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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

não lectiva

15.02.09

 

 

 

 

Um das primeiras medidas do actual governo do partido socialista, e no que às políticas educativas diz respeito, foi a de incluir na componente não lectiva as horas destinadas à maioria dos cargos que os professores exerciam nas escolas: ou seja, um professor que beneficiasse da justa redução da sua componente lectiva (considerando a sua idade e os seus anos de serviço) passava a ter que destinar essas horas ao exercício dos cargos para que foi eleito.

 

Com essa medida associada a uma ou outra variável do género, o governo reduziu entre 12.000 a 20.000 o número de professores necessários.

 

Claro que se pode argumentar com o nivelamento por baixo da medida, uma vez que havia muitos professores que exerciam os cargos com uma absoluta dedicação e profissionalismo; mas foi um primeiro contributo para redução do défice orçamental, digamos assim.

 

Todavia, o pior veio a seguir.

 

Com a desastrosa ideia da escola a tempo inteiro

 

- considero que as escolas também devem contribuir para a "guarda" das crianças, mas nunca sem o contributo do resto da sociedade, nunca num modelo igual para o país todo numa lógica de absurdo centralismo, e só em situações de comprovada excepcionalidade -

 

associada ao processo monstruoso de amontoados de escolas

 

- há quem ainda não tenha percebido, pelo menos assim parece, que o eufemístico processo de agrupamento de escolas apareceu para objectivar a ideia de armazém -

 

muitos dos professores com mais redução da componente lectiva viram essa horas preenchidas com actividades de "guarda" a crianças exaustas e ao final da tarde. Desastroso.

 

Lidei de perto com isso. Conheci excelentes e dedicados professores na casa dos 50 aos 60 anos, que depois de, por exemplo, dois blocos de 90 minutos de aulas ainda tinham de aguardar pela sorte seguinte numa lógica de "roleta russa", e num raio com "kilometragem" variável, e onde teriam de inventar um passar de tempo sem qualquer preparação prévia para ajudarem a cumprir o desígnio da escola a tempo inteiro na versão voluntarista e de missão de quem entendeu as críticas a esse modelo como argumentação corporativa e preguiçosa.

 

E o que fizeram esses professores? Olharam aterrados para o seu futuro e fugiram com a penalização que lhes quiseram impor.

 

Uma tragédia irreparável idealizada por gente de impreparação mais do que comprovada. E como se disse e como se está a ver, este conjunto de políticas em nada beneficiou os interesses dos alunos mais pequenos; bem pelo contrário.

 

(O primeiro comentário a esta entrada é da minha colega e amiga Isabel Sousa e Silva. Deve ser lido. Diz assim:


"Para além de muitos professores terem fugido com penalização, há ainda o facto de a nível do 1º ciclo haver muitos professores a fazerem 27h com meninos, o que para além de tremendamente injusto é de um desgaste enorme. Isto para não falar nos malefícios que são, para as crianças, tantas horas fechadas no mesmo espaço.
Tenho como sabes muitos anos de serviço e nunca tive alunos como agora, desde que se passam 9h na escola. É impressionante o número de crianças stressadas, desconcentradas, cansadas... que hoje existem.
Se te disser que dos três alunos que enviei para a consulta de desenvolvimento, dois já foram vistos e vieram medicados, acreditas? E só enviei 3, por enquanto.
Faço parte do grupo de professores que, brevemente por certo, fugirá também, embora penalizada, mas, para guardar meninos, prefiro guardar o meu neto. Quanto eu gostava de poder salvá-lo desta atrocidade."

 

Força aí Isabel.)

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