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Correntes

em busca do pensamento livre

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elegias

08.01.06

elegias.jpg Rainer Maria Rilke escreve uma poesia que demora a perceber. Dá trabalho. É sublime. É um dos meus poetas preferidos. Uma das suas obras maiores, "as elegias de Duíno", confunde-se com a aura do local onde elas tiveram o seu início: o castelo de Duíno (na imagem que acompanha este texto). Perto da cidade de Trieste, sobre o Adriático, ergue-se este magnífico castelo, quase inacessível. Fiquem com uma parte - tradução de Maria Teresa Dias Furtado - da primeira elegia. Se eu gritar quem poderá ouvir-me, nas hierarquias dos anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua natureza mais potente. Pois o belo apenas é o começo do terrível, que só a custo podemos suportar, e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha destruir-nos. Todo o anjo é terrível. Por isso me contenho e engulo o apelo deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia valer? Nem Anjos, nem homens, e os argutos animais sabem já que nós no mundo interpretado não estamos confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez uma árvore na encosta que possamos rever diariamente; resta-nos a rua de ontem e a fidelidade continuada de um hábito, que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu. Oh, e a noite, a noite, quando o vento, cheio de espaço do universo nos devora o rosto -, por quem não permaneceria ela, a desejada, suavemente enganadora, que com tanto esforço se ergue em frente do coração isolado? Será ela para os amantes menos dura? Ah, um com o outro eles se ocultam da sua própria sorte, apenas. Publicado por Paulo Guilherme Trilho Prudêncio.