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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Quino (1932-2020)

30.09.20

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"Joaquín Salvador Lavado Tejón, mais conhecido como Quino, foi um pensador, historiador gráfico e criador de banda desenhada."

Nota: claro, "A Mafalda" é um clássico ao nível da melhor literatura. Mas foi por volta de 1980 que dei com o "Não me grite", da série "Humor com humor se paga", numa livraria em Lisboa, salvo erro no centro comercial Apolo 70 em frente ao Campo Pequeno. Que deslumbramento. Tenho a obra por aqui e não raramente fotografo imagens, a maioria intemporais e ubíquas, para o blogue.

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Escolas, Aprendizagens e Covid-19

30.09.20

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Habituámo-nos às escolas do tempo sólido. Abrem, há mais de 30 anos, todas em Setembro. Listas das turmas e horários são suficientes para que tudo comece. Mas seria insuficiente para o resto do ano, se não se confirmasse (OCDE - 2019) que "os professores portugueses são os melhores a adaptar as aulas às necessidades dos alunos" (e, já agora, acrescento que, em regra, os alunos ajudam muito).

No tempo sólido, e apesar de políticas educativas comprovadamente contraditórias e líquidas, uma sociedade mais desenvolvida e escolarizada melhorou as aprendizagens dos alunos (os resultados em educação demoram duas décadas a aparecer) que no início da década de oitenta do século passado estavam muito atrasadas em relação à generalidade dos países europeus (por isso é que progredimos mais do que a média dos já desenvolvidos, mas continuamos, segundo dados de António Costa Silva, como o "pior" país europeu na conclusão do secundário). Só que os efeitos do tempo líquido, e que se reflectem dentro das paredes de cada sala de aula, são quase insondáveis e a covid-19 é mais um difícil exercício que muito beneficiará da citada conclusão da OCDE e da ajuda dos alunos.

Também Para Uma Segunda Vaga

28.09.20

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Havia apreensão com a forma como as democracias lidam com pandemias, mas a resposta dos cidadãos foi exemplar. Com tantas, e naturais, incertezas da ciência, os cidadãos usaram a informação e anteciparam o isolamento social. Outro dado importante é a prevalência da verdade nas democracias e o clima de confiança que origina. Os cidadãos não estão para estratagemas, infantilizações nem mistificações. São maduros na adversidade. Querem a verdade por mais dura que seja. Lidam melhor com "toda a informação". Preparam-se, antecipam as exigências e incluem os desvios imaturos ou desinformados. Há uma auto-regulação cidadã que abre uma janela de esperança que poderá contrariar os efeitos dos "novos" "hackers de dados da Cambridge Analytica". E se houve, com a verdade na primeira vaga, um envolvimento cidadão que fortaleceu as democracias e confinou os movimentos mais populistas e irresponsáveis, espera-se que numa suposta segunda vaga a transparência volte a ser inalienável.

Até Na Infecção Por Covid-19 Há Gradualismo

27.09.20

Contratar Mais Professores?!

27.09.20

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(Este texto é de 21 de Junho de 2020). Acentua-se a falta de professores para diversas disciplinas o que dificultará o anunciado reforço de contratação em tempo de pandemia. O problema tornou-se estrutural. Mesmo que se iniciasse uma qualquer urgência formativa, os efeitos chegariam depois de 2030. Para além disso, e é saudável que se pense também para lá da crise, mais de metade dos professores reformar-se-á nesta década e muitos cursos de formação inicial estão há anos a fio "sem alunos". Em cada cem (ou em cada mil) alunos dos cursos "regulares" do ensino secundário, contam-se pelos dedos de uma mão os que escolhem ensinar como profissão e é surpreendente que não se motive os jovens para o ensino.

