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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

"O que devia ter sido reivindicado (mas nunca será...)" - Mário Silva

28.11.23

Recebido por email devidamente identificado.

"Os sindicatos reivindicam a recuperação de 6 anos de serviço, suspensos durante o período da troika, mas isso só repõe parcialmente a perda. Recuperando o tempo de serviço de modo gradual apenas recupera uma percentagem pequena da perda financeira. Mesmo que a recuperação fosse dos 6 anos no imediato, também haveria uma perda significativa. Cálculo:

- docente no 3º ano do 6º escalão, com 55 anos. Recuperação gradual de 1 ano e alguns meses durante 5 anos = terá 65 anos quando entra no 1º ano do 10º escalão.

- docente no 3º ano do 6º escalão, com 55 anos. Recuperação imediata dos 6 anos = passa para o 1º ano do 8º escalão. Terá 63 anos quando entra no 1º ano do 10º escalão.

Em ambos os casos usufruirá do 10º escalão durante muito pouco tempo.

Qual deveria ser a reivindicação? Ser colocado no escalão correspondente ao tempo de serviço. No exemplo dado, o docente com 30 anos de serviço seria colocado no 1º ano do 9º escalão. Aliás, um sindicato disponibilizou um simulador no site que se baseia no tempo de serviço e qual o escalão em que deveria estar com esse tempo. No entanto, a política partidária impediu a exigência desta reivindicação e optou pela recuperação gradual, com o argumento de não hostilizar a população, e portanto, mantém uma perda financeira colossal. E mesmo que esta reivindicação fosse satisfeita, teria havido uma perda irreversível de milhares euros causada pela suspensão durante vários anos. Ou seja, a verdadeira justiça seria a colocação no escalão correspondente ao tempo de serviço e receber todo o dinheiro retirado durante os anos da troika (corte 3,5% salário base + subsidio férias e natal + taxa adicional).

Antes da troika e da reestruturação da carreira, os docentes entravam no 10º escalão, em média, com 55 anos.

Conclusão: toda aquela população docente acima dos 45 anos terá uma perda financeira brutal definitiva, que se repercutirá estrondosamente no valor da pensão de reforma.

Mário Silva"

Pensar o futuro no país que desistiu do professor, com o contributo dos professores

27.11.23

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Pelo Público em 27 Novembro de 2023. Como acordado, o texto está publicado no blogue.

Título:

Pensar o futuro no país que desistiu do professor, com o contributo dos professores

Texto:

As políticas inspiradas nuns rapazes de Chicago triunfaram em toda a linha, e o capitalismo democrático tornou-se incapaz de redistribuir melhor e remunerar bem o emprego. Martin Wolf, do Financial Times, resume o desespero: "estamos numa batalha para convencer as pessoas que a democracia é o melhor sistema”. O regime está ameaçado a partir do seu interior e do topo. Olhe-se para as eminências instaladas e para os pequenos tiranetes: crescem em número, sentem-se impunes e julgam-se invisíveis. Não se culpe os extremos nem a rua pela corrosão. 

A Educação está no centro do turbilhão, e a escola faz escola. Pensar o seu futuro exige recuar à natureza das coisas e às causas da falta estrutural de professores e do aumento brutal das desigualdades educativas: cortes na percentagem do produto interno produto para a Educação (PIBEd); cheque-ensino ou políticas afins, com o Orçamento do Estado (OE) a financiar fracassadas empresas privadas da Educação; carreira de dirigentes escolares organizada em associações de classe e desligada do ensino real; sobreposição dos encarregados de educação nas decisões científicas e pedagógicas do professor; avaliação do professor baseada nos resultados dos alunos em exames - e remunerações em função disso - e com uma insana burocracia de prestação de contas; eliminação das reprovações, sem respostas não administrativas para os alunos "que não queriam aprender"; e racionamento curricular nos saberes humanísticos e artísticos, com quebra na qualidade das aprendizagens.

Esse vendaval chegou à Educação portuguesa nos governos de Durão Barroso e de José Sócrates, e a abordagem escolar dos 50 anos do 25 de Abril será em revolta contida. Objectivamente, a percentagem do PIBEd desceu, entre 2000 e 2021, de 6,3 para 4,6 e a perda do poder de compra no ensino será de 30% em comparação com 2009. 

E apesar de tanta incerteza com o futuro, afirme-se que o país político desistiu tão estruturalmente do professor como imperativo democrático que o tornou irrecuperável na próxima década. Com o desprezo a eito da sua autoridade científica e pedagógica, mais de 80% dos que exercem a profissão não a aconselham e fariam o mesmo David Mourão Ferreira, Rómulo de Carvalho, Vergílio Ferreira e tantos outros que leccionaram no ensino não superior.

