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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

A justiça a fazer figura de recurso

30.04.23

O que seria de nós sem o humor. Numa semana em que a comunicação social salientou - e para além dos efeitos da Inteligência Artificial e do capitalismo da vigilância - que Daniel Ziblatt questiona se a democracia está a morrer dizendo que "os eleitores votam a favor do que é real e que os partidos políticos - e em vez de tentarem agir de forma demasiado populista para apelar a estes eleitores - têm de encontrar soluções reais para problemas reais", o humorista Ricardo Araújo Pereira apresenta um ângulo bem real - e para lá do entretenimento com a espuma dos dias - do que também corrói a democracia e as suas instituições:: "está na altura de aceitarmos que o sistema funciona assim: os processos arrastam-se durante décadas, o acusado acaba por não ser julgado, o processo é arquivado pelo neto do magistrado que o instaurou".

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Até parece que Michael Sandel está a analisar o SIADAP em Portugal e a barbaridade das quotas e vagas

29.04.23

Até parece que Michael Sandel está a analisar o SIADAP em Portugal - que tem o modelo aplicado aos professores como a suprema aberração do todos contra todos e em todo o lado - e a barbaridade das quotas e vagas.  

No 24.sapo.pt, numa entrevista a Rute Sousa Vasco, declara que "estamos ressentidos porque não somos valorizados e não apenas porque ganhamos mal. Não se trata de não premiar o esforço, mas sim de dar valor à forma como diferentes profissões e atividades contribuem para o bem comum. É também por aqui que passa o combate ao populismo e a contestação às políticas dos últimos 40 anos". 

Na "Grande Entrevista", (RTP3) com Vitor Rodrigues, usa como exemplos os professores, os médicos e os enfermeiros.

Na Revista do Expresso, diz ao parcial David Dinis "que uma sociedade baseada no mérito está destinada ao fracasso e critica duramente o capitalismo dos nossos dias e os partidos mainstream — particularmente os de centro-esquerda." (o entrevistador é pouco rigoroso também no título: “A esquerda alienou a classe trabalhadora”. Aliás, o próprio Sandel diz na primeira resposta: "Nas últimas décadas, muitos partidos do centro-esquerda, assim como do centro-direita, abraçaram uma versão neoliberal da globalização do mercado(....)")

 

 

Estará a democracia a morrer?

28.04.23
«O que faz aumentar este número, são as crises económicas, as crises de imigração, grandes mudanças demográficas nas populações», explica o especialista em democracias, Daniel Ziblatt.
Os eleitores «votam a favor do que é real». Em vez de «tentarem agir de forma demasiado populista, para apelar a estes eleitores», os partidos políticos «têm de encontrar soluções reais para problemas reais».
 

O ressentimento dos professores tornou-se estrutural

27.04.23

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Sindicatos, Governo, partidos políticos e comunicação social afastam-se da semântica do protesto dos professores e tornam-no interminável. E isso explica-se, em parte, pela velocidade dos tempos associada às sínteses apressadas e à impaciência, na bolha mediática, para explicações sem soundbites. Por outro lado, é fundamental não esquecer que esta explosão começou com a ideia de se passar os concursos para a escolas. 

A bem dizer, é óbvio que os professores não abdicam muito justamente da recuperação de todo o tempo de serviço para todos e da eliminação de vagas nos 5º e 7º escalões. Mas quando repetem à exaustão que não confiam e que exigem respeito, é porque "a falta de democracia na escola é a mensagem cimeira". O medo de serem incomodados nas escolas impede a expressão clara desse sentimento.

O ressentimento - acrescentado a um tríptico de "fuga", cansaço e revolta contida -, provocado por uma avaliação que é uma farsa meritocrática e aplicada por um modelo de gestão que abriu portas à autocracia e ao amiguismo, tornou-se estrutural. A sua eliminação não carece de investimento financeiro; pelo contrário: reduz despesa, desde logo nas baixas médicas e na restauração da democracia. Mas mais: recupera "fugitivos" e a atractividade da profissão; e de acordo com os estudos, os jovens professores transformam-se em "fugitivos" na primeira ocasião.

Bem sabemos que sindicatos e partidos se financiam na formação especializada - em regra irrelevante - em avaliação, supervisão pedagógica, e administração educacionais e que estão acomodados aos seus interesses corporativos. Mas é tempo de mudar. O ressentimento radicaliza eleitores.