Para além da falta de atractividade da profissão, dá ideia que se esgotou o modelo de formação inicial. Um caminho mais flexível e apelativo seria a criação de licenciaturas exclusivamente para as componentes científicas. Ajudaria numa mudança futura de profissão. Só nos mestrados se estudaria a pedagogia para leccionar. Apenas depois de um estágio (internato ou profissionalização) plurianual, realizado em exercício, se acederia ao quadro e a uma carreira. Mas nada disso se discute e a especificidade científica perdeu peso na profissionalidade. Aliás, até a formação para professores no activo se centra na preparação da sua irrelevância. Parece um paradoxo, mas é só parecença.

Repare-se na ligação de três factos e tendências:

1. as gigantes tecnológicas de serviços - google, amazon, uber, booking ou airbnb - não produzem conteúdos para os motores de pesquisa nem objectos, carros, hotéis ou imóveis de aluguer, mas cobram pela sua utilização na generalidade do planeta com trabalhadores independentes não regulamentados que estão na nuvem;

2. os professores no activo alimentam gratuitamente os servidores da google (por exemplo, nas plataformas drive, doc´s, classroom, gmail ou youtube) com conteúdos de ensino planificados ao detalhe e com os receptivos testes de avaliação de alunos prontos a utilizar pela IA; e a exemplo doutros domínios, a google (que ganhou mais esta disputa à microsoft) absorverá com facilidade as editoras com escolas virtuais;

3. há uma revolução do trabalho que pede como competência a ligação à internet; como escreve Klaus Schwab (2017:46), na "A Quarta Revolução Industrial", "parte da força de trabalho desenvolve diferentes tarefas para assegurar o seu rendimento - pode-se ser um motorista da Uber, um shopper do Instacart, um anfitrião do Airbnb e um Taskrabbit".  

Ou seja, criam-se condições para acrescentar os tarefeiros das salas de aula (que podem acompanhar qualquer disciplina) a pensar na civilidade presencial da escola automatizada massificada. E se os professores continuam numa zona de incerteza porque ainda não são incluídos nas profissões mais e menos propensas à automatização, dá ideia que a passividade dos sucessivos governos na formação inicial é "articulada" com as gigantes tecnológicas que prestariam, através dos cortes na educação, um "relevante" serviço aos orçamentos dos países. Dir-se-á que são as regras do jogo. Mas como dizem os investigadores da quarta indústria, o futuro pode ser muito bom ou caótico. Aliás, já se iniciou uma corrida imparável ao trabalho virtual não regulamentado que se pode transformar em forte instabilidade social e política e difícil de reverter num ensino "sem" formação de professores.

Nota: Klaus Schwab (2017), na "A Quarta Revolução Industrial", apresenta uma lista das profissões mais e menos propensas à automatização: mais propensas: operadores de marketing, contabilistas, avaliadores de seguros, árbitros e juízes desportivos, secretários e assistentes administrativos, recepcionistas, consultores imobiliários, agricultores, estafetas; menos propensas: assistentes sociais, coreógrafos, médicos e cirurgiões, psicólogos, analistas de sistemas, antropólogos e arqueólogos, engenheiros e arquitectos navais, gerentes de vendas. 

Porque Falham as Nações com Turmas Numerosas

26.09.20

Captura de ecrã 2020-09-16, às 21.27.55.pngO ensaio Porque falham as nações, de Daron Acemoglu e James Robinson, conclui sobre a história universal dos últimos três milénios: as nações não falham por causa da geografia, da cultura ou da ignorância, mas pela incapacidade em transformar políticas, instituições e empresas extractivas (que acumulam a riqueza em "elites" e oligarquias) em inclusivas (que distribuem a riqueza e diminuem as desigualdades). E sublinha que só a consolidação do modelo inclusivo durante décadas é que se repercute positivamente no crescimento económico, nas empresas, na cultura e na escolarização.

