhas. Sem desperdício que se veja.

O nosso atirador excluiu-se do modo mais inacreditável. Depois de ter passado as primeiras eliminatórias, encarou, cheio de ambições certas e renovadas, uma das fases mais adiantadas da competição. Depois de mais um conjunto de tiros exímios eis que o seu alvo fica em branco. A impossibilidade exaltou os seus olhos: os tiros tinham desaparecido. Desfeito o equívoco, concluiu-se que tinha conseguido um feito inédito e de falida generosidade: acertou todos os seus disparos no alvo do atirador do lado. Enganou-se. Ouvi-o dizer que desiste. Nunca mais voltará a ser um atleta olímpico. Não sei se mantém a firme certeza, mas pareceu-me perfeitamente convicto. “


 





(Reedição. 1ª publicação em 23 de Novembro de 2005. Reescrito
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