Aliás, repare-se com atenção na ordenação das primeiras 10, de 25, reivindicações dos professores:

1. recuperação do tempo de serviço;
2. eliminação de vagas 5º e 7º escalões;
3. eliminação de quotas;
4. burocracia - redução;
5. gestão - alteração do modelo;
6. aumentos salariais;
7. avaliação alteração do modelo;
8. reposicionamentos 4º e 6º escalões;
9. aposentação;
10. revisão Decreto-Lei n.º 41/2022: mobilidade por doença.
 
Nota: É o estudo mais robusto sobre o assunto. É recente. Foram mais de 10.000 respostas obtidas e tratadas por Alberto Veronesi, Lígia Violas e Paulo Fazenda.
 

O Correntes Faz Hoje 19 anos

25.04.23

Gosto muito de ter iniciado o blogue em 25 de Abril de 2004 e conversava com um amigo de longa data a propósito disso e das coisas da vida de que nos orgulhamos.

No meu caso, orgulho-me é da relação com as duas grandes mulheres que estão comigo na imagem: a minha mulher e a minha filha.

Claro que também me orgulho da relação com familiares e amigos; e de outros aspectos: aos 18 anos, e pela mista condição de imigrante e refugiado político, vivi anos difíceis para conjugar a obtenção de rendimentos com o estudo. Digamos que "vim de longe (...) o que eu andei para aqui chegar".

E também me orgulho do modo como exerço funções públicas e da relação com colegas, outros profissionais da educação, alunos, encarregados de educação e tantos outros cidadãos dos sítios por onde passei; e no desporto também, onde mantenho a relação com amigos de longa data.

É evidente que esta segunda pele, o blogue, trouxe-me 19 anos de relações inesquecíveis, de amizade e profissionais, que de outro modo seriam improváveis; e orgulho-me disso também e de tudo o que originou.

Obrigado por passar por aqui.

25 de Abril sempre!

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Devolva-se a escola aos professores e cumpra-se Abril, antes que a máquina o impeça

24.04.23

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Pelo Público em 24 de Abril de 2023. Como acordado, o texto está publicado no blogue.

Título:

Devolva-se a escola aos professores e cumpra-se Abril, antes que a máquina o impeça

Texto:

Nem o mais pessimista diria que 49 anos depois do 25 de Abril estaríamos nesta queda da escola pública. É difícil apresentar conclusões nos estudos sobre educação, mas a falta de professores - e a sua precarização e proletarização - é uma ilação irrefutável que recupera a exigência de cumprir Abril.

E por mais que políticos, financeiros e pedagogos prognosticassem a subalternização do professor, a realidade contrariou-os. Aliás, o digital na pandemia reforçou o seu papel e a Inteligência Artificial sublinha-o com um sério alerta: a máquina poderá dominar os humanos e o ensino das massas.

Para se sistematizar o debate, e como quase tudo começa nos EUA, "repita-se" sumariamente dados de Nova Iorque, e não tarda da Lapa de Lisboa e da Foz do Douro do Porto: as principais faculdades matriculam mais estudantes dos 1% mais ricos do que dos 60% com menos rendimentos; paga-se 66.200 euros de propinas anuais nas escolas para ricos, enquanto o investimento nas públicas é de 13.200 euros; contrata-se explicadores do secundário por 880 euros a hora; o aumento brutal das desigualdades educativas é maior do que no Apartheid americano em 1950.

Acima de tudo, privilegia-se escolas para ricos, com propinas elevadas, turmas pequenas, currículos completos, uso sensato do digital sem viciar no desperdício de tempo e professores imprescindíveis. Em contraposição, as escolas dos restantes têm conteúdos digitais massificados, turmas numerosas, currículos mínimos e professores como guardadores "uberizados" (o "desatento" Governo português acaba de o acentuar nos concursos).

A bem dizer, o imparável ultraliberalismo, aplicado nas últimas três décadas pela generalidade dos governos dos EUA, do Reino Unido e da Europa, não recentra as políticas educativas nem abandona a febre comparativa do todos contra todos e em todo o lado; pelo contrário. Não há, sequer, espaço para dilemas.

Mas voltando ao título deste texto, debata-se as causas da desvalorização do professor, nomeadamente a aura pedagógica que sustentou os cortes financeiros, e proponha-se caminhos possíveis. E antes do mais, repita-se que se deve aos professores a melhor ideia das democracias - a invenção da escola pública - assente na intemporalidade do ensino e da moderação, como acentuam as neurociências e a psicologia cognitiva.