O Congo, que tem abundantes riquezas naturais, permanece há séculos nos lugares cimeiros dos países pobres porque vive subjugado à extracção. Mobutu é o exemplo recente. E é curioso: foram os portugueses que deram a conhecer a escrita aos congoleses, no século XVI, mas em pleno século XXI a nação de Camões e Pessoa ainda não erradicou o abandono escolar precoce, nem a pobreza, do seu território. O facto também se deve a "elites" extractivas. Foi assim com a escravatura, com o ouro, com as especiarias, com o colonialismo e com a recente crise de empresas parasitárias associadas ao sistema bancário, que resultou no desinvestimento nos últimos 15 anos em estruturas como a escola pública, depois de duas ou três décadas promissoras (sublinhe-se que os resultados em educação surgem duas décadas depois).

O excesso de alunos por turma é um indicador extractivo que a pandemia radiografa. E, nem por acaso, o parlamento reprovou, em Junho, a inclusiva redução de alunos por turma (é preferível uma lei que estabeleça turmas de 20 com excepções por inexequibilidade, do que turmas de 30 com as mesmas excepções). Foi Nuno Crato quem decretou o aumento das turmas e a extracção resiste a tudo: fim da troika, geringonça, superavit e pandemia. Explicou a sentença em 15 de Junho de 2013: “Uma turma com 30 alunos pode trabalhar melhor do que uma com 15. Depende do professor e da sua qualidade.” O ex-ministro contrariou o sistema inclusivo relatado por William Golding, Nobel da literatura em 1983 e professor no 1º ciclo durante três décadas, numa entrevista à RTP2 nesse ano: “Com 30 alunos não há método de ensino que resulte, mas com 10 alunos todos os métodos podem ser eficazes.”

A epifania de Crato tornou-se imutável e não apenas por pragmatismo. É aconselhada e considerada madura por "gurus" da inclusão escolar, uma área muito prejudicada com as turmas numerosas. A educação tem este azar com políticas extractivas, suportadas por “gurus”, que a representação institucional não consegue transformar em inclusivas. Na educação até existem associações científicas de professores nas mais diversas áreas, só que não são ouvidas; também por culpa própria. E há 16 sindicatos.

Noutro exemplo da mesma família que explica a prevalência extractiva, os governos de Sócrates, e também de Barroso, impuseram um elenco de medidas reprovadas por todos, mas que continua vigente. Destacam-se: avaliação de profissionais assente numa burocracia impessoal que saturou os exercícios, sistemas de avaliação de alunos “amigos” da exclusão da educação especial ou daqueles de quem se espera fracos resultados académicos" e modelo extractivo de gestão das escolas públicas.

Até se criam instituições para alargar a representatividade, só que rapidamente passam a ilusões. Transformam-se em câmaras de eco mediático de quem governa. É assim nas nações que falham. Nesta fase, salientam-se as diligentes organizações de dirigentes escolares (é um exercício temporário que representa 0,8% dos professores e que, pasme-se, já vai em três espécies de associações) e de encarregados de educação. Têm a palavra mediática ajustada sobre tudo o que é didáctico, científico e organizacional. Para se perceber melhor, e pensando na actualidade, é como se na saúde, e quando se mediatizam actos médicos, infecções e epidemias, não se ouvissem especialistas, ordens e sindicatos, mas o dirigente hospitalar e o profissional dos utentes e amigos dos hospitais.

Acima de tudo, se o ensino tivesse representação institucional inclusiva, era difícil avançar com propostas destinadas ao insucesso, havendo soluções estruturais, exequíveis e sustentadas para o problema. A redução de alunos por turma foi reprovada no parlamento, mas os papéis partidários satisfizeram os desígnios populares e anularam um imperativo que é um indicador inclusivo para o sucesso das nações a médio e longo prazo, e uma componente crítica decisiva em tempos de pandemia.

Notas: este texto foi publicado pelo Público em 25 de Setembro de 2020. De acordo com o combinado, agendei a sua publicação aberta no blogue para o dia 26 de Setembro de 2020; encontrei a imagem na internet sem referência ao autor.

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