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Correntes

em busca do pensamento livre

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professor bartleby (1)

06.03.09

 

 

 

(encontrei esta imagem aqui)

 

 

 

Há concordâncias muito engraçadas: noutro dia, uns colegas e amigos da minha escola, convidaram-me para uma ida ao Centro Cultural de Belém para ouvir a leitura de umas cartas de amor trocadas entre Hannah Arendt e Martin Heidegger; durante as viagens, e no apressado jantar, conversámos de modo animado; lembro-me de ter trazido às trocas desinteressadas dois escritores que nunca esqueço: o filósofo Giorgio Agamben e Herman Melville, o célebre autor do conhecido "Moby Dick" mas também do genial "Bartleby".

 

Antes do regresso às Caldas da Rainha demos uma saltada ao excelente espaço de fruição cultural que é antiga Fábrica de Braço de Prata. Ouvimos um concerto de jazz, bebemos qualquer coisa e vasculhámos uma ou outra das livrarias.

 

E não é que dei com uma obra, de 2006, e que não conhecia, de Giorgio Agamben, onde o mote é precisamente o "Bartleby" de Herman Melville. Adquiri o livro e devo confessar que fiquei em pulgas para ler o que o conhecido filósofo tinha para me dizer.

 

"Bartleby, Escrita da Potência", "Bartleby, ou Da Contingência" seguido de "Bartleby, O Escrivão de Herman Melville" de Giorgio Agamben, edição de Giogio Agamben e de Pedro A. H. Paixão, da colecção "disciplina sem nome", é da Assírio & Alvim (2006).

 

E, como era de esperar, a obra tem muito que se lhe diga. Por isso, decidi-me a abrir um nova rubrica no meu blogue com a intenção de voltar ao assunto. Por agora, ficamos pela número um do professor Bartleby. Não que a personagem de Herman Melville fosse um professor. Não; Bartleby era um jovem escrivão, ou copista de coro, que exercia as suas funções num próspero escritório de negócios.

 

E podemos começar assim: certo dia, Bartleby, e ao pedido do seu chefe para uma ida aos correios, profere o célebre "preferiria de não" (I would prefer not to). E assim continuou, nem sempre com a resposta no condicional; certa vez usou mesmo o presente do indicativo.

 

O escrivão decide-se também a não escrever, a sequer copiar, e mantém essa decisão nas mais variadas situações até para as ofertas de outros empregos por parte do seu desesperado chefe.

 

E a partir desta primeira entrada sobre o assunto, quero estabelecer uma associação do que acabei de descrever com o notável comportamento de muitos dos professores portugueses. Colocados perante a obrigatoriedade de escrever relatórios "kafkianos" ou de preencher grelhas inenarráveis, mesmo que com a majestática sugestão da cópia, decidem-se pelo "preferiria de não". E muitos deles fazem-no numa difícil condição e nos ambientes mais adversos. Presto-lhes, assim, a minha sincera homenagem.

 

Voltarei ao professor Bartleby.

 

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