Salvo melhor opinião, a desvalorização do professor foi um erro histórico participado por pedagogos. Advogou-se, como inclusivo, o radicalismo da escola centrada na aprendizagem, em oposição à escola que, por cá, se afirmou na ditadura. Foram extremos que se tocaram. Confundiu-se pedagogia com ideologia.

Verdade seja dita que se ignorou os avisos (década de 1980) de que a democracia exigia dos professores a selecção dos conteúdos (com conhecimentos, destrezas, valores e atitudes), e das formas de avaliação, que ultrapassaria a relação contraditória com os alunos. Desconstruíram-se três teses que ainda hoje se confrontam: a da harmonia, do psicoterapeuta Carl Rogers, baseada em relações individualizadas e empáticas, mas inaplicável em turmas; e duas de desequilíbrio: magistercentrismo (o professor rei de Alain, Dewey e Durkheim) e pedocentrismo (o aluno rei de Freinet, Montessori e Summerhill).

Além de tudo, e é hoje cientificamente mais claro, há diversos estilos para ensinar, mas é mais correcto falar em ignorância do que em conhecimento no que se refere ao modo como cada um aprende. Se na investigação é imperativa a busca desse conhecimento, nas políticas educativas requer-se equilíbrio e prudência. Inclusivamente, a destemperada centralidade na aprendizagem inscreveu um diabólico aprender a aprender como uma espécie de absurdo assente em desconhecer a desconhecer ou ignorar a ignorar. Confundiu-se ciência com o valor moral positivo dado ao estímulo para aprender, agravado com a hierarquização de estilos de aprendizagem.

A partir de dado momento, não era inclusivo treinar as memórias de médio e longo prazos nem estimular a repetição, o estudo em casa, a atenção nas aulas e até o respeito pelos professores. Nem sequer se valorizava o número de alunos por turma e perdeu-se também a articulação com a sociedade em áreas fundamentais como a saúde mental, as emoções e o sono. Aliás, o ensino superior, que "desapareceu" da formação contínua, impôs, na formação inicial, um vazio no treino de professores que aumentou o desconhecimento sobre estilos de ensino.

Por outro lado, acentuou-se o erro com a generalização nos serviços centrais do Ministério da Educação (foram anos a fio de uma mistura desastrosa de prateleiras douradas com emprego partidário) da cultura antiprofessor e anti-sala de aula. Alargou-se a escolas e sindicatos e abriu portas a modelos autocráticos. Resultou ainda na infernal burocracia que eliminou o que restava da "confiança nos professores".

Em suma, a falta de professores estruturou-se. Devolver-lhes a escola exige mudar as inalteradas políticas - na carreira, avaliação e gestão das escolas - aplicadas até 2009. Trata-se de duas recuperações: de quem "fugiu" e da atractividade do exercício. Mas será difícil. Os endeusadores da concorrência desenfreada não se comovem com fraquezas e depressões. No ultraliberalismo domina a selecção natural. Sobrevivem os fortes, a quem se promete a riqueza material. As massas de perdedores são recursos à mercê da gestão financeira que espera pela substituição de professores por máquinas numa tele-escola 2.0.

Pois bem, aclame-se que a hermenêutica de Abril começa com a decência no uso do bem comum. Não é belo deixar tanta desigualdade às próximas gerações, até porque a revolta de eleitores será ainda mais caótica se combinada com o domínio das máquinas e o poder de autocratas. Cumprir Abril é devolver à escola a democracia e os seus professores enquanto há tempo num tempo tão incerto.

[Cenário 3 da OCDE]

23.04.23


"[Cenário 3 da OCDE]





Hábitos enraizados como dar notas aos alunos desaparece e aprender passa a ser uma atividade de todo o dia orientada por profissionais da educação, mas nem sempre dentro dos limites das salas de aula e das escolas.

As escolas estão abertas à participação de profissionais não docentes no ensino: atores locais ou parentes são bem-vindos à escola, assim como parcerias com instituições, como museus ou bibliotecas.

No entanto, "os professores atuam como engenheiros de atividades de aprendizagem em constante evolução, e a confiança no profissionalismo dos professores é elevada", refere o relatório, sublinhando que "os professores com forte conhecimento pedagógico e ligações próximas a múltiplas redes são cruciais".

 


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