Foram duas décadas com o professor a tentar elevar aprendizagens em ciclos curriculares radicais e antagónicos - mais à esquerda ou mais à direita - capturados pelo ultraliberalismo. A Educação caiu para a terceira divisão do debate parlamentar e da orgânica dos governos. O substantivo professor só foi proclamado para transformar o ressentimento em votos. 

A exclusão do professor apoiou-se no quarto poder; e se esse pilar não se escandalizou, também se definiu. O silêncio de analistas e comentadores só foi interrompido para criticar com veemência os naturais excessos em tantos e tão numerosos protestos. Aliás, não se nega o óbvio: há professores pouco educados, como nas restantes funções e profissões, com a deseducação a integrar os crimes de falsificação de documentos, dolo, tráfico de influência ou peculato. Mas as análises e opiniões nunca se centraram no essencial: desinstalar o quadro radical vigente.

A bem dizer, convoque-se a descontinuação da escola do caudilhismo, da parcialidade, do clientelismo e da apropriação arrivista dos cargos e do bem comum, como rampa de lançamento dos valores que degradam a democracia nos vários patamares e instituições. Recupere-se a escola como o laboratório da democracia, que faz da ética e da idoneidade os valores preciosos à prova de uma justiça que ainda é lenta e ineficaz.

Retome-se a confiança na palavra do professor. A doentia burocracia resultou dessa desconfiança. Prevaleceu uma espécie de "mangas-de-alpaca 2.0", que transferiu para o digital a infernal Babel administrativa dos procedimentos repetidos, redundantes ou inúteis.

Reconquiste-se três imperativos democráticos na gestão das escolas: limitação inequívoca de mandatos, colegialidade e cadernos eleitorais abrangentes para sufrágios directos e universais. Efectivamente, os maiores inimigos do professor foram os próprios professores. Maria de Lurdes Rodrigues - numa entrevista, na RTP1, em 09.11.2008, ano da histórica manifestação de 8 de Março que envolveu a maioria dos professores - insere numa frase toda a argumentação deste texto: "Manifestaram-se para também intimidarem os que ficaram na escola a aplicar as políticas".

Por outro lado, em Educação acerta-se quando se afirma que daqui por vinte anos veremos os resultados. Só que essa clareza manifesta tem desvantagens. Livra os governos, e o poder político, do julgamento em tempo útil e só os desespera em duas situações: quando não há professores para os alunos todos ou há eleições.

Em suma, a Educação promoveu as novas armas das democracias: divisão e separação. Foram duas décadas a consolidar o ambiente distópico da desconfiança, da desigualdade, do sofrimento e da autocracia. O momento é moralmente crítico. Crescem os extremismos e temem-se dias ainda mais tristes. A libertação exige o regresso ao equilíbrio, à esperança e à não desistência. Crie-se um novo organograma e um clima saudável. Há soluções sustentáveis. Estude-se o que aqui se propôs antes das últimas legislativas e recomece-se.

 

Universo escolar e plataformas digitais

27.11.23

Não é surpreendente que se apontem as "empresas externas" (o outsourcing e as plataformas digitais) como uma das componentes mais desfavoráveis nas organizações modernas. A opção facilitou o aumento da escala, mas desprezou a gestão de proximidade como valor precioso e inalienável. A "gestão do exterior" satisfez os investidores porque permitiu a subida dos lucros com a redução de profissionais. Essa supressão cerebral (na maioria dos casos, e incluindo o escolar, sem qualquer relação com a 4ª indústria ou com a robotização) deslocou para o exterior a definição da informação a obter.

As instituições deixaram de agir livremente sobre os sistemas de informação. Foi uma dupla perda: se antes o poder era exercido por quem decidia sobre o financeiro, a partir daí surgiu um pólo paralelo: a informação. A "gestão do exterior" apoderou-se dos dois domínios e pode sempre argumentar: "é uma boa ideia, realmente, mas impossível de concretizar".

A dependência externa generalizou-se. Como disse Niklas Luhman, o homem perdeu "a posição de centralidade no organismo social e foi remetido para o exterior, passando a fazer parte do meio ambiente do sistema. Tornou-se uma causa para o aparecimento de problemas constantes e de complexidades crescentes" (com mais visibilidade, no caso escolar, para professores e restantes profissionais, mas com consequências para os alunos).

 

Já usei parte desta argumentação noutros textos